Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Maria Fernanda Riscali de Lima Moraes (ESPM SP)

Minicurrículo

    Maria Fernanda Riscali de Lima Moraes é doutora em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA-USP, diretora de fotografia e docente na graduação de Cinema e Audiovisual da ESPM-SP. É membro do grupo de estudos Cinematografia, Expressão e Pensamento e do Grupo de Estudos Cromáticos da ECA/USP, com o qual publicou o livro Reflexões sobre a cor (2021). É uma das organizadoras do livro Estudos sobre a direção de fotografia no Brasil (2023). Desenvolve pesquisa sobre cor, cinema e cinematografia.

Ficha do Trabalho

Título

    Lost, lost, lost: reflexões sobre os conceitos de experimental e amateur no cinema de Jonas Mekas

Mesa

    A cinematografia entre criação e extração de memórias

Resumo

    O trabalho consiste na investigação sobre os conceitos de experimental e amador nas obras de Jonas Mekas, a partir dos elementos de cinematografia de seu terceiro longa-metragem. Lost, lost, lost (1976) captura a vida do cineasta entre 1949 e 1963, focando no percurso entre a chegada a Nova York e seu estabelecimento como figura central do cinema underground. O trabalho dialoga com as reflexões de Maya Deren e Stan Brakhage sobre o termo amateur, e suas implicações enquanto prática de criação.

Resumo expandido

    Jonas Mekas (1922-2019), cineasta lituano radicado nos Estados Unidos, foi um precursor do cinema de investigação audiovisual autobiográfica, bastante em voga atualmente, sobretudo com os filmes em primeira pessoa. Sua prática cinematográfica constituiu-se da investigação formal a partir da criação sistemática de imagens do cotidiano. Observando sua cinematografia, caracterizada pela fragmentação, imprecisão e impermanência, fugindo do bem feito, do bem acabado e da qualidade técnica, percebemos que Mekas não tem nela seu objetivo último de trabalho, mas que utiliza a câmera como extensão de um corpo que vive os acontecimentos que registra. Esse procedimento, muito semelhante à forma como hoje registramos despretensiosamente as imagens com nossos celulares, nos remete ao conceito de amateur e suas implicações enquanto prática de produção e criação cinematográfica, que permeavam as reflexões de Stan Brakhage (1933-2003) e Maya Deren (1917-1961), cineastas experimentais que viveram e trabalharam no mesmo contexto artístico de Mekas. Apesar do termo refletir um entendimento socioeconômico dos autores sobre o sentido não mercadológico das produções, também se refere ao pensamento de uma visualidade específica, resultante da forma como as imagens são registradas. A visualidade dos filmes de Mekas tem como ponto de partida a forma como manipula a câmera. Lost, lost, lost (1976), seu terceiro longa-metragem, captura a vida do cineasta entre 1949 e 1963, focando no percurso entre a chegada a Nova York e seu estabelecimento como figura central do cinema underground. No filme, Mekas afirma que filmar tornou-se parte de sua natureza. As pessoas que o conheceram, relatam que o cineasta sempre carregava uma câmera, como se fosse uma extensão de seu corpo. E sua cinematografia se constrói a partir dessa câmera-corpo, câmera-gesto, sem planejamento, preparo ou ensaio. Um gesto estético que se aproxima de um modo de captação amateur, e que resulta em um pensamento sobre o exílio, a memória, o cinema e a vida. O presente trabalho investiga de que modo a cinematografia dos filmes de Mekas não é apenas relevante, mas tem um caráter fundante na construção poética e em seu questionamento sobre a forma dos filmes, bem como em sua forma de fazer filmes. Como registrou no Manifesto anti-100 anos de cinema (1996): “Há cerca de 100 anos, Deus decidiu criar a câmera de cinema. E assim o fez. E então ele criou um cineasta e disse: ‘Agora, aqui está um instrumento chamado câmera de cinema. Vá, filme e celebre a beleza da criação e os sonhos do espírito humano, e divirta-se com isso’.” Percebe-se que a celebração da vida que se propunha registrar também está presente no ato de filmar, ato estético mas também político, uma vez que afronta os modos de produção do cinema hegemônico, como também registrou em seu Manifesto: “Mas o diabo não gostou disso. Então, ele colocou um saco de dinheiro em frente à câmera e disse aos cineastas: ‘Por que vocês querem celebrar a beleza do mundo e seu espírito se podem ganhar dinheiro com este instrumento?’ E, acreditem ou não, todos os cineastas correram atrás do saco de dinheiro. O Senhor percebeu que havia cometido um erro. Então, cerca de 25 anos depois, para corrigir seu erro, Deus criou cineastas independentes de vanguarda.” Este trabalho, portanto, apresenta a cinematografia de Lost, lost, lost como elemento estrutural no modo de produção experimental de Jonas Mekas.

Bibliografia

    BRAKHAGE, Stan. En defensa de lo amateur. In: BRAKHAGE, Stan. Por un arte de la visión:
    Escritos esenciales. Buenos Aires: EDUNTREF, 2014. p. 103-111.
    DEREN, Maya. Amateur versus Profesional. In: DEREN, Maya. El universo Dereniano:textos
    fundamentales de la cineasta Maya Deren. Cuenca: Ediciones de la Universidad de Castilla-
    La Mancha, 2015. p. 177-178.
    DEREN, Maya. “Cinema: o uso criativo da realidade”. Revista Devires: Belo Horizonte, v. 9, n. 1, 2012, p. 128-149.
    DEREN, Maya. Essential Deren: collected writings on film. Nova York: McPherson & Company, 2005.
    MEKAS, J. Manifesto anti-100 anos de cinema. In: MACKENZIE, Scott. Film Manifestos and Global Cinema Cultures. Berkeley: University of California Press, 2014.
    VALLES, Rafael. “Stan Brakhage, Maya Deren e Jonas Mekas: por uma poética do amateur”. Intexto, Porto Alegre, UFRGS, n. 48, 2020, p. 176-193.