Ficha do Proponente
Proponente
- Allex Rodrigo Medrado Araújo (IFB)
Minicurrículo
- Allex Medrado, doutor em Artes Visuais pela Universidade de Brasília, é curta-metragista, professor de Cinema e Mídias digitais, com mestrado em Cultura Visual pela UFG, graduação em Tecnologia em Produção Audiovisual. Membro e fundador da produtora Caliandra Filmes. Atualmente é docente do Instituto Federal de Brasília, campus Recanto das Emas nos cursos de técnicos de Produção em Áudio e Vídeo e no curso superior tecnológico em Produção Audiovisual.
Ficha do Trabalho
Título
- A difusão audiovisual e a potência do anônimo
Seminário
- Festivais e Mostras de Cinema e Audiovisual
Resumo
- Este texto é caminho, é tentativa, é fluxo para experimentar pensar as práticas cotidianas de dar a ver, sentir, curar, organizar imagens conjuntamente a partir de uma potência do anônimo pela difusão cinematográfica. Através de práticas e/ou pensamentos em ação do Núcleo de Práticas de Difusão Audiovisual do Instituto Federal de Brasília, que entre outras atividades, organiza o Festival Recanto do Cinema e o cineclube Recanto do Cinema.
Resumo expandido
- Há um desejo e um desafio pedagógico e estético-político desta comunidade de cinema do Festival, composta primeiramente por docentes, discentes e técnicos de educação, atravessados em suas diversidades e singularidades, para tentar estabelecer uma política do anonimato em sua concepção bianual.
Cezar Migliorin (2022, p. 54) ao vislumbrar responder como as imagens funcionam infere sobre a lógica deleuziana da máquina e do maquínico e a inseparabilidade da lógica dos encontros em que as imagens têm tantos sentidos atravessados pelas infinidades de forças e afetos que as compõem. A máquina é um modo de funcionamento relacional, algo que conecta fluxos (de desejo, de sentido, de afeto), que produz efeitos, etc. As imagens funcionam como um dispositivo produtor de relações. Os sentidos não estão na imagem isoladamente, mas no acontecimento do encontro. Os eventos de difusão são encontros com o corpo, com outras imagens, com contextos, com narrativas, com modos de subjetivação. Encontro de sujeitos e processos logísticos, de curadoria, de comunicação, de cuidado com filmes e realizadores, cuidado na exibição, na ativação de espectadores emancipados. É possível imaginar uma máquina sem órgãos, uma máquina sem peças, na tentativa de destituir, desautorizar, destitular as forças que compõem processos desiguais, neoliberais, estratificados, hierarquizantes e homogeneizantes no acontecimento que dá a ver? Seria uma destituição das peças que compõem a máquina do festival!?
Para desconectar-se de uma ideia de comunidade nostálgica pela presença plena, pela transparência de um tempo e espaço, de uma utopia planetária e uma ideia de uma humanidade reunida consigo mesma, Marina Garcés (2013, p. 117) implica a necessidade de um aprendizado do anonimato. A reflexão da autora, em uma perspectiva da difusão audiovisual, faz repensar o eixo: não se trata de dar visibilidade a sujeitos individuais, mas de ativar um campo coletivo de percepção. Em Jacques Rancière (2005, p. 78) há uma reflexão dialética: o anonimato ser ordinário de uma condição social, um devir-anônimo de uma subjetivação política e o devir-anônimo característico de um nó de representação artística.
Essa articulação entre os autores permite compreender o anonimato como condição ontológica, política e sensível do comum. Em Garcés, o anonimato sustenta o “ser-com” como dimensão vivida de um mundo compartilhado. Em Rancière, essa dimensão se traduz na redistribuição das condições de visibilidade e enunciação que definem quem pode aparecer, falar e existir no campo comum.
O anonimato pode emergir como método pedagógico e como prática de difusão audiovisual. Ao descentralizar a autoria, desloca-se o foco da obra, da curadoria, das direções das áreas de produção do evento, das institucionalidades do espaço como propriedade, para a imagem como acontecimento compartilhado. A difusão como um dispositivo de ativação do comum, um dispositivo que cria condições para a experiência coletiva do sensível. Um festival de cinema, pode, pois, ser compreendido como campo de circulação de experiências, escutas coletivas e a construção de um nós provisório.
Assim, seria arriscado mas válido pensar/criar uma pedagogia do anonimato na difusão audiovisual que se propõe uma reconfiguração radical: desmantelar situações de opressão nos processos que envolvem corpos que organizam, produzem, curar, montam, dão suporte etc; Produzir condições de encontro; e o comum não é um dado, mas uma prática a ser continuamente ativada.
Remapear o possível e redistribuir o sensível para que outros acontecimentos se façam presentes no cotidiano da realização, da criação, de forma a dar a ver, a sentir na troca de forças entre os corpos que organizam, que produzem, que curam, que montam, que exibem, que distribuem e de certa forma, todos esses sujeitos re-criam uma multiplicidade de sentidos e intensidades de modo a dizer que atividades de difusão audiovisual possam pertencer a todos e a ninguém.
Bibliografia
- GARCÉS, Marina. Ser-com. In.: Un mundo común. Barcelona: Bellaterra, 2013 (pg. 117)
MIGLIORIN, Cezar. Cinema e clínica: a criação em processos subjetivos e artísticos. Rio de Janeiro, RJ: Ed. UFRJ, 2022. E-book (143 p.).
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Tradução de Mônica Costa Netto. São Paulo: EXO Experimental; Editora 34, 2005.
RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. Tradução de Ivone C. Benedetti. 1. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
RECANTO DO CINEMA. Recanto do Cinema. [s.d.]. Disponível em: https://www.recantodocinema.com.br/. Acesso em: 15 abr. 2026.