Ficha do Proponente
Proponente
- Natália Mühlemberg Araujo (Unespar)
Minicurrículo
- Natália Mühlemberg é mestranda do Programa de Pós-Graduação Mestrado Acadêmico em Cinema e Artes do Vídeo (PPG-CINEAV) da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), campus de Curitiba II/Faculdade de Artes do Paraná (FAP), com Bolsa de Demanda Social da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Bacharel em Cinema pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua como fotógrafa, assistente e operadora de câmera em produções audiovisuais.
Ficha do Trabalho
Título
- AS VÁRIAS CÂMERAS DE HONG SANGSOO
Seminário
- Teoria de Cineastas: dos processos de criação à dimensão política do cinema
Resumo
- Este trabalho investiga o uso de diferentes dispositivos de captação (película, digital e camcorder) na filmografia de Hong Sangsoo, a partir da análise de três filmes (2004, 2017, 2025). Essas escolhas incidem sobre a forma fílmica, a textura e a aparência da imagem, evidenciando que o meio de captação opera como vetor reflexivo que tensiona a ideia de “cinematográfico” e se articula a uma teoria honguiana do cinema, na qual a materialidade da câmera se afirma como expressão do gesto artístico.
Resumo expandido
- Realizador de mais de 30 longas-metragens ficcionais, o sul-coreano Hong Sangsoo é um do cineastas mais prolíficos atualmente. Tal produtividade se dá graças ao método de produção que desenvolveu ao longo dos 30 anos de carreira e que lhe permite gravar com a constância de pelo menos um longa ao ano. Seu cinema se caracteriza pela constância estilística e pela repetição. Trata-se de uma forma fílmica minimalista e anti-códigos vinculados ao cinema clássico: planos longos, zooms bruscos que saltam ao olhar, recusa de raccords e contra-planos.
Paralelamente, é um cinema que se mostra cada vez mais e mais doméstico em sua manufatura. Embora as características se mantenham relativamente constantes, a experiência espectatorial tende a produzir a impressão de que não se está diante do “Cinema” com C maiúsculo, ainda que se trate de filmes ficcionais narrativos. Essa sensação se dá, atualmente, em grande parte por conta da aparência específica da imagem de seus filmes mais recentes. Tal aspecto está diretamente relacionado ao método de produção adotado por Hong, cada vez mais baseado em uma lógica de intimidade com suas microequipes, recorrência de colaboradores e acúmulo de funções pelo próprio cineasta, que atua como roteirista, montador, compositor e, mais recentemente (desde “Introduction”, de 2021), como diretor de fotografia.
A fim de compreendermos melhor como o adjetivo “doméstico” se associa ao cinema do realizador ao longo dos anos, propomos a análise de três momentos fotográficos da sua filmografia: “Woman is the Future of Man” (2004), rodado em película 35mm com uma equipe técnica grande e tradicional; “Grass” (2017), filmado em digital com câmera de médio porte e equipe reduzida (operador e assistente); e “What Does That Nature Say to You” (2025), fotografado pelo próprio cineasta com uma pequena camcorder, sem assistente, sem aparato de iluminação e sem a colaboração do diretor de fotografia recorrente Kim Hyung-koo, responsável pelos dois filmes anteriores.
Partindo dessa análise comparativa, podemos observar que a sensação de algo ser “doméstico”, não decorre apenas das condições de produção, mas também das escolhas fotográficas: especialmente, a escolha dos dispositivos de captação. Sabemos, por meio de entrevistas de Hong, que ele sempre teve controle absoluto da fotografia de seus filmes, não importando quem fosse seu fotógrafo; sempre foi Hong quem decidiu a posição, o enquadramento e o movimento de câmera (Lim, 2022). Nesse contexto, a escolha por um tipo de câmera estranha ao cinema profissional, constitui um desdobramento coerente do seu método de produção. O meio de captação – da película à camcorder – torna-se, assim, elemento central de seu cinema, articulando-se diretamente a uma teoria honguiniana do fazer fílmico.
Assim, essa transformação resulta em imagens distintas. Embora alguns procedimentos como os zooms, planos longos, a câmera fixa e afins se mantenham, outros elementos se modificam, evidentemente, como o caso da textura da imagem, que fica progressivamente mais ruidosa, associada à baixa resolução e à ausência de iluminação controlada. Além disso, observa-se um aumento do grau de abstração visual, decorrente do uso recorrente de desfoque, que tende a fundir personagens e paisagem no mesmo campo perceptivo.
Desse modo, não é a mise en scéne minimalista que sofre alterações decisivas no cinema recente de Hong, mas a aparência da imagem, que passa a arquitetar novas inflexões metafílmicas (Lim, 2022) sobre o próprio fazer cinematográfico. A câmera, nesse contexto, deixa de ser apenas um instrumento técnico para se afirmar como expressão direta do gesto do cineasta; um gesto simultaneamente fílmico, no sentido de Vilém Flusser (2014), e amador, conforme Lila Foster (2020) propõe.
Bibliografia
- FOSTER, Lila. O gesto amador no cinema de Júlio Bressane. Significação, São Paulo, v. 47, n. 54, p. 311-333, jul-dez. 2020
FLUSSER, Vilém. Gestures. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2014.
GARCIA, Alexandre Rafael. Filmes de conversação: conceito, história e análise de um estilo cinematográfico. 2022. 316 f. Tese (Doutorado) – Curso de História, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2022.
HONG, Sang-soo. Director’s dialogue with Dennis Lim. Film at Lincoln Center (YouTube), Outubro, 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=DjAOlKrdpls. Acesso em: 03 mar. 2025.
LIM, Dennis. Tale of Cinema. Fireflies Press: Austrália, 2022.
MEDEIROS, Vitor Gurgel de. Amores interessantes: processo, forma e afeto no cinema de Hong Sang-soo. 2018. 153 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2018.