Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Rebeca Franco Fonseca de Freitas (UFPEL)

Minicurrículo

    Mestra em Artes pela UFPel, na linha de pesquisa Educação em Artes e Processos de Formação Estética. Pesquisadora no PhotoGraphein – Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação. Graduada em Cinema e Audiovisual pela mesma instituição. Finalista do Prêmio ABC 2023 como melhor direção de fotografia universitária com o curta Madrugada (2022). Dirigiu, roteirizou e fotografou os curtas Matanga (2026) e o curta Comboio pra Lua (2020), selecionado em festivais como Gramado e Tiradentes.

Ficha do Trabalho

Título

    Direção de fotografia e processo: desafios em filmagem externa e interna no curta-metragem Matanga

Eixo Temático

    ET 5 – ETAPAS DE CRIAÇÃO E PROCESSOS FORMATIVOS EM CINEMA E AUDIOVISUAL

Resumo

    Este trabalho analisa os desafios da direção de fotografia em locações externas e internas a partir do processo de criação do filme Matanga (Rebeca Francoff, 2026), realizado integralmente à noite. A pesquisa, em contexto de baixo orçamento no cinema brasileiro contemporâneo, investiga como condições de produção, decisões técnicas, logísticas e estéticas se articulam como prática processual e criativa, evidenciando a relação entre imagem e território no Loteamento Dunas, em Pelotas/RS.

Resumo expandido

    O resumo propõe uma reflexão sobre os desafios direção de fotografia em locações externas e internas, a partir do processo de criação do filme Matanga, curta-metragem realizado integralmente em condições noturnas, no contexto do cinema independente brasileiro contemporâneo e sob regime de baixo orçamento. A pesquisa se insere no campo dos estudos sobre processos de criação, articulando prática e reflexão a partir de uma perspectiva situada.

    Partindo dessa delimitação, o trabalho analisa comparativamente os desafios específicos das filmagens noturnas, em ambientes externos e internos, compreendendo como cada situação impõe demandas criativas distintas à direção de fotografia. A condição noturna, transversal a todo o filme, intensifica tais desafios (Denevi, 2010), exigindo decisões que envolvem controle de luz, gestão de contraste, definição de fontes luminosas e negociação constante com zonas de sombra.

    Além disso, o processo de realização de Matanga envolveu a experimentação com sistemas de captação distintos, como por exemplo as câmeras Blackmagic Ursa Mini e Canon 60D, o que implicou a convivência entre diferentes respostas de sensor e comportamentos em baixa luminosidade. Essa escolha, atravessada por condições concretas de produção, não se limita a uma questão técnica, mas se desdobra em implicações estéticas, influenciando diretamente a textura da imagem, a presença do ruído e as possibilidades de registro da noite.

    A partir dessa perspectiva, a direção de fotografia é compreendida como um campo que organiza, escolhe, domina e articula a imagem, servindo como mediação entre condições materiais na construção sensível (Dubois, 2012). No entanto, ao invés de reafirmar uma ideia de controle total, o trabalho evidencia como o processo de criação, especialmente em contextos noturnos, desloca essa noção, exigindo constante adaptação às contingências do real.

    Para desenvolver essa abordagem, a análise mobiliza elementos do próprio processo, incluindo reflexões elaboradas em entrevista ao blog Culture Injection (2026), entendida aqui como parte da construção crítica do fazer cinematográfico. Assim, o texto propõe uma metodologia que aproxima relato de experiência e análise teórica, tensionando as fronteiras entre prática e pensamento no campo audiovisual contemporâneo.

    No que se refere às locações externas, destacam-se desafios relacionados à instabilidade climática, às variações da luz natural (ainda que residual), aos atravessamentos imprevistos e às limitações logísticas, como acesso à energia e mobilidade da equipe. Em Matanga, filmado no Loteamento Dunas, localizado na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, esses elementos não são tratados apenas como obstáculos, mas como forças constitutivas da imagem. Trata-se de um território atravessado por camadas de invisibilização histórica e precarização, no qual a imagem não pode ser dissociada de suas implicações éticas e políticas.

    Nesse sentido, o trabalho dialoga com Ariella Azoulay (2008), ao compreender a fotografia como um campo de relações entre sujeitos e estruturas de poder, no qual ver e mostrar implicam responsabilidade diante do outro. Essa perspectiva é tensionada pelas reflexões de Susan Sontag (2010), que apontam para a ambivalência da imagem fotográfica entre registro, recorte e fabulação sobre o real. Ao mesmo tempo, o trabalho se ancora em Filipe Falcão (2024) ao abordar a direção de fotografia como prática de tradução estética e material do roteiro em imagem.

    Filmar no Dunas, nesse sentido, implica reconhecer que a imagem registra, mas também inscreve em uma rede de visibilidades e apagamentos. Assim, a direção de fotografia pode ser considerada gesto de posicionamento, entre mostrar (luz), ocultar (sombra) e sustentar a presença de corpos e histórias frequentemente relegados à margem. Portanto, o trabalho contribui para o debate sobre metodologias e práticas no cinema contemporâneo, evidenciando processos de criação e deslocamentos estéticos e políticos.

Bibliografia

    AZOULAY, Ariella. O contrato civil da fotografia. New York: Zone Books, 2013.
    DENEVI, Rodolfo. Introducción a la cinematografía. Buenos Aires: Sindicato de la Industria Cinematográfica Argentina, 2010.
    DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico e outros ensaios. 14. ed. Campinas: Papirus, 2012.
    FALCÃO, Filipe. Introdução à direção de fotografia: como transformar o seu roteiro em filme. São Paulo: Gênio Editorial, 2024.
    CULTURE INJECTION. Entrevista com Rebeca Francoff, sobre o curta-metragem Matanga. 28 mar. 2026. Disponível em: https://cultureinjection.wordpress.com/2026/03/28/entrevista-com-rebeca-francoff/. Acesso em 14 abr. 2026.
    SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.