Ficha do Proponente
Proponente
- Fernanda Tôrres de Miranda Estevam (UFMG)
Minicurrículo
- Bacharel em Cinema e Audiovisual, especialista em Roteiro para Cinema e Televisão, mestre em Ciências Sociais e doutoranda na Escola de Belas Artes da UFMG, onde pesquisa cinema de terror brasileiro feito por mulheres. Atua como diretora e roteirista na Partisane Filmes.
Ficha do Trabalho
Título
- O “Terror Religioso” no cinema de horror brasileiro feito por mulheres
Resumo
- A produção do cinema de terror brasileiro e a contribuição de diretoras mulheres na direção dessas obras têm crescido. Quando se trata apenas dos filmes com mulheres diretoras, há um tema que vem sendo abordado de forma recorrente nessas obras: o avanço das religiões mais conservadoras no Brasil e a ligação das mulheres com essas religiões. O objetivo deste trabalho é analisar e discutir o contexto social, histórico e político desses filmes e qual o papel do cinema de horror nessa discussão.
Resumo expandido
- Nos últimos anos, tem crescido não só a produção do cinema de terror brasileiro como também a contribuição de diretoras mulheres na direção dessas obras. Quando se trata apenas dos filmes com mulheres à frente da direção, há um tema que vem sendo abordado de forma recorrente nessas obras: o avanço das religiões mais conservadoras no Brasil e a ligação das mulheres com essas religiões. Algumas dessas obras são: Mate-me, por favor (2015) e Medusa (2021), ambos de Anita Rocha da Silveira; Raquel 1:1 (2022), de Mariana Bastos e Virtuosas (2025) de Cíntia Domit Bittar.
A representação tanto das mulheres quanto a relação delas com essas religiões ocorre de formas variadas em cada uma dessas obras. Em alguns casos, trata-se de mulheres oprimidas pela religião, em outros, são mulheres que se rebelam contra essa mesma opressão. Há casos em que elas tomam a frente e se tornam as representantes e discípulas da religião, e há também aqueles em que a religião é um pano de fundo, que funciona mais como justificativa para escolhas e ações dos personagens do que como um agente modificador da história.
Em todos os casos, de toda forma, a religião funciona como um catalisador do terror no enredo desses filmes, e claramente a relação de gênero — mulher -– com o gênero — terror — não é apenas uma coincidência nessas obras. As simbologias de várias religiões sempre estiveram presentes no cinema de terror, religiões de matrizes africanas muitas vezes foram, e ainda são, representadas de forma estereotipada em obras do gênero. Vários ritos da igreja católica são incorporados – literalmente – em filmes de exorcismo e possessão demoníaca; o próprio José Mojica Marins, com seu personagem Zé do Caixão, traz elementos das religiões católicas e candomblecistas para os seus filmes.
Porém, o que vemos agora, são filmes nos quais a própria igreja, em sua grande maioria neopentecostal, é o monstro, o mal, o terror. O Brasil, desde 2010, vem passando por um processo de conservadorismo intenso, e uma das principais características desse processo é o crescimento do poder de igrejas neopentecostais. Esse crescimento ocorre para além dos espaços da igreja, ele ocupa a mídia, as escolas e a política, e afeta diretamente a sociedade brasileira, já que passam a comandar áreas que definem comportamento, consumo e até mesmo as leis.
Com esses pontos postos — a existência de um tema em comum, a relação com a realidade do país e com o recorte de filmes dirigidos por mulheres — trago as seguintes questões: Por que esse tema se tornou relevante para o terror? E por que está mais presente no cinema feito por mulheres? Qual a relação do gênero com o tema? O objetivo deste trabalho é analisar e discutir o contexto social, histórico e político desses filmes e qual o papel do cinema de horror, e, especificamente nessa discussão, o horror feito por mulheres.
Bibliografia
- CARREIRO, Rodrigo et tal. Belas, recatadas e reprimidas: cristofascismo, horror
social e controle do corpo feminino em Medusa. REVER: Revista de Estudos da Religião, São Paulo, v. 25, n. 1, p. 29-45, 2025.
COUTO, Giancarlo. Fragmentos da moral cristã no cinema de horror de José Mojica Marins. Porto Alegre. 2020.
FEIX, Daniel. O horror social do cinema como sintoma do desenvolvimento do bolsonarismo no Brasil. Revista Esferas, ano 15, vol. 02, no 33, maio/agosto de 2025.
NASCIMENTO, Genio, CANEPA, Laura. Narrativas insólitas no século XXI: Novo realismo e horror no cinema contemporâneo. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação 41º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Joinville – SC – 2 a 8/09/2018.
SALDARRIAGA, Patricia. El horror inmaculado en el cine de horror contemporáneo. Vol. 38, n.o 3, p. 104–119. 2024.