Ficha do Proponente
Proponente
- Mário Sérgio Teixeira Guimarães (UFRB)
Minicurrículo
- Mário Guimarães é graduado em Direito (PUC-MINAS, 2015) e em Cinema e Audiovisual (UFRB, 2024). Atualmente é mestrando no PPGCOM-UFRB, onde desenvolve uma pesquisa acerca do uso do som direto em produções recentes do curso de Cinema e Audiovisual da UFRB. Pesquisa os diversos usos do som nas mais variadas produções, além de se interessar pelos estudos da cinematografia do cinema brasileiro. Trabalha com captação de som, edição e outras funções em sets de produções estudantis e profissionais.
Ficha do Trabalho
Título
- A construção sonora como reverberação narrativa: Análise do curta-metragem Habito
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- O trabalho concentra-se no curta-metragem Habito (2023), realizado pelo alagoano Fernando Ferreira dos Santos. O foco da análise, com metodologia calcada em Carreiro; Opolski e Meirelles (2023), é compreender como os sons do filme em conjunção com as imagens apresentam atravessamentos estéticos, políticos e territoriais e contribuem para a narrativa da obra a análise sonora espectral nos revela aspectos pertinentes sobre como o som pode criar reverberações dramáticas na obra.
Resumo expandido
- O uso do som, em produções documentais contemporâneas, tende a ser usado de maneira que auxilia a narrativa a explicitar subjetividades dos seus sujeitos. No caso da obra Habito (2023), concebida por Fernando Ferreira dos Santos, o som apresenta a subjetividade do personagem e age como ferramenta narrativa da obra.
O curta-metragem é um documentário ficcionalizado, que nos conduz pelos caminhos de Fernando até conseguir a realização de seu sonho de estudar Cinema e Audiovisual na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. A obra aborda toda a problemática vivida para a realização deste sonho. É a narração de Fernando que articula as minúcias de sua jornada, além da sua voz, a obra possui uma extensa gama de sons direto que aproximam o espectador das suas experiências.
A dificuldade em se encontrar uma metodologia apropriada para uma análise sonora é discutida em Carreiro e Alvim (2016), que apontam os diversos possíveis métodos para se realizar uma análise de som em filmes, para este trabalho optamos pela análise sonora espectral que está presente no livro da professora e pesquisadora Débora Opolski (2020) e Carreiro, Meirelles e Opolski (2025), para a análise das falas e sons presentes nas obras em contraste com as suas imagens.
O filme principia com o som acusmático extradiegético de pipocas estourando e que irão soar em outros momentos do filme, podendo ser interpretados como uma forma de ruído-sinal, de acordo com Virgínia Flôres (2013), que além de uma referência ao próprio cinema, também nos remete a um sentimento de lar e pertencimento.
Possuindo um variado uso de som direto que tende a produzir o efeito estético de aproximar o espectador da sua vivência, os diálogos no ônibus no começo do filme, colocam o espectador junto a ansiedade vivida por Fernando naquele momento de mudança. Esses sons também agregam ao estilo road movie do filme.
A pandemia de COVID-19 é outro elemento que atravessa a narrativa, Fernando enfrenta uma série de reveses que o obrigam a retornar para o seu território, em Alagoas, na mesma região da Serra da Barriga, sede histórica do Quilombo dos Palmares, contando com a música Terra de Zumbi interpretada pelos Terroristas Verbais, que encerra o filme.
O som direto do filme revela muito mais que paisagens sonoras, conceito de Schafer (2001), são verdadeiros territórios sonoros, os momentos na casa de sua mãe, os sons da mata e da água que são captados no retorno de Fernando, dialogam com as imagens, mas todas as construções sonoras das ruas de Cachoeira, o interior da universidade, a viagem de ônibus dialogam muito mais com a ideia de territorialização e desterritorialização sonora, desenvolvidas por Obici (2008) e com base na obra de Deleuze e Guattari.
A fé é outro elemento importante abordado no filme através do som. Logo na sua chegada a Cachoeira é tocada uma versão de Canto de Oxum de Maria Bethânia, que é cantada pelo próprio Fernando, sons e imagens de água perpassam toda a obra. No retorno à União dos Palmares, o som do agogô abre caminho para a sucessão de imagens.
Há trechos de tensão também, quando vemos Fernando deitado no colo da sua mãe e a voz do jornal narra os riscos da obesidade no momento pandêmico e alguns planos depois somos imersos no seu ritual de colocar meias, acompanhados pela sua pesada respiração, os sons soam com grande estridência e intensidade.
O atravessamento político é notável no filme, e é através de ideias de Jacques Rancière (2012) que propomos uma leitura na chave de um espectador emancipado e capaz de interpretar de maneira própria não só a narrativa, mas também os sons e as suas possíveis leituras estéticas, políticas e sociais.
A construção sonora do filme Habito (2023) revela mais que uma singela composição para dar vazão para suas imagens, ela opera com uma criteriosa escolha de sons que potencializam a narrativa e a experiência sensível, nos colocando em sintonia com os problemas e com a fé do seu narrador e personagem principal.
Bibliografia
- CARREIRO, Rodrigo; ALVIM, Luíza. “Uma questão de método: notas sobre a análise de som e música no cinema”. Matrizes (USP), v. 10, n. 2, São Paulo, p. 175-193, 2016.
CARREIRO, Rodrigo; MEIRELLES, Rodrigo, OPOLSKI, Débora. A imersão sonora do cinema. 2ª Ed. São José dos Pinhais: Estronho, 2025.
FLÔRES, Virginia. O Cinema: uma arte sonora. São Paulo: Annablume, 2013.
OBICI, Giuliano. Condição da escuta: mídias e territórios sonoros. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.
OPOLSKI, Débora. Edição de diálogos no cinema: a fala cinematográfica como um elemento sonoro. Curitiba: Ed. UFPR, 2021.
RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.
SCHAFER, R. Murray; Fonterrada, Marisa Trench (trad.). A afinação do mundo: uma exploração pioneira pela história passada e pelo atual estado do mais negligenciado aspecto do nosso ambiente: a paisagem sonora. São Paulo: UNESP, 2001.