Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Eduardo Goldenstein (UFRJ)

Minicurrículo

    Cineasta e diretor de tv, sócio fundador da Aion Filmes. Dirigiu o longa metragem CORDA BAMBA (2013) premiado pelo Edital de Longa Metragem do MINC e finalista no Grande Premio de Cinema Brasileiro. Co dirigiu o longa documental 5 VEZES CHICO. É diretor das séries ESTADOS DA ARTE, CIDADES POSSIVEIS e POTENCIAS DA IMAGEM, exibidas pelo Canal Curta! Produziu conteúdos para o novo MIS-RJ. Dirigiu séries educativas para a MULTIRIO. É Mestre pelo PPGMC/UFRJ onde desenvolveu novo projeto de filme.

Ficha do Trabalho

Título

    Deception Island: dos espaços suspensos ao olhar mais que humano.

Resumo

    Este trabalho pretende refletir sobre o processo de realização do filme “Deception Island: o olho do vulcão”, fundamentado em pesquisa cujo tema central diz respeito aos novos modos de expressão do cinema contemporâneo diante da crise do Antropoceno. Nesta pequena ilha vulcânica próxima da Antártica, as ruínas soterradas de uma antiga estação baleeira expressam um espaço que pode ser um emblema/problema para pensar a vida no planeta nestes tempos que vivemos.

Resumo expandido

    O presente trabalho pretende investigar a potência expressiva de um espaço “suspenso” nos confins do mundo: a pequena ilha vulcânica Deception Island, ao sul do arquipélago das Shetland do Sul, 65 milhas à noroeste da península Antártica. Esta ilha abrigou em fins do século XIX até meados do século XX instalações da indústria baleeira, abandonadas após o advento do petróleo como fonte de energia, e parcialmente soterradas por uma grande erupção no final dos anos 1960. O conceito de espaço “suspenso” nos chega a partir da proposição do coletivo “Suspended Spaces”, baseado na França, a quem interessa investigar espaços que, por razões políticas, econômicas ou históricas não cumpriram a função para a qual foram designados, e continuam a existir numa espécie de estado de suspensão – espaços sensíveis que merecem ser pensados por apontarem para uma problematização da modernidade, conforme nos informa a realizadora portuguesa Susana Sousa Dias, cujo filme Fordlândia Malaise foi comissionado pelo coletivo, e que também inspira nossa reflexão.
    Nos interessa ainda refletir sobre a pesquisa elaborada para dissertação de mestrado cujo eixo central diz respeito às novas expressões cinematográficas e audiovisuais diante da crise da Antropoceno, e como esta pesquisa influenciou o processo de realização do filme “Deception Island: o olho do vulcão.” Neste filme, realizado também no âmbito do mestrado, procurou-se romper com a centralidade de um olhar antropocêntrico, trazendo um olhar no qual a ilha, seus elementos e os animais que a habitam adquirem o protagonismo, e os humanos aparecem enquanto personagens secundários, relacionados às ruínas das instalações baleeiras. Um olhar sensorial no qual o vento, as montanhas, o solo arenoso, os pássaros e as baleias são o ponto de partida, estabelecendo para o filme uma abertura para o mais-que-humano e para uma distensão temporal, apontando para uma escala geológica do tempo. A erupção vulcânica que soterra as instalações baleeiras, transformando-as numa espécie de “Pompéia” antártica, pode funcionar como uma metáfora – seria como se a ilha estivesse lançando aos homens um aviso (a terra se comove, como diz Latour sob inspiração de Lovelock): nós (os mais-que-humanos) também estamos vendo, estamos reagindo à atividade humana destes últimos séculos que vem perigosamente testando os limites para a persistência da vida no planeta. Acredito que esta investigação nos inspira a contar de outras maneiras, entre a ficção e a realidade, as estórias de Deception Island: esta ilha vulcânica junto ao gelado e inóspito continente antártico, espaço liminal onde não há fronteiras e a única atividade humana permitida é a pesquisa científica. Lugar de paisagens ainda intocadas pelo homem, onde a dimensão temporal se mescla entre o “mundo antes de nós” e o “mundo sem nós”. Deception Island pode ser um emblema/problema para pensarmos a vida no planeta nestes tempos do Antropoceno e de que maneira a humanidade pretende com ela se relacionar.

Bibliografia

    Brasil, André. Ver por meio do invisível: o cinema como tradução xamânica. São Paulo: Cebrap – Novos Estudos, v.35.03, pp 125-146, novembro 2016.
    Chackrabarty, Dipesh. The climate of history in a planetary age. Chicago: University of Chicago Press, 2021.
    Gosh, Amitav. O Grande desatino – mudanças climáticas e o impensável. São Paulo: Quina Editora, 2022.
    Haraway, Donna. Ficar com o problema: fazer parentes no Chthluceno. São Paulo: N-1 Edições, 2023
    Latour, Bruno. Diante de Gaia. São Paulo: Ubu Editora (Kindle Ed), 2020b.
    Lovelock,James. Gaia: A New Look at Life on Earth. New York: Oxford University Press, 2000.
    Monteiro, Lucia Ramos. Por um cinema geológico: visibilidades possíveis para os tempos da Terra. Revista EcoPós/UFRJ – Dossiê O Pensamento Ecológico. V.23, n.2, 2020.
    Suspended Spaces. Fordlândia. São Paulo: Ed Relicário, 2023.
    Viveiros de Castro, Eduardo e Danowski. Deborah. Há mundo porvir? Ensaio sobre os medos e os fins. São Paulo: Cultura e Bárbarie/ISA/Desterro, 2014.