Ficha do Proponente
Proponente
- Yasmin Brigato de Angelis (UAM)
Minicurrículo
- Em 2012 obteve o título de Técnica em Design de Interiores pelo SENAC de São José do Rio Preto/SP. Conquistou a graduação em 2016, como Bacharela em Arquitetura e Urbanismo pela UNIFEV, na cidade de Votuporanga/SP. Em 2020 obteve o título de Mestra, pela UNESP de Bauru. Em 2025 obteve o título de Doutora pelo PPGCOM da Universidade Anhembi Morumbi. Atualmente, se dedica às pesquisas relacionadas ao cinema de fluxo.
Ficha do Trabalho
Título
- Devir-deriva: uma metodologia de análise das variações sensório-temporais no cinema de fluxo
Resumo
- Este trabalho propõe apresentar o método devir-deriva como abordagem analítica para o cinema de fluxo, respondendo à insuficiência de modelos centrados na narrativa. Articulando devir e rizoma, de Gilles Deleuze e Félix Guattari, à deriva de Guy Debord, o método aqui é aplicado ao filme Verano, de Torres Leiva, evidenciando sua capacidade de apreender variações sensório-afetivas na imagem.
Resumo expandido
- O debate em torno do cinema de fluxo evidencia a emergência de obras que deslocam a centralidade da narrativa para a experiência sensorial, operando por meio de durações dilatadas, rarefação da ação e valorização de micro variações perceptivas. Nesse contexto, métodos tradicionais de análise fílmica, centrados na progressão dramática, na psicologia dos personagens ou na estrutura narrativa, mostram-se insuficientes para apreender as dinâmicas que organizam essas imagens. O problema que orienta este trabalho é, portanto, de ordem metodológica: como pensar um procedimento analítico capaz de operar no nível das intensidades e dos sentidos e não apenas das representações?
Como resposta, propõe-se o método devir-deriva, formulado a partir da articulação entre os conceitos de devir e rizoma, desenvolvidos por Gilles Deleuze e Félix Guattari, e a noção de deriva, tal como pensada por Guy Debord. O devir opera como chave conceitual para a leitura das variações contínuas que atravessam a imagem, permitindo compreender o filme como processo e não como estrutura fixa. A deriva, por sua vez, é mobilizada como procedimento analítico, orientando um modo de atenção que se desloca junto às imagens, sem impor hierarquias prévias entre elementos narrativos, espaciais ou sensoriais.
A operacionalização do método se dá pela observação sistemática de aspectos da mise-en-scène, como duração dos planos, relação entre corpo e espaço, modulações sonoras e organização temporal. Em vez de buscar significados, a análise acompanha micro variações: gestos mínimos, alterações progressivas na matéria visível e deslocamentos de ritmo, entendidas como pontos de inflexão na experiência fílmica. Esse procedimento implica suspender a leitura causal e privilegiar a identificação de padrões de intensidade e continuidade sensorial.
A aplicação do método é demonstrada a partir da análise de Verano (José Luis Torres Leiva, 2011). Em um plano fixo e prolongado, o personagem Ignacio permanece no banho enquanto a pele de seus dedos se enruga gradualmente. A variação não é pontual nem imediatamente perceptível, mas cumulativa: ela só se torna evidente pela duração do plano. A devir-deriva opera aqui ao deslocar a atenção da ação para o processo, acompanhando a transformação como acontecimento. O tempo deixa de funcionar como medida externa da narrativa e passa a ser apreendido como modulação interna da matéria visível, inscrita no corpo. Uma abordagem centrada na progressão dramática tenderia a considerar o plano como redundante; o método proposto, ao contrário, identifica nele um núcleo de organização da experiência.
Os resultados indicam que o método devir-deriva não apenas descreve essas obras, mas oferece um procedimento analítico capaz de acompanhar seus modos de organização interna. Ao articular devir como operador conceitual e deriva como prática de leitura, a proposta contribui para o campo dos estudos de cinema ao formular uma abordagem metodológica ajustada às exigências formais e perceptivas do cinema de fluxo, ampliando as possibilidades de análise da experiência cinematográfica contemporânea.
Bibliografia
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