Ficha do Proponente
Proponente
- Edevard Pinto França Junior (UNIFESP)
Minicurrículo
- Doutorando em História pela UNIFESP, mestre pela mesma instituição e professor da rede estadual da Bahia. Pesquisador das relações entre cinema, memória e política na América Latina, com ênfase no documentário baiano. Autor da dissertação A Bahia de Agnaldo “Siri” Azevedo entre sujeitos, linguagens e temporalidades (2018). Atualmente investiga os projetos estéticos e políticos do cineasta Agnaldo Siri Azevedo no contexto do Nuevo Cine Latinoamericano.
Ficha do Trabalho
Título
- Agnaldo “Siri” Azevedo e o cinema-lápide: política e forma no documentário latino-americano
Seminário
- Cinema e audiovisual na América Latina: novas perspectivas epistêmicas, estéticas e geopolíticas
Resumo
- Este trabalho propõe o conceito de “cinema-lápide” para analisar a virada estética de Agnaldo “Siri” Azevedo (1931-1997) diante da crise do Nuevo Cine Latinoamericano. Substituindo o “cinema-arma” revolucionário, seus documentários dos anos 1980-1990 elaboram o luto pelas utopias fracassadas, transformando o sertão e as cidades submersas em lugares de memória melancólica.
Resumo expandido
- Este trabalho investiga a emergência de uma estética da desesperança no documentário latino-americano dos anos 1980-1990, tomando como objeto central a obra do cineasta baiano Agnaldo “Siri” Azevedo (1931-1997). A hipótese que orienta a pesquisa é que, diante do esgotamento dos projetos revolucionários e da “lógica da derrota” que marcou a crise do Nuevo Cine Latinoamericano (NCL), “Siri” teria operado uma virada estética decisiva: substituiu o “cinema-arma” – voltado para a transformação futura – por uma modalidade documental que aqui se denomina “cinema-lápide”. Trata-se de um cinema que não aponta para o futuro, mas se volta aos escombros do passado para constatar a permanência das estruturas de opressão e performar o luto pelas utopias não realizadas.
O “cinema-lápide” não é um fenômeno isolado, mas uma resposta estética à crise de um projeto continental que, ao perder seu horizonte utópico, viu-se obrigado a elaborar o luto pelas revoluções fracassadas. Ao fazê-lo a partir das margens regionais e raciais – “Siri” é um documentarista negro, baiano, que nunca conseguiu dirigir um longa-metragem –, sua obra ilumina processos que as narrativas canônicas do NCL, centradas nos polos hegemônicos de produção (Brasil eixo sul-sudeste, Argentina, Cuba), tendem a apagar.
A análise concentra-se em quatro documentários que compõem o que chamamos de “ciclo do luto” na filmografia de “Siri”. Memórias de Deus e o Diabo em Monte Santo e Cocorobó (1984) revisita os cenários da Guerra de Canudos e das filmagens de Glauber Rocha. O filme encena a “impotência histórica” por meio de gestos resignados, uma coreografia do cansaço e uma voz que não mais clama, apenas lamenta. Ao constatar que “a situação do povo não se alterou com o tempo”, Memórias… transforma o sertão em um “lugar de memória melancólica” (Pierre Nora), onde o passado é invocado não para fundamentar ações futuras, mas para testemunhar a derrota.
Não Houve Tempo Sequer para Lágrimas (1985) e Adeus Rodelas (1989) documentam o deslocamento forçado de populações ribeirinhas pelas barragens do São Francisco. A cidade submersa torna-se metáfora da utopia afogada. O luto é performado pelos depoimentos dos moradores e pelas canções compostas pelo pajé da etnia Tuxá. O “progresso” – as hidrelétricas, o desenvolvimento – aparece como força que desaloja e aniquila modos de vida inteiros.
Por fim, O Capeta Carybé (1996), último filme de “Siri”, sintetiza a poética do cinema-lápide. Ao sobrepor as linguagens da literatura (Jorge Amado), das artes plásticas (Carybé) e do cinema, o documentário denuncia a “morte da Bahia” pelo avanço do capitalismo turístico e da especulação imobiliária. A “verdadeira Bahia” – negra, popular, sincrética – é fixada na película como um registro fúnebre, um testamento artístico que já não espera reverter o processo de destruição.
Metodologicamente, a pesquisa articula análise fílmica sistemática (organização espaço-temporal, performance, regimes da voz, relações som-imagem), pesquisa em arquivos (jornais, catálogos de festivais, entrevistas) e história social da cultura. O referencial teórico combina a teoria do documentário de Fernão Pessoa Ramos e Bill Nichols, os debates sobre memória e luto de Michael Pollak e Pierre Nora, e as críticas ao racismo estrutural de Lélia Gonzalez.
A principal contribuição deste trabalho é dupla. Primeiro, oferece o conceito de “cinema-lápide” como ferramenta analítica para o estudo de outras filmografias periféricas no continente. Segundo, insiste na necessidade de revisar a historiografia do NCL, incluindo as margens regionais e raciais como parte constitutiva – e não como apêndice – do movimento. O cinema-lápide de Siri não é um epígono tardio do Cinema Novo, mas uma resposta original ao desencanto pós-utópico, que merece lugar central no debate sobre as estéticas da derrota na América Latina.
Bibliografia
- DEL VALLE DÁVILA, Ignacio. Cámaras en trance: el nuevo cine latinoamericano, un proyecto cinematográfico subcontinental. Santiago: Cuarto Propio, 2014.
FRANÇA JUNIOR, Edevard Pinto. A Bahia de Agnaldo “Siri” Azevedo entre sujeitos, linguagens e temporalidades. Dissertação (Mestrado) – UNIFESP, 2018.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2005.
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, v. 10, p. 7-28, 1993.
POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.
RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal… o que é mesmo documentário? São Paulo: Senac, 2008.
VILLAÇA, Mariana Martins. Cinema cubano: revolução e política cultural. São Paulo: Alameda, 2010.