Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Demian Albuquerque Garcia (UNESPAR)

Minicurrículo

    Doutor em Artes – Cinema (UPJV, França) e mestre em Estudos Cinematográficos (Sorbonne Nouvelle – Paris 3). Professor na UNESPAR, onde leciona som e música para cinema e cinema japonês. Atua como compositor, editor de som e sound designer para cinema e teatro no Brasil e na França. Integra os grupos de pesquisa LAPIS (UFPE/CNPq) e CineCriare (PPG-CINEAV/CNPq), desenvolvendo estudos sobre a relação entre influências culturais e processos de criação sonora no cinema.

Ficha do Trabalho

Título

    Culturas de criação sonora no cinema: funções, nomenclaturas e processos de trabalho em perspectiva

Resumo

    O trabalho analisa como as denominações e funções dos profissionais do som no cinema variam em diferentes contextos culturais, a partir de uma comparação entre Brasil, Estados Unidos, França e Japão. Argumenta-se que essas nomenclaturas refletem distintas concepções do papel criativo do som. No Brasil, destaca-se a ausência de padronização na nomeação do profissional responsável pela concepção global do som.

Resumo expandido

    Este trabalho investiga como as denominações e funções dos profissionais do som no cinema (editor de som, mixador, sound designer ou o “responsável pelo som”) variam conforme contextos culturais e industriais distintos. A partir de uma abordagem comparativa entre Brasil, Estados Unidos, França e Japão, discute-se de que maneira essas funções se organizam nos workflows e nas hierarquias da criação sonora. O estudo mostra que tais denominações não correspondem apenas a categorias profissionais, mas refletem diferentes modos culturalmente situados de conceber o papel criativo do som no filme.
    Nos Estados Unidos, especialmente a partir dos anos 1970, observa-se a consolidação de uma figura responsável pela concepção global do som do filme. Inicialmente associada ao termo sound designer, essa função passa, com o tempo, a ser designada sobretudo como supervising sound editor, acompanhando o projeto ao longo de todo o processo de produção, da pré-produção à mixagem final. Esse modelo articula uma organização altamente departamentalizada do trabalho com uma centralização das decisões criativas em torno dessa figura, sustentada por um acompanhamento contínuo do projeto e por um planejamento sonoro desenvolvido desde as fases iniciais.
    Na França, por outro lado, a concepção sonora tende a se organizar de maneira distinta. Embora o trabalho seja distribuído entre diferentes profissionais, o mixador ocupa frequentemente uma posição central, sobretudo no momento da mixagem, entendido como espaço privilegiado de construção estética. Nesse contexto, a definição do projeto sonoro pode ocorrer de forma mais tardia, implicando uma reorganização das decisões ao longo do processo.
    No Japão, a organização do trabalho sonoro segue ainda outra lógica, caracterizada pela distribuição das responsabilidades entre diferentes profissionais e pela forte valorização da captação do som direto. Com base em entrevistas realizadas com técnicos, realizadores e compositores, observa-se que a concepção sonora é frequentemente orientada pelo diretor e pelo roteirista, sendo desenvolvida de maneira menos centralizada e mais fragmentada ao longo das etapas de produção.
    O caso brasileiro, por sua vez, revela uma configuração híbrida, marcada por influências tanto do modelo estadunidense quanto do europeu. No entanto, além dessa articulação entre diferentes práticas, destaca-se a ausência de uma nomenclatura estabilizada para designar o profissional responsável pela concepção global do som. Termos como “diretor de som”, “supervisor de som”, “sound designer” ou mesmo “mixador” são utilizados de forma variável, frequentemente sem delimitação clara de funções.
    Essa instabilidade terminológica não se limita a uma questão de linguagem, mas aponta para a ausência de padronização na nomeação desse profissional e na atribuição de suas responsabilidades criativas no processo de criação sonora. Ao dificultar a identificação de uma figura responsável pela concepção global do som, ela evidencia a coexistência de diferentes denominações no cinema brasileiro.
    Assim, o trabalho propõe compreender as nomenclaturas não como categorias neutras, mas como indicadores de culturas de criação sonora, que influenciam tanto os processos de produção quanto os resultados estéticos dos filmes, incluindo a própria identificação da figura responsável pela concepção global do som. Contudo, mudanças tecnológicas recentes e uma crescente regulamentação dos processos, especialmente no contexto das plataformas de streaming, tendem a promover uma padronização dos workflows e das nomenclaturas, podendo reduzir as nuances culturais que caracterizam essas práticas.

Bibliografia

    BARNIER, M. En route vers le parlant: histoire d’une évolution technologique, économique et esthétique du cinéma (1926-1934). Paris: Editions du CEFAL, 2002.
    BARNIER, M. Pour une histoire des appareils et des métiers du cinéma et de l’audiovisuel. In: Métiers et techniques du cinéma et de l’audiovisuel. Sources, terrains, méthodes. Bruxelas: Peter Lang B, 2020.
    DESHAYS, D. Pour une écriture du son. Paris: Klincksieck, 2006.
    GARCIA, D. La construction de la peur à travers le son : Analyse comparative du son dans les films de fantômes au Japon et aux États-Unis. 2024. – UPJV – Université de Picardie Jules Verne, Amiens, França, 2024.
    ONDAATJE, M.; MURCH, W. Conversations avec Walter Murch: l’art du montage cinématographique. Paris: Ramsay, 2009.
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