Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    José Augusto Mendes Lobato (UAM)

Minicurrículo

    Docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi (PPGCOM-UAM). Doutor em Ciências da Comunicação (PPGCOM-USP). Realizou pesquisa pós-doutoral no PPGCOM-UAM. Líder do Grupo de Pesquisa AlterMídia – Laboratório de Estudos em Cultura Audiovisual, Alteridade e Mídias (CNPq). Jornalista e mestre em Comunicação (Faculdade Cásper Líbero). Docente da Universidade São Judas. Gerente de Educação Corporativa no Grupo Report. E-mail: gutomlobato@gmail.com.

Ficha do Trabalho

Título

    Alteridade, trauma sonoro e arquissemelhança: percursos contra-narrativos em A Voz de Hind Rajab

Resumo

    Este texto analisa estratégias contra-narrativas de representação da alteridade em “A Voz de Hind Rajab” (2025, dir. Kaouther Ben Hania, 89 min.), relacionando o filme a outras narrativas de contestação ao discurso orientalista. Para isso, focalizamos dois procedimentos centrais: o trauma sonoro operado na voz real de Hind, criança palestina de seis anos assassinada por Israel enquanto aguardava resgate humanitário; e a produção de regimes de arquissemelhança ancorados nas imagens da infância

Resumo expandido

    Campo de dissensos, do dessemelhante (Commoli, 2008) e de relação de alteridade e confronto, o documentário é um meio contundente de exercício da experiência vicária de contato com regiões em conflito. Na mesma linha, construções ficcionais híbridas ancoradas no documental, a exemplo de docudramas, são tributárias diretas dessas funções. Relativizam a ancoragem objetiva das imagens para propor, à maneira das imagens de arte mencionadas por Rancière (2012), combinações que modulam formas de estranhamento, des-identificação e arquissemelhança.
    Buscamos neste texto entender como esse potencial é explorado e reprocessado em narrativas do/sobre o Oriente Médio que propõem escritas de contestação ao Orientalismo (Said, 1990; 2001) e aberturas para uma relação de estesia e encontro (Landowski, 2012). Para isso, examinamos duas operações – o uso do trauma sonoro e os regimes de arquissemelhança ligados à infância – em “A Voz de Hind Rajab” (2025, dir. Kaouther Ben Hania, 89 min.) que nos parecem capazes de promover trajetos contra-narrativos (Bhabha, 1998).
    Notamos, nos últimos anos, esforços de realizadores árabes de combinar arquivo visual, imagens de trauma e retóricas ficcionais para visibilizar violências sofridas pelos habitantes da Palestina. Essa filmografia inclui, além de “A Voz de Hind Rajab”, documentários – “No Other Land”, “5 Broken Cameras” –, séries documentais televisivas – “Al Nakba” – e filmes ficcionais (“Palestina 36”). Notamos neles um esforço de contestação quando da explicação dos conflitos, sobretudo no que concerne à ocupação ilegal israelense e às violências impostas à população palestina desde a primeira metade do século XX.
    Em pesquisas anteriores, viemos detectando que essas obras recorrem a diferentes estratégias de ancoragem e objetivação (Moscovici, 2003), muitas delas já identificadas por nós na análise estrutural das narrativas de alteridade (Lobato, 2018): a retórica testemunhal-singularizada, os jogos opositivos e a os sujeitos fronteiriços. Destaca-se em “A Voz de Hind Rajab”, entretanto, outro recurso: o trânsito entre formas ficcionais e registro documental por meio do uso de áudios verdadeiros de Hind Rajab, criança de seis anos residente em Gaza que solicitou socorro ao Crescente Vermelho após o carro em que estava com familiares ser alvejado. Em seguida, o filme procede à encenação ficcional dos esforços da equipe para resgatar Hind – que acaba assassinada por Israel.
    Entendemos que o recurso da voz factual remete não apenas às imagens de dor, já profundamente usadas no audiovisual com fins estéticos e políticos (Sontag, 2003), mas sobretudo ao trauma sonoro – operação que reitera o efeito de real (Barthes, 1989) e apela a uma forma que, desde as zonas acusmáticas (Chion, 2008), reafirma dialeticamente a violência concreta do Real e a impossibilidade da imagem.
    A isso se soma, ainda, a ênfase na infância como elemento de arquissemelhança, que conduz à empatia e à identificação durante a vivência do Outro. As alterações da semelhança produzidas pelas imagens da arte conduzem a uma “presença sensível, o espírito feito carne, o absolutamente outro que é também absolutamente o mesmo” (Rancière, 2012, p.16). Fora de campo, mas factual e audível, a figuração de Hind Rajab é mecanismo de conexão com a alteridade palestina no filme. Em nossa perspectiva, reafirma o mesmo movimento já detectado em “Nascido em Gaza” e “5 Broken Cameras” de enfatizar a voz e o testemunho de crianças para produzir vínculos sólidos.
    Por meio dessas duas estratégias, observamos que a produção documental e docuficcional sobre regiões em conflito reafirma um dos preceitos fundamentais da cultura audiovisual contemporânea: a urgência de explorar a questão da alteridade não como representação, mas como experiência de encontro – neste caso, com vistas à produção de contra-narrativas que contestem discursos oficiais do sionismo e do projeto orientalista.

Bibliografia

    BARTHES, Roland. O efeito de real. In: O rumor da língua. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
    BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.
    CHION, Michel. A audiovisão: som e imagem no cinema. Lisboa: Texto & Grafia, 2008.
    COMMOLI, Jean-Louis. Ver e Poder. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.
    COUTINHO, Eduardo. O cinema documentário e a escuta sensível da alteridade. Projeto História, v. 15, set. 2012.
    LANDOWSKI, Eric. Presenças do outro. São Paulo: Perspectiva, 2012.
    LOBATO, José Augusto Mendes. A narração de alteridade na ficção e na grande reportagem. RuMoRes, [S. l.], v. 12, n. 23. 2018.
    MOSCOVICI, Serge. Representações sociais. Rio de Janeiro, Vozes, 2003.
    RANCIÈRE, Jacques. O destino das imagens. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.
    SAID, Edward. Orientalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
    SAID, Edward. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
    SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.