Ficha do Proponente
Proponente
- Ricardo Tsutomu Matsuzawa (UAM)
Minicurrículo
- Graduação em Comunicação Social – Habilitação Rádio e TV e Especialização em Fundamentos das Artes e Cultura pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP. Mestre em Comunicação Contemporânea e professor da Universidade Anhembi Morumbi. Doutor em Meios e Processos Audiovisuais e membro do grupo de pesquisa MIDIASON na Escola de Comunicação e Artes USP.
Ficha do Trabalho
Título
- Fabulações de resistência no cinema brasileiro: Reinventando mundos possíveis
Resumo
- Esta comunicação investiga como o cinema brasileiro discute o mundo histórico através de fabulações de resistência. Analisando A cidade dos abismos (2021), Bacurau (2019) e Mato seco em chamas (2022), argumenta-se que a ruína do projeto moderno permite a invenção de outras formas de histórias. Em diálogo com Saidiya Hartman, demonstra-se como a prática audiovisual desloca relatos do arquivo hegemônico, para restituir agência e densidade a experiências e corpos historicamente silenciados
Resumo expandido
- Diante das crises políticas e sociais no Brasil, parte do imaginário audiovisual aproxima-se de uma visão apocalíptica. Esta comunicação investiga as estratégias de fabulação e resistência no cinema brasileiro contemporâneo, analisando um conjunto de filmes produzidos e distribuídos sob o impacto do impeachment da presidenta Dilma Rousseff e do governo de Jair Messias Bolsonaro, período marcado por uma profunda crise sociopolítica. O corpus da análise é composto por três filmes: Bacurau (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019), A cidade dos abismos (Priscyla Bettim e Renato Coelho, 2021) e Mato seco em chamas (Adirley Queirós e Joana Pimenta, 2022). A partir da análise dessas obras, argumenta-se que a fabulação emerge como estratégia narrativa para a construção de representações de um protagonismo coletivo que resiste às crises do mundo histórico. Para tanto, observa-se como os filmes reexperimentam e ressignificam elementos da tradição cinematográfica, reelaborando formas de resistência fundamentadas na união e na solidariedade entre os personagens. Demonstra-se, por fim, como esses filmes, ao fabularem mundos ficcionais que dialogam com as angústias e os anseios do Brasil contemporâneo, rediscutem o imaginário nacional e abrem espaço para a expressão de vozes e experiências marginalizadas, afirmando a potência política e a relevância estética do cinema brasileiro em tempos de crise.
Esses filmes estruturam-se na escuta coletiva e na articulação de grupos historicamente excluídos, cujos discursos reconfiguram o espaço e a ação política. O conceito central desta análise é a “fabulação de resistência”, que opera em estreito diálogo com a “fabulação crítica” de Saidiya Hartman (2020). Se Hartman propõe a imaginação narrativa como método imperativo para preencher as lacunas e as violências do arquivo hegemônico, restituindo a densidade de existências apagadas, nos objetos do artigo essa fabulação atua como ferramenta de sobrevivência e reinvenção. A fabulação nos filmes analisados parece partir do fragmento, da ruína e da lacuna, não para representar o que foi perdido, mas para inventar o que nunca pôde ser. A fabulação, nesse sentido, não é uma representação indireta da realidade, mas uma intervenção direta nela. Trata-se de “preencher as lacunas” do arquivo histórico que sistematicamente silencia corpos e experiências marginalizadas. Como descreve Saidiya Hartman ao definir seu método, o objetivo é:
“[…] jogando com os elementos básicos da história e rearranjando-os, reapresentando a sequência de eventos em histórias divergentes e de pontos de vista em disputa, eu tentei comprometer o status do evento, deslocar o relato preestabelecido ou autorizado e imaginar o que poderia ter acontecido ou poderia ter sido dito ou poderia ter sido feito” (HARTMAN, 2020, p. 29).
Em A cidade dos abismos, a noite de São Paulo transforma-se em um refúgio para corpos periféricos e identidades dissidentes. Já em Bacurau, o sertão nordestino apropria-se e incorpora códigos de gênero, como o faroeste e a ficção científica, para encenar um embate contra o neocolonialismo. A comunidade imaginada e plural resiste à invasão, por uma aliança que decreta a ruína da distopia do invasor para garantir a continuidade da vida e do seu próprio território. Por fim, Mato seco em chamas instaura uma resistência na periferia do Distrito Federal, onde mulheres tomam os meios de produção e fundam um império do petróleo paralelo. A paisagem de um país devastado torna-se terreno para uma economia gerida pelas margens, criando um espaço de pertencimento que recusa a submissão.
Bibliografia
- BENJAMIN, W. Passagens. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018.
COMOLLI, J. Ver e poder: A inocência perdida: Cinema, televisão, ficção e documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.
HALL, S. Da Diáspora. Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Humanitas, 2003.
HARTMAN, S. Vênus em dois atos. Revista Eco-Pós, v. 23, n. 3, p. 12-33, 2020.
MATSUZAWA, R. Fabulações de resistência no cinema brasileiro: A cidade dos abismos, Bacurau e Mato seco em chamas (2016-2022). Tese (Doutorado) – ECA-USP, São Paulo, 2026.
MBEMBE, A. Necropolítica. Arte & Ensaios, Rio de Janeiro, n. 32, p. 123-151, 2016.
MENDONÇA FILHO, Kleber. Três roteiros: O som ao redor, Aquarius, Bacurau. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
RANCIÈRE, J. A partilha do sensível; estética e política. São Paulo: Editora 34, 2014.
XAVIER. I. Alegorias do subdesenvolvimento: “cinema novo”, Tropicalismo, “cinema marginal”. São Paulo: Cosac Naify, 2013.