Ficha do Proponente
Proponente
- Luane Fernandes costa (UFPE)
Minicurrículo
- Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela UERN, mestra em Estudos da Mídia pela UFRN, doutoranda em Comunicação pela UFPE, pesquisa visualidades e sonoridades brasileiras de matrizes africanas e indígenas, pensando as dinâmicas que envolvem performance, epistemologias, ritos, gestualidades, território e sacralidade. É membro do GRUPOP (UFPE) e VISU (UFRJ).
Ficha do Trabalho
Título
- A ESPIRAL DO PASSINHO: corpo-território e os gestos vitais da periferia recifense no bregafunk
Seminário
- (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências
Resumo
- O estudo investiga as dimensões gestuais, estéticas e epistemológicas do “passinho” no Bregafunk das periferias da Grande Recife. As gestualidades são lidas como encruzilhadas sônico-visuais em diálogo com a cultura popular de Pernambuco. A partir dos conceitos de corpo-território (Gago, 2020) e corpo-tela (Martins, 2021), propõe-se que corporeidades são superfícies de memórias e afetos que desacatam a colonialidade, inscrevendo no urbano uma estética que reivindica certos modos de vida e territ
Resumo expandido
- Ao pensar as dimensões coreográficas do passinho do Bregafunk no Recife, frisamos que não observamos uma prática em lugar fixo, mas sim dinâmico e mutável.
Este estudo pensa nas imbricações, via corpus no Youtube, das expressões contemporâneas da Grande Recife coexistindo com manifestações da cultura popular, indicando uma espiral de gestualidades pelo corpo. São eles: videoclipe do Passinho do Jamal (2025), “Shevchenko e Elloco – Festinha dos Maloka” (2019), “Maracatu Nação Pernambuco” (2012) e “Maracatu de Baque Solto – Estrela Brilhante” (2019).
Por meio da encruzilhada sônico-visual (Soares et al., 2026) e de pensadores do Sul Global, pensaremos as dimensões epistemológicas, políticas e estéticas do passinho. Apostamos que o corpo-território (Gago, 2020) e o corpo-tela (Martins, 2021) são conceitos chave para pensar a indissociabilidade das epistemes corporais com as periferias que a compõem.
Refletir essas audiovisualidades nos permite uma formulação que escapa à lógica da preservação colonial (Soares et al, 2026, p. 7). Nossa proposta é estudar os gestos de Pernambuco a partir de arquivos vivos e imagens sonoras (Martins, 2021) que se relacionam simultaneamente, articulando aspectos técnicos e performance corporal.
Encruzilhadas Sônico-Visuais do Bregafunk no Recife
Oriundo de Santo Amaro, o passinho do Jamal remove a eroticidade comum aos passinhos dos malokas. Gestualidades pélvicas saem de cena, dando espaço a movimentos em reverse e sincronizados de braços e pernas. Projetos de lei que visavam proibi-los (Oliveira, 2025) usavam como argumento o caráter erotizado da dança, revelando uma moral estética.
A gestualidade transforma-se com o Jamal, surgindo nova estética das periferias. Não dá para ignorar as diferentes possibilidades performáticas e epistemológicas que habitam um mesmo território, transferindo saberes pela corporalidade.
Com relação as culturas populares pernambucanas, o Maracatu Nação liga-se a matrizes africanas. Em contrapartida, assim como o Caboclinho, o Maracatu de Baque Solto liga-se ao culto da Jurema Sagrada na Zona da Mata Norte. Pensando a gestualidade dessas culturas, todas possuem a marcação de firmar o pé no chão como característica central. Ao pensar as coreografias entrelaçadas, forma-se uma espiral de pertencimento àquele espaço pelas marcações do corpo.
O corpo-tela constitui o sujeito em linguagem que inclui poéticas e memórias. Movimentos espiralares, como a agilidade dos pés e a postura de ataque do Caboclinho, agachamento e flecha imaginária são fontes de oralitura (Martins, 2021) que grafam saberes no gesto. Pensar o corpo-território aliado ao corpo-tela é entender o corpo como arquivo vivo.
Com o Jamal, observamos um desacato colonial: sabedoria grafada no asfalto em cima dos beats. A coreografia abandona a flexão pélvica, passando a ser executada com o firmar dos pés no chão e flexão de cotovelos, em looping de 5 tempos. Esse gesto de firmar o pé está presente no Caboclinho, Coco e Maracatu, formando a espiral de pertencimento. O corpo que performa sofre as variações do território. Um não se dissocia do outro.
Desse modo, percebemos a corporeidade dos brincantes chocando a moralidade colonial de seu território. O corpo do passinho também pode estar fundamentado no Maracatu de Baque Solto, ou ser um Caboclo de Lança que performa no clipe de Anderson Neiff. São espirais culturais de conhecimento. No Caboclinho, a sobrevivência está na guerra dançada (Acserald, 2022). Com o passinho, a quebra da expectativa de gênero e a fabulação (Nyongo, 2018) da alegria reiteram modos de viver contra a colonialidade.
São epistemes que aproximam as pessoas marginalizadas, demandando do corpo-território reconhecimento em cultura feita por e para elas. O videoclipe age como encruzilhada sônico-visual capaz de fabular conexões em diferentes temporalidades. É esse conjunto que garante a sobrevivência de saberes vitais. Visualizamos, portanto, o audiovisual como ferramenta pedagógica, ativist
Bibliografia
- ACSELRAD, Maria. 2022. Avança Caboclo!: A dança contra o Estado dos caboclinhos de Pernambuco. Recife: Editora da UFPE. 191 p.
GAGO, Veronica. A potência ou o desejo feminista de transformar tudo. São Paulo: Elefante, 2020.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
NYONG’O, Tavia. Afro-fabulations: The queer drama of Black life. New York: NYU Press, 2018.
OLIVEIRA, Jeniffer. Brega funk vai de movimento cultural a foco de disputa ideológica. Marco Zero Conteúdo, 24 set. 2025. Disponível em: https://marcozero.org/brega-funk-vai-de-movimento-cultural-a-foco-de-disputa-ideologica/.
SOARES, Thiago; FERNANDES COSTA, Luane; SANTOS COSTA, Tiago. Escutar as curvas dos gestos vitais: epistemologias coreográficas afro caribenhas e afro indígenas do passinho dos malokas. 2026. Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Estudos de Som e Música no 35º Encontro Anual da Compós, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Natal