Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    PAULA TELLES DE MENEZES FARO (USP)

Minicurrículo

    Paula Faro dedica-se ao ensino e à pesquisa na intersecção entre arte, corpo e filosofia. Atualmente é pesquisadora em nível de Pós-Doutorado na ECA-USP (FAPESP, processo no. 2025/08417-5), investigando o cinema como tecnologia epistêmica, a partir de uma perspectiva decolonial em diálogo com a filosofia chinesa. É Mestre e Doutora pelo PPG em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), onde integra o Centro de Estudos Orientais.

Ficha do Trabalho

Título

    Xiàng: o pensamento por imagens no cinema de Wong Kar-wai

Resumo

    Este estudo se dedica à obra cinematográfica de Wong Kar-wai, investigando como, através de suas características expressivas, o autor cria uma composição poética e institui uma alquimia das imagens que nos permitem pensar um cinema decolonial e elaborar as imagens cinematográficas a partir de outras epistemologias. A partir do conceito filosófico xiàng que pode ser traduzido como pensar por imagens, investigaremos como as imagens são concebidas a partir de uma epistemologia não eurocêntrica.

Resumo expandido

    Wong Kar-wai, um cineasta chinês radicado em Hong Kong, pertence à segunda geração de diretores que surgiram na cidade nos anos 1990, realizando um cinema experimental, independente e político. Considerando a relevância da obra desse diretor no panorama da cinematografia mundial, esta pesquisa tem como objetivo analisar seus filmes a partir do conceito estético-filosófico xiàng 象, buscando estabelecer relações entre cinema, filosofia e estética chinesa. Assim, procuraremos contribuir para a produção de conhecimento decolonial ao pensar a imagem cinematográfica a partir de uma epistemologia não eurocêntrica, percorrendo outros caminhos que não a tradição estética e filosófica ocidental. A metodologia adotada consiste na análise fílmica das obras do diretor, articulada com referências bibliográficas que fundamentam a abordagem teórica.

    O conceito xiàng pode ser definido como nos explica a sinóloga Anne Cheng como “a imagem ou a ‘figuração’ que nós fazemos de uma coisa ou de um fenômeno” (CHENG, 2023, p.310). Encontramos xiàng na observação, na apreensão dos fenômenos por meio de imagens – isso, explica Shuren (2009), é o pensamento por imagens. Essas imagens não estão limitadas à aparência visual e incluem também imagens sensoriais, como o cheiro, o som, o gosto e o toque. O pensamento por imagens inerente ao conceito de xiàng inclui a percepção daquilo que é dinâmico e se beneficia de associações poéticas. O autor Yuxin Jia esclarece que o sistema conceitual chinês, sua filosofia em sentido amplo e cultura, compreende o mundo por metáforas, analogias e imagens. Filósofos chineses, como Laozi e Zhuangzi, já adotavam essa forma de pensar por imagens. Para eles, a forma de experimentar e compreender o mundo surge da experiência sensório-motora e o mundo que pode ser conhecido é aquele que pode ser visto, sentido, tocado e degustado.

    A análise das características expressivas nos filmes de Wong Kar-wai revela o aspecto sensorial das imagens, as imagens sensoriais se tornam procedimentos de criação, essas imagens são descrições detalhadas que envolvem os sentidos. Assim, não é apenas o olhar que organiza a imagem. Se fazem presentes fenômenos como a fumaça, a chuva, o céu, as nuvens e a neve, criando espaços e tempos de contemplação, nos quais o espectador é deixado com o plano vazio. Elementos como a fotografia, as letras chinesas, as luzes neon dos letreiros, as cores, e as superfícies, são elementos que exploram as diferentes texturas, privilegiando o aspecto tátil e sensorial da imagem evidenciando o trabalho do diretor sobre a própria materialidade fílmica. A partir desses elementos o cinema de Wong estabelece outra relação com o ambiente e o tempo, e o que ocupa o lugar da construção narrativa pautada pela linguagem cinematográfica clássica é a composição poética das imagens que obedecem a lógica de xiàng.

    A abordagem decolonial do cinema de Wong Kar-wai, fundamentada no conceito de xiàng, permite repensar as imagens cinematográficas e o cinema a partir de uma epistemologia não eurocêntrica. Ao construir a imagem cinematográfica por meio de associações poéticas, o cineasta subverte os códigos clássicos do discurso cinematográfico hegemônico desafiando a tradição narrativa herdada do romance do século XIX, da perspectiva da pintura renascentista e da mise en scène do teatro clássico.

Bibliografia

    CHENG, A. História do Pensamento Chinês. Tradução de Gentil Avelino Titton. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.
    CUSICANQUI, Silvia Rivera. Ch’ixinakax utxiwa: Una reflexión sobre práticas y discursos descolonizadores. Buenos Aires: Tinta Limón, 2010.
    FERREIRA, Carolin Overhoff. História da arte descolonial: uma introdução metodológica. Rio de Janeiro: Edições 70, 2025.
    JIA, Y. The body in chinese characters and philosophy – the experiential nature of Chinese philosophy. Intercultural communications studies XVII: 2, 2008.
    SHUREN, W., ZHANG, L. The roots of Chinese philosophy and culture – an introduction to “xiang”and “xiang thinking”. Frontiers of Philosophy in China, vol. 4. No. 1, pp. 1-12, Mar. 2009