Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    João Klimeck Kammer (UNESPAR)

Minicurrículo

    João Klimeck é graduando em Cinema e Vídeo pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP) – Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR) e membro do Grupo de Pesquisa em Arte, Cultura e Subjetividades (GPACS-CNPq/Unespar). Durante a graduação, mantém foco em estudos de cinemas dissidentes, cinema poético e em estudos e estéticas sobre a atenção poética. Faz parte do projeto de extensão CineFAP – cineclube vinculado à Unespar e mantém um projeto de pesquisa de correspondências no podcast P.S.Cartas.

Ficha do Trabalho

Título

    Fechar os olhos para enxergar: A atenção poética em O Movimento das Coisas (1985)

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    A partir de uma análise fílmica do documentário O Movimento das Coisas (1985), dirigido por Manuela Serra, investigamos de que maneira o cinema pode favorecer a experiência e a prática de uma atenção poética, a partir de experimentações com a imagem e sua estrutura. Nesse sentido, pensamos esse filme em oposição a formas de relação com as imagens orientadas pela dinâmica do consumo e desatenção, evidenciando outras possibilidades de percepção e engajamento sensível.

Resumo expandido

    Nesta pesquisa, buscaremos investigar a afinidade entre o filme O Movimento das Coisas (1985) e a ideia de um cinema poético. Dirigido pela realizadora portuguesa Manuela Serra, o filme apresenta um olhar atento aos costumes rurais de Lanheses, cidade localizada no norte de Portugal que estava prestes a ser modificada pela industrialização na década de 1980.
    A partir de uma análise fílmica, entendemos que este olhar traz um caráter documental ao longa-metragem, com filmagens dos habitantes da região e seus gestos. Porém, é um filme que, pelas escolhas da forma de registro, tem uma potencialidade poética em cada imagem, e tensiona, assim, os entendimentos comuns de documentário e do próprio cinema clássico pautado no desenvolvimento de uma narrativa.
    Nesse sentido, o filme português estudado é uma obra que segue um caminho contrário ao de boa parte das criações audiovisuais contemporâneas. Como colocado por Byung Chul Han: “As imagens, hoje, são construídas de tal modo que não é mais possível fechar os olhos. Ocorre um contato imediato entre elas e o olho, que não permite nenhuma distância contemplativa” (CHUL-HAN, 2021). Nesta pesquisa, busco compreender como Manuela Serra constrói imagens que permitem, sim, o fechamento dos olhos.
    No longa-metragem, Serra toma uma atitude de não acoplar seus próprios sentimentos à imagem. A natureza não é usada para ilustrar algo que está interno à autora: ela simplesmente é. E essa existência que a engrandece enquanto objeto cinematográfico poético, a ausência de uma intromissão do sujeito na experiência com o fenômeno. Não se instaura uma ordem narrativa para as imagens. Quando esse sujeito aparece, ele está lá como algo que direciona o olhar para as coisas – sem buscar interpretações para além dos próprios objetos por si só. Essa relação com o que é filmado resulta em um conteúdo final que permite ao espectador entrar em outro estado de presença.
    É, acima de tudo, um registro do mundo que se encanta com o que, em outra ótica, poderia ser considerado banal. Manuela desenvolve o que é colocado por Tarkovsky em Esculpir o Tempo: “Um filme nasce da observação direta da vida; é esta, em minha opinião, a chave para a poesia do cinema. Afinal, a imagem cinematográfica é essencialmente a observação de um fenômeno que se desenvolve no tempo” (TARKOVSKY, 2019).
    Partindo da ideia defendida por Hans-Ulrich Gumbrecht (2017) de que a poesia é um modo de atenção e que a arte nos levaria a um estado de “ficarmos quietos por um momento”, consideramos a obra de Serra dentro da noção de cinema poético.
    Entende-se que as criações audiovisuais que nos possibilitam tal quietude e tal atitude atentiva para os fenômenos podem também se constituir em afirmações políticas contra o frenético compartilhamento de informações na contemporaneidade e contra um relacionamento com as imagens pautado pela dinâmica do consumo e da desatenção. De que forma, por meio de procedimentos estéticos e formais, o filme constrói essa atmosfera? De que forma a duração dos planos, os enquadramentos e a relação entre som e imagem pode nos conduzir para um regime perceptivo poético? Essas são algumas das perguntas que essa investigação pretende abordar.
    É uma criação cinematográfica que se espanta com a realidade, que atua de maneira próxima àquela colocada pela poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen: “do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria” (ANDRESEN, 1964). Manuela Serra, utilizando de recursos do cinema, descortina essa mesma presença do real.
    Esta pesquisa fez parte do projeto de Iniciação Científica realizado na Universidade Estadual do Paraná, entre 2024 e 2025. Sob orientação da professora Dra. Beatriz Avila Vasconcelos, o projeto foi financiado pela Fundação Araucária de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Estado do Paraná.

Bibliografia

    ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Arte poética III. In: ______. Obra poética III. Lisboa: Caminho, 2010. p. 233–235.
    GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de presença: o que o sentido não consegue transmitir. Tradução de Pedro Elmor Neto. Rio de Janeiro: Contraponto/PUC-Rio, 2017.
    GUMBRECHT, Hans Ulrich. Serenidade, presença e poesia. Tradução e seleção de Mariana Lage; 1. ed. São Paulo: Relicário Edições, 2016.
    HAN, Byung-Chul. Favor fechar os olhos: com o tempo, as imagens respiram. Tradução de Luiz Sérgio Henriques. Petrópolis: Vozes, 2021.
    HAN, Byung-Chul. Louvor à terra: uma viagem ao jardim. Tradução de Luiz Sérgio Henriques. Petrópolis: Vozes, 2022.
    SCHRADER, Paul. O estilo transcendental no cinema: Ozu, Bresson, Dreyer. Tradução de Beatriz Aranha. São Paulo: Editora Perspectiva, 2023.
    TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. Tradução de Valentino Werneck. São Paulo: Martins Fontes, 2010. p. 77.