Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Juliana Soares Mendes (PPGCine-UFF)

Minicurrículo

    Doutora pelo PPGCine-UFF com a tese “Poderosa, divertida e feminista”: Construções de discursos de diversidade de gênero e racial na série de bruxas Charmed: Nova Geração (2018-2022). Mestra em Ciências Sociais pelo PPGECsA/UnB (antigo PPG/CEPPAC). Possui graduação em Publicidade e Propaganda pela UnB e em Jornalismo pelo Instituto de Educação Superior de Brasília.

Ficha do Trabalho

Título

    A construção dos personagens no mundo ficcional de “Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica”

Resumo

    Análise do filme “Dois Irmãos” para compreender a articulação entre os personagens e as funções exercidas pelos secundários (de fundo, “cartão” e “barbante”) na criação de sentido desse mundo ficcional. Nessa obra sobre autodescoberta e magia, acompanhamos Barley, o irmão do protagonista (que já sabe quem é e não tem vergonha disso), uma manticore (cuja vida serve de história de advertência por ter esquecido suas aventuras) e a comunidade (de uma cidade que perdeu a magia).

Resumo expandido

    Obras audiovisuais, construídas a partir de narrativas, geram sentidos e permitem a elaboração de uma mensagem. Esse universo é constituído com a articulação de diversos elementos, como os personagens.
    O filme “Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica” (2020) se inspira na vida do diretor Scanlon para contar a aventura de uma família tentando trazer o pai à vida com magia. Para Herman (2013), a narrativa confere sentido a nossa experiência e tem algumas funções, como a “historização” do mundo através do tempo e do espaço. Olhando para os personagens em um determinado ambiente, buscando interpretar suas razões de agir daquela forma, mas ultrapassamos essas especificidades do ambiente ficcional para elaborar nosso passado e futuro, além de como a cultura informa nossas condutas.
    De acordo com Araújo, a definição de mundo ficcional se refere a “estruturas globais imaginárias que organizam os elementos narrativos de uma obra de ficção conforme um conjunto de regras particulares” (ARAÚJO, 2020, p.7). Entre esses elementos, estão os personagens e suas relações: hierarquias e contraposições.
    Para analisar personagens, Eder (2013) sugere compreender suas propriedades, como foram concebidos a partir de diretrizes presentes em outras obras, seu papel metafórico para veicular temas e os impactos sociais que desencadeiam. Os personagens podem ser organizados a partir de uma constelação de suas posições e funções.
    Segundo Harvey (1968), os protagonistas encarnam a “visão moral”, possuindo motivação e histórias bem definidas. O autor lista tipos de personagens secundários: de fundo (engrenagens da máquina) e as figuras intermediárias. Nestas últimas, encontramos o personagem “cartão” (vivaz e que dificilmente se modifica) e o “ficelle”(geralmente cumpre uma função de: alívio, contraste etc.). O “ficelle” pode ser traduzido como “barbante”, a exemplo daquele usado para manipular marionetes.
    Nossa análise se interessa pela articulação entre os personagens e como os secundários apoiam o sentido do mundo ficcional. No prólogo desse filme, identificamos a pensata (RODRIGUES, 2014) ou tema (SNYDER, 2007) do filme: existe uma magia em se encontrar. Há a explicação de como o mundo foi perdendo a magia, pois a tecnologia a substituiu. A frase final do prólogo é: “mas eu espero que ainda exista magia em vocês”. Quando isso é dito, vemos, pela primeira vez, o protagonista, Ian. Mais tarde, descobrimos que a narração é uma carta deixada pelo pai falecido.
    O irmão mais velho, Barley, aparece como um personagem intermediário que apoia a mudança de Ian de se encontrar. Ele mesmo não passa por uma transformação, (isso já aconteceu quando era criança). Diferente do protagonista, Barley mostra saber quem é e não tem vergonha disso. Na sequência que busca o irmão caçula na escola, chega fazendo muito barulho e seu carro estraga na frente das pessoas, porém isso não o afeta.
    Ele é descrito por outros como uma pessoa que estraga tudo. Porém, não é Barley que se modifica para fugir dessa percepção. Ao contrário, é Ian, que vai se transformando e alterando sua percepção. Algumas cenas destacam essa característica, como quando: o caçula aceita a influência do mais velho ao escolher qual o melhor caminho para a jornada; e Ian, no final, percebe que o irmão sempre esteve ao seu lado, como uma figura paterna.
    Uma personagem cartão é a Manticore (corpo de leão e cauda de escorpião). Perdida em uma vida ordinária como dona de um restaurante de fastfood, afirma que suas aventuras perigosas ficaram no passado. Tudo ao seu redor é um simulacro do seu vigor anterior (mapas das missões são desenhos para colorir). Ela serve como advertência para Ian, de como sua própria vida poderia ser se abrir a mão de quem é e da magia.
    Esses personagens são ajudantes de Ian na sua jornada fantástica, servindo para comparar onde o protagonista está em seu arco. A transformação e a dádiva (CAMPBELL, 2009) de Ian se refletem na Manticore e em toda a comunidade, que resgatam a magia.

Bibliografia

    ARAÚJO, João. Construção de mundos ficcionais em séries para TV e outras telas. Salvador: Benditas, 2020.
    CAMPBELL, Joseph. O Herói de mil Faces. São Paulo: Pensamento, 2009.
    DVDXTRAS. Onward (2020) | Behind the Scenes + Deleted Scenes. YouTube, 02 OUT 2024. Disponível em: https://youtu.be/rjmsDYzIOr8.
    EDER, Jens. Analyzing Characters: Creation, Interpretation, and Cultural Critique. In: Revista de Estudos Literários, v. 4, 2014. Disponível em: http://dp.uc.pt/recursos/artigos-em-linha/item/327-analyzing-characters-creation-interpretation-and-cultural-critique. Acesso em: 12 abr 2026.
    HARVEY, W.J. Character and the novel. Ithaca, New York: Cornell University Press, 1968.
    HERMAN, David. Storytelling and the sciences of mind. Cambridge: The MIT Press, 2013.
    RODRIGUES, Sonia. Como escrever séries: roteiro a partir dos maiores sucessos da TV. São Paulo, Alpeh, 2014.
    SNYDER, Blake. Save the cat! Goes to the movies. Michigan: McNaugton & Gunn, 2007.