Ficha do Proponente
Proponente
- Nílbio Thé (Unisul)
Minicurrículo
- Técnico em realização Audiovisual. Tecnólogo em Artes Plásticas. Especialista em Arte e Educação, Artes Visuais, Neuroeducação e Gestão Cultural. Mestre em Políticas Públicas & Sociedade. Doutorando em Ciências da Linguagem pela Unisul sob orientação de Ramayana Lira, coautora do referido trabalho.
Ficha do Trabalho
Título
- A profecia midiatizada da vigilância em Metrópolis: o fim do mundo começou
Resumo
- Em 2027, Metrópolis completa cem anos. O filme de Fritz Lang, baseado no livro de Thea von Harbou, é ambientado precisamente em 2026, o que nos convida a confrontar diretamente a ficção científica de um século atrás e o presente que habitamos. Isto é o ponto de entrada para um problema de pesquisa: em que medida Metrópolis funciona como matriz imagética da vigilância tecnológica contemporânea, da vigilância tecnológica contemporânea, da demonização do corpo feminino e do sufocamento operário.
Resumo expandido
- Em 2027 a adaptação cinematográfica de Metrópolis completa cem anos. O filme de Fritz Lang, baseado no romance de Thea von Harbou, sua esposa na época, é ambientado precisamente em 2026, o que nos convida a confrontar diretamente a ficção científica do início do século XX e o presente que vivemos um século depois. Este trabalho parte dessa coincidência temporal não como curiosidade anedótica, mas como ponto de entrada para um problema de pesquisa: em que medida Metrópolis funciona como matriz imagética da vigilância tecnológica contemporânea, da demonização do corpo feminino e do sufocamento dos movimentos de trabalhadores?
O conceito operativo proposto é o de profecia midiatizada, elaborado a partir de uma passagem de Dora, Doralina de Rachel de Queiroz:
“Não vou contar o que foram as minhas primeiras semanas no Rio; eu já estava preparada para a cidade. Não só pelas outras que conhecia – Belém, Fortaleza, Recife, Belo Horizonte, mas de cinema, de revistas, das conversas de todo o mundo; o Rio é um lugar para onde a gente sempre acha que está voltando, embora nunca tenha estado lá.”(QUEIROZ, Rachel, p. 160 1992)
No romance a personagem principal vira atriz de uma trupe de teatro que viaja por todo o Brasil e cada viagem é uma novidade e uma descoberta, com exceção do Rio de Janeiro. O Rio, conforme descrito no trecho acima, é uma cidade tão famosa por conta de sua presença massiva nos meios de comunicação de massa (na época cartões postais, rádio e etc) que era um lugar que, de algum modo, já se conhece ainda que vagamente. Uma cidade, portanto, para onde nunca se vai, mas sempre se volta, mesmo sem jamais tê-la visitado. Inclusive, sua imagem (visual, sonora, conceitual) ainda circula com tal intensidade e em tantas mídias que produz em nós uma experiência antecipada e estruturante. A profecia, aqui, não é espiritual, mística, mágica ou metafísica: é o efeito de uma obra tão saturada de imagens e narrativas que passamos a viver o presente através das formas que ela já havia construído. Metrópolis não “previu” o futuro; ele o moldou como repertório. Entendemos, portanto, a profecia midatizada como uma espécie de “intimidade antecipada” com algo. Seja de uma cidade (Rio) , seja de um futuro dominado por tecnologias opressoras (Metrópolis).
A metodologia se estrutura numa combinação de análise fílmica do longa-metragem de Lang, a leitura crítica do romance-fonte de Harbou mobilizando como suporte teórico os estudos sobre vigilância e controle (a partir de autores como David Lyon e Shoshana Zuboff), além da pesquisa sobre os atuais debates sobre ginoides e tecnologias de gênero e, também, das teorias da mediação. Casos contemporâneos de vigilância algorítmica doméstica como o episódio dos robôs aspiradores Ecovacs Deebot X2 hackeados em cidades norte-americanas em 2024, com acesso a imagens residenciais usadas para treinamento de inteligências artificiais, servem como exemplos de atualização daquilo que o filme e o livro já encenavam: a vigilância como infraestrutura do controle social, operada por dispositivos integrados ao cotidiano doméstico.
A análise espera demonstrar que Metrópolis articula, de modo que ainda interpela o presente, ao menos quatro problemas interligados:
1. a vigilância tecnológica como instrumento de dominação de classe;
2. a fabricação de um corpo feminino artificial (Maria, a ginóide) como mecanismo camuflado de demonização e controle;
3. a produção da alienação por meio de ilusões coletivas, função que hoje cabe às redes sociais e à circulação de desinformação;
4. a supressão do movimento operário por uma aliança entre capital e tecnologia.
O centenário de Metrópolis oferece a oportunidade de revisitar uma obra que não envelheceu como artefato histórico, mas permanece ativa como gramática do presente.
Bibliografia
- BAUMAN, Zygmunt; LYON, David. Vigilância líquida: o mundo sem muros. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
BBC News. Seu eletrodoméstico ‘inteligente’ pode te espionar? Veja como se proteger. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c5yx103nmrzo. Acesso em: 16/04/2026
HARBOU, Thea von. Metrópolis. Tradução de Petê Rissatti. São Paulo: Aleph, 2019.
LANG, Fritz. Metrópolis. Alemanha: UFA (Universum Film AG), 1927. Filme P&B (aprox. 153 min – versão restaurada)
QUEIROZ, Rachel de, Dôra, Doralina, 9. ed. Siciliano, São Paulo, 1992
THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Tradução de Vera de Paula Bezerra. Petrópolis: Vozes, 2002.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Tradução de George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.