Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    ANA CAROLINA ARAUJO ABREU (UFPA)

Minicurrículo

    Carol Abreu é doutoranda em Artes pela UFPA e mestre em Artes (UFPA/CAPES). Artista e pesquisadora, desenvolve o projeto Studio Som Jolie, que investiga memória, arquivos pessoais e experimentações sonoras no campo do audiovisual expandido. Premiada pela FCP/PA (Prêmio Branco de Melo, 2023), Banco da Amazônia (2022) e Associação Fotoativa (2020). Atuou como Gerente de Cultura do Sesc Pará, com experiência em curadoria, audiovisual e mediação cultural.

Ficha do Trabalho

Título

    Fabulações do luto e experimentações sonoras no projeto Studio Som Jolie

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    O trabalho propõe uma reflexão sobre “Fins do mundo e o mundo sem fim” a partir do luto e da criação artística no projeto Studio Som Jolie. A morte do pai instaura um fim íntimo, reelaborado por meio de práticas que articulam realismo e fabulação. Ao ativar um acervo de vinis e vozes em experiências participativas, a pesquisa investe na experimentação sonora como forma de memória viva, propondo novas narrativas no campo do audiovisual expandido.

Resumo expandido

    O presente trabalho propõe uma reflexão sobre o tema “Fins do mundo e o mundo sem fim” em articulação com o eixo “Fabulações, realismos e experimentações estéticas e narrativas no cinema mundial”, a partir de uma experiência autobiográfica atravessada pelo luto e pela criação de dispositivos artísticos de memória. A morte do meu pai, ocorrida durante a pandemia de COVID-19, instaura um “fim de mundo” íntimo, entendido como ruptura de uma estrutura afetiva, simbólica e cotidiana. Esse acontecimento mobiliza um processo de reelaboração poética no qual a arte se configura como campo de resistência à finitude e de invenção de outras formas de permanência.

    Nesse contexto, o projeto Studio Som Jolie emerge como prática que articula realismo e fabulação. Por um lado, ancora-se em um dado real (o acervo musical herdado, composto por discos de vinil, arquivos sonoros e registros audiovisuais); por outro, produz fabulações ao ativar essas materialidades em novas narrativas, compartilhadas com o público. A pesquisa desloca a noção de arquivo como instância fixa para compreendê-lo como campo expandido, relacional e em constante atualização, aproximando-se das concepções de memória cultural (ASSMANN) e de duração (BERGSON), nas quais o passado se atualiza no presente.

    A proposição artística se estrutura por meio de práticas participativas que tensionam os limites entre documento e invenção. Ao compartilhar o acervo, os participantes inscrevem suas próprias histórias, produzindo uma rede de memórias que se constitui como fabulação coletiva. Nesse sentido, o trabalho dialoga com perspectivas do cinema expandido e do audiovisual contemporâneo que borram as fronteiras entre ficção e realidade, operando em um campo híbrido, no qual o gesto narrativo emerge da experiência sensível.

    Ao privilegiar o som (especialmente a voz) como matéria central, a pesquisa investe em uma experimentação estética que desloca a centralidade da imagem no cinema, aproximando-se de práticas do audiovisual expandido. A voz, entendida como vestígio e presença, atua como elemento narrativo que atravessa o tempo, ativando camadas afetivas da memória e instaurando uma escuta como experiência estética. Tal escolha aproxima o trabalho de investigações contemporâneas que exploram a dimensão sonora como campo narrativo autônomo e potente.

    Dessa forma, o trabalho propõe compreender o luto como dispositivo de criação, no qual o fim do mundo individual se converte em abertura para múltiplas fabulações possíveis. O “mundo sem fim” se configura, assim, como um espaço de continuidade, não no sentido de negação da morte, mas como afirmação da vida por meio da memória, da escuta e da criação artística. Ao articular realismo, fabulação e experimentação, o projeto contribui para o debate sobre novas formas de narratividade no cinema e no audiovisual contemporâneo, especialmente no contexto de práticas que emergem de experiências situadas e afetivas.

Bibliografia

    ASSMANN, Aleida. Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural. Campinas: Unicamp, 2011.

    BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso: ensaios críticos III. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

    BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.

    BERGSON, Henri. Matéria e memória. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

    DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2005.

    MANOVICH, Lev. The language of new media. Cambridge: MIT Press, 2001.

    PARENTE, André. Cinema em trânsito: do dispositivo do cinema ao cinema do dispositivo. Rio de Janeiro: Azougue, 2007.

    RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível. São Paulo: Editora 34, 2005.

    SALLES, Cecília Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. São Paulo: Annablume, 2009.

    Hélio Oiticica. Aspiro ao grande labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.