Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Renato Beaklini (UFRJ)

Minicurrículo

    Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGF/UFRJ), na linha de pesquisa de Estética. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da mesma Universidade (PPGCOM/UFRJ). Foi bolsista de Iniciação Científica de 2018 a 2020 na ECO/UFRJ. Seus interesses em pesquisa abarcam estudos comparados, filosofia da arte e estéticas de montagem. Rio de Janeiro (RJ). Brasil.

Ficha do Trabalho

Título

    “Levados pelas marés”: cartografias de memórias, desmontagens do presente

Seminário

    Edição e Montagem audiovisual: reflexões, articulações e experiências entre telas e além das telas

Resumo

    O trabalho analisará possibilidades de habitar, de semantizar e, sobretudo, de montar o presente a partir do exemplo de “Levados pelas marés” (Jia Zhangke, 2024). No longa-metragem, as duas primeiras décadas do milênio são cartografadas em um atlas afetivo, em que acompanhamos os fluxos de Qiao Qiao e Bin. Diante dos deslocamentos espaciais do casal de protagonistas, a montagem da obra evoca uma composição intervalar e caleidoscópica, em que a travessia é igualmente aquela do corpo e da memória.

Resumo expandido

    Na passagem do século XIX para o século XX, Aby Warburg (2009) elabora o “Atlas Mnemosyne”. O nome, com raiz na mitologia grega, refere-se à titânide da memória. Didi-Huberman (2013) ressalta como o método enumerativo e cartográfico legado por Warburg prioriza o estado de desmontagem dos materiais visuais que aproxima nas pranchas de seu atlas, renunciando ao fechamento de uma síntese e intensificando uma tensão sensível e perceptiva. A partir da aparente desunião dos materiais, o sentido se dá a posteriori, tal como ocorre na memória. Em perspectiva similar, nas “Passagens”, Walter Benjamin remete à primazia imagética da “montagem literária”: “Não surrupiarei coisas valiosas, nem me apropriarei de formulações espirituosas. Porém, os farrapos, os resíduos: não quero inventariá-los, e sim fazer-lhes justiça da única maneira possível: utilizando-os” (2009, p. 502). A montagem surge, para ambos os autores, como método capaz de fazer justiça aos farrapos e resíduos da existência.

    Ante múltiplos dispositivos de visualidades, o próprio conceito de montagem se complexifica. A experiência fragmentada e fragmentadora da contemporaneidade, no entanto, só fortalece os preceitos de des-organização da memória e da experiência sensível – preceitos passíveis de montagem. Não se trata de reduzir plasticamente a multiplicidade daquilo que é montado, mas de desdobrar as imagens e os intervalos entre elas. Evocamos, nessa perspectiva, o “intervalo” na teoria de Dziga Viértov (2022): segundo Gilles Deleuze (2018), a originalidade do conceito não está na distância que pode ser depreendida entre imagens consecutivas, mas na correlação possível entre imagens longínquas. Uma espécie de elo à distância. A montagem intervalar e seu avesso warburguiano, sob a forma de desmontagens, intrincam-se em suas derivas de sentido constitutivas.

    Em “Levados pelas marés” (Jia Zhangke, 2024), duas décadas do romance entre Qiao Qiao e Bin são recortadas em uma experiência de pouco menos de duas horas. As décadas nas quais o drama se desenrola não são percorridas apenas diegeticamente: as filmagens começaram em 2001 e se encerraram em 2023, em uma colagem que se apropria, inclusive, de outras obras de Zhangke realizadas nesse ínterim. A fina linha narrativa descreve uma travessia errática de fluxos e refluxos entre vida e filme: após a mudança de Bin para uma metrópole em busca de uma vida melhor, Qiao Qiao decide procurá-lo, em uma jornada em que acompanhamos mudanças técnicas e sociais na China continental. Longe de apontar para um sentido preestabelecido, Zhangke (2025) comenta como essa travessia só é composta na montagem, entendida pelo cineasta como um processo de contemplação e reflexão profunda sobre o material filmado.

    As memórias e os afetos do casal de protagonistas acabam por remodelar os lugares por onde passam, como Cecília Mello (2022) já havia indicado a respeito de personagens de obras anteriores de Zhangke. Ao materializar, cinematograficamente, os devaneios espaciais dos protagonistas no decurso dos anos, “Levados pelas marés” compõe uma espécie de atlas. Alheias à razão, as travessias que acompanhamos acabam orientadas por aquela que é a substância da montagem para Jean-Luc Godard (1956): a batida do coração – no caso, a dos protagonistas. Nessa cartografia cinematográfica, podemos ponderar sobre as formas heterogêneas propostas por Zhangke de habitar, de semantizar e, sobretudo, de montar o presente. Um sintomático recorte temporal da virada do milênio à pandemia de covid-19 aproxima, na montagem, uma heterogênea coleção imagética, composição caleidoscópica que, diante da passagem do tempo, privilegia travessias incertas e passagens inacabadas.

Bibliografia

    BENJAMIN, W. Passagens. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

    DELEUZE, G. Cinema 1 – A imagem-movimento. São Paulo: Editora 34, 2018.

    DIDI-HUBERMAN, G. A imagem-sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

    GODARD, J-L. Montage, mon beau souci. In: Cahiers du Cinéma, Paris, n. 65, p. 30-31, 1956.

    MELLO, C. The Cinema of Jia Zhangke: Realism and Memory in Chinese Film. Londres: Bloomsbury Publishing, 2022.

    VIÉRTOV, D. Cine-Olho: manifestos, projetos e outros escritos. São Paulo: Editora 34, 2022.

    WARBURG, A. Mnemosyne. Arte & Ensaios, Rio de Janeiro, v. 19, n. 19, p. 125-131, 2009.

    ZHANGKE, J. Still Life: Jia Zhangke on the changing times of Caught by the Tides. [Entrevista concedida a Jourdain Searles]. Letterboxd Journal. Auckland, 2025. Disponível em: https://boxd.it/2xE. Acesso em: 09 abr. 2026.