Ficha do Proponente
Proponente
- Catarina Andrade (UFPE)
Minicurrículo
- Doutora em Comunicação/Cinema (UFPE/PPGCOM). Professora do Departamento de Letras da UFPE e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM-UFPE) Atua principalmente nas áreas cinema e educação, cinema e outras artes, estética e filosofia das imagens, imagens periféricas, corpos e espaços pós-coloniais e decoloniais. Líder do Grupo de Pesquisa LEVE – Laboratório de Experiência Visualidade e Educação. Coordena o projeto de extensão Reimaginar oficinas de formação cinema e educação.
Ficha do Trabalho
Título
- Maternidade, luto e enlouquecimento em Se eu tivesse pernas, eu te chutaria e Bring her back
Resumo
- Propomos uma análise comparativa entre os filmes Se eu tivesse pernas, eu te chutaria e Bring her back, refletindo como articulam narrativas sobre maternidade atravessadas por experiências de luto, esgotamento e colapso psíquico. A partir de autoras como María Lugones, (feminismo decolonial) Silvia Federici (crise da divisão sexual do trabalho) e Bárbara Creed (monstruoso-feminino), analisamos como essas obras tensionam o ideal da mãe e revelam fissuras nos imaginários sociais da maternidade.
Resumo expandido
- Tecemos uma análise comparativa entre os filmes Se eu tivesse pernas, eu te chutaria (Mary Bronstein, 2025) e Bring her back (Danny e Michael Philippou, 2025), investigando como as obras articulam narrativas sobre maternidade atravessadas por experiências de luto, esgotamento e colapso psíquico. Embora pertençam a gêneros cinematográficos distintos (drama e horror) ambos constroem figuras maternas cujas experiências extremas revelam tensões entre cuidado, luto e enlouquecimento. Na esteira das contribuições do feminismo decolonial, que problematizam os fundamentos universalizantes de determinadas concepções de gênero e maternidade (Lugones; Carvajal; Oyewùmí, 2020), das reflexões sobre a crise da divisão sexual do trabalho (Federici, 2022) e da noção de “monstruoso-femino” (Creed, 2022), queremos compreender como diferentes estratégias narrativas e estéticas mobilizam experiências-limite de mulheres/mães para questionar imaginários socialmente consolidados sobre a maternidade.
Em Se eu tivesse pernas, eu te chutaria, Linda é uma psicóloga que enfrenta a rotina extenuante de cuidar de uma filha doente enquanto lida com demandas profissionais, problemas domésticos e a ausência do marido. O filme constrói uma experiência sensorial de exaustão (planos fechados, som inquietante, fragmentação narrativa) concentrando a narrativa na perspectiva da mãe e em seu estado de saturação física e emocional. Longe de uma maternidade calcada na suposta vocação natural da mulher, aqui ela está em constante risco, sob uma pressão permanente e marcada por expectativas sociais que exigem total disponibilidade e silenciam o sofrimento da mãe. Enquanto em Se eu tivesse pernas o luto pode estar numa maternidade incalcançada, em Bring her back, ele é o motor da narrativa. Laura, uma mãe solo devastada pela morte recente da filha, envolve-se em rituais sobrenaturais na tentativa de trazê-la de volta à vida. O filme articula o horror a partir da transformação do amor materno em obsessão, e a dor do luto se converte em desespero, delírio, enlouquecimento e violência extrema, revelando uma maternidade atravessada pela impossibilidade de aceitar a perda e de lidar com a própria humanidade.
Nesse sentido, queremos abordar essa discussão à luz das críticas formuladas pelo feminismo decolonial, especialmente as reflexões de María Lugones, Julieta Carvajal e Oyèrónké Oyěwùmí (2020), que evidenciam como as categorias de gênero e os papéis atribuídos às mulheres estão imbricados à colonialidade do poder. Ao questionar a universalização da experiência feminina produzida pelo feminismo hegemônico ocidental, essas autoras demonstram que conceitos como “mulher”, “maternidade” e “família” foram historicamente formulados a partir do modelo da família nuclear europeia e de uma divisão sexual do trabalho (Federici, 2022) que associa às mulheres a exclusiva responsabilidade pela maternidade. Ainda, queremos propor um diálogo com a noção de Barbara Creed (2022) de “monstruoso-feminino”, segundo a qual o cinema frequentemente constrói o corpo e a experiência feminina (especialmente a maternidade, neste caso) como lugares de ambiguidade e ameaça. Se no filme de Bronstein, a maternidade surge marcada pelo esgotamento e pela saturação emocional, no horror dos irmãos Philippou o luto materno assume contornos de obsessão e delírio. Nos dois casos, a mãe deixa de ocupar o lugar idealizado de estabilidade afetiva, habitando esse corpo liminar, situado entre cuidado e enlouquecimento, amor e violência. Linda e Laura vivenciam formas de luto que dizem respeito à condição de mãe e ambas progridem para um estado irreversível de enlouquecimento. Assim, os dois filmes nos permitem observar como diferentes regimes de gênero cinematográfico mobilizam experiências semelhantes de crise subjetiva da mulher/mãe e nos convocam a revisitar criticamente os imaginários idealizados da maternidade.
Bibliografia
- CARVAJAL, Julieta. Uma ruptura epistemológica com o feminismo ocidental. In. HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Pensamento Feminista Hoje: Perspectivas Decoloniais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.
CREED, Barbara. Return of the Monstrous-Feminine: Feminist New Wave Cinema. London: Routledge, 2022.
FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. São Paulo: Elefante, 2019.
LUGONES, María. Colonialidade e gênero. In. HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Pensamento Feminista Hoje: Perspectivas Decoloniais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.
OYEWUMI, Oyèrónké. Conceituando gênero: os fundamentos eurocêntricos dos conceitos feministas e o desafio das epistemologias africanas. In. HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Pensamento Feminista Hoje: Perspectivas Decoloniais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.