Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Giancarlo Backes Couto (PUCRS)

Minicurrículo

    Doutor em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, com bolsa CNPq e período sanduíche na Université Paul-Valéry, Montpellier 3. Mestre na mesma área e Programa, com bolsa CAPES/PROSUC. Graduado em Jornalismo pela Universidade Feevale e em Filosofia (Licenciatura), pela Universidade Federal de Pelotas – UFPEL.

Coautor

    Maurício Vassali (PUCRS)

Ficha do Trabalho

Título

    O que teme a classe trabalhadora brasileira? Reflexões a partir de A máquina infernal (2021)

Seminário

    Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual

Resumo

    Investigamos aqui, a partir do curta A Máquina Infernal (2021), a emergência de filmes de horror que retratam os temores da classe trabalhadora brasileira. Partindo de Mariana Souto (2012), que identifica no horror brasileiro da década de 2000 uma expressão dos temores da classe média, este estudo investiga o deslocamento temático do gênero, que passa a focar na classe trabalhadora. Algumas obras analisadas são Propriedade (2022), Continente (2024) e Cidade; Campo (2024), entre outras.

Resumo expandido

    Em 2012 Mariana Souto publicou seu texto “O que teme a classe média? Trabalhar Cansa e o horror no cinema brasileiro contemporâneo”, analisando, naquele momento, produções do cinema de horror nacional, gênero que até então não havia vivido o boom de produções recentes. Para Souto (2012), Trabalhar Cansa (Juliana Rojas e Marco Dutra, 2011) marcava essa nova onda, misturando em sua mise-en-scène elementos dramáticos e de horror para refletir sobre os medos da classe média brasileira provocados pela ascensão das classes mais pobres a partir dos governos do Partido dos Trabalhadores (PT). Na última década (2016-2026), além de diversas produções do gênero no cinema nacional, assistimos também à derrocada do governo petista a partir das Manifestações de Junho de 2013, que atingiram a popularidade da presidenta Dilma Rousseff, culminando no golpe sofrido em 2016. Na ocasião, o vice-presidente Michel Temer assumiu o governo e foi sucedido pelo representante da extrema-direita Jair Bolsonaro, em 2018. Em comum a Temer e Bolsonaro, viu-se o avanço do neoliberalismo e de políticas que atingiram diretamente a classe trabalhadora. Logo, enquanto a década de 2000 é marcada pela ascensão das classes mais baixas e certa conciliação promovida pelos governos Lula e Dilma, a década de 2010 é marcada por conflitos políticos e por um avanço avassalador de políticas contra os trabalhadores.
    É nesse cenário que, em 2021 — dez anos após o lançamento de Trabalhar Cansa —, é lançado o curta-metragem A Máquina Infernal (Francis Vogner dos Reis). O filme se passa em uma fábrica decadente situada na “divisa entre São Bernardo do Campo e Diadema”, localização que não é fortuita, dado que trata-se do coração do ABC paulista, território historicamente associado às grandes greves operárias do final dos anos 1970 e início dos anos 1980 e à emergência do sindicalismo combativo. Esse mesmo espaço foi também reiteradamente tematizado pelo cinema brasileiro, da ficção ao documentário militante, que se ocupou de registrar, problematizar e fabular sobre as greves, as assembleias, a organização coletiva e o cotidiano dos trabalhadores metalúrgicos. Ao situar sua narrativa nesse território, A Máquina Infernal convoca essa memória de luta trabalhista ao mesmo tempo em que a confronta com um presente marcado pelo desmonte de direitos e pela fragilização das condições de trabalho.
    Nesta apresentação, propomos refletir sobre as transformações contemporâneas do mundo do trabalho a partir de A Máquina Infernal, tomando o curta como eixo central de análise e como dispositivo estético que, mobilizando convenções do gênero horror, condensa em imagens e sons os medos, as tensões e os impasses da classe operária brasileira. Embora o filme de Francis Vogner dos Reis seja nosso objeto principal, convocamos também outras obras produzidas na mesma década para tensionar, comparar e aprofundar essa leitura. Dialogando diretamente com a análise de Mariana Souto, buscamos traçar um panorama de como o cinema de horror nacional tem deslocado progressivamente seu olhar para a classe trabalhadora a partir de obras como O Clube dos Canibais (Guto Parente, 2018), A Sombra do Pai (Gabriela Amaral Almeida, 2019), Propriedade (Daniel Bandeira, 2022), Continente (Davi Pretto, 2024), Cidade; Campo (Juliana Rojas, 2024), entre outras. Percebemos, ao final, que, se nas produções da década anterior havia certa contenção ou dissimulação da violência de classe, nos filmes aqui analisados ela emerge de modo explícito e incontornável, radicalizando o conflito e rompendo com qualquer horizonte de conciliação.

Bibliografia

    COUTO, G.; GERBASE, C. A Mancha no cinema de horror brasileiro da década de 2010: Uma análise de Trabalhar Cansa, Mormaço e O Animal Cordial. Revista Eco-Pós, v. 24, n.3, 454–483, 2021. Disponível em: .
    ANTUNES, R. Adeus ao trabalho? Ensaios sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. São Paulo: Cortez, 2015.
    LAZZARATO, M. Fascismo ou revolução? O neoliberalismo em chave estratégica. São Paulo: n-1 edições, 2019.
    SOUTO, M. O que teme a classe média? Trabalhar cansa e o horror no cinema brasileiro contemporâneo. In: Revista Contracampo, Niterói, n. 25, dez. de 2012. PP. 43-60. Disponível em: .
    VASSALI, M. Imagens recorrentes do operário brasileiro: montagens e dois tempos de cinema. 2023. 216 f. Tese (Doutorado em Comunicação Social). Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2023.