Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Julia Fernandes Marques (UBI)

Minicurrículo

    Bolsista de doutorado da FCT, doutoranda em Media Artes na Universidade da Beira Interior, Portugal, Mestre em Cinema e Narrativas Sociais pelo PPGCINE/UFS-SE e Bacharel em Cinema e Video pela UNESPAR-PR. É realizadora de filmes autorais de ficção, experimentais e documentais com ênfase em roteirização, direção cinematográfica, fotografia, iluminação e montagem. Acumula a edição de livros, capítulos e artigos publicados, realização de mediação, palestras, comunicações orais e revisões ad hoc.

Coautor

    Ana Catarina Pereira (UBI)

Ficha do Trabalho

Título

    O roteiro de autorrepresentação como cuidado de si: reflexões sobre um processo de criação

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    A presente comunicação oral tem como objetivo apresentar a metodologia teórico-prática implementada no processo de criação do filme autobiográfico “Desde Aquele Dia em que Deixei de Ser Tua”, de autoria de Julia Marques. Com foco em experiências de mulheres, o filme tem o seu desenvolvimento atrelado ao doutoramento em Media Artes na Universidade da Beira Interior, Portugal, mas também à Pós-graduação em Processos de Criação da PUC de São Paulo e financiamento da FCT (2023.01510.BD), Portugal.

Resumo expandido

    O processo de criação que nos propomos apresentar parte da escrita de si como espaço para a autorrepresentação e emancipação de mulheres, contrariando as sobredeterminações do patriarcado quanto ao lugar destas em sociedade. Como diria Hélène Cixous: “escrevendo-se, a mulher retornará a esse corpo seu, que fizeram mais do que confiscar” (2022, p. 51). Igualmente, incorporamos a premissa da diversidade de corpos e experiências presentes neste mesmo género, também por razão das interseccionalidades com identidade, origem étnica, cor, classe, idade, território e orientação sexual. Estas concepções, que denunciam as demandas por novas formas de representação das mulheres no cinema (e de novas formas de fazer cinema), que escapem aos estereótipos que amplamente impõem os limites à experiência da mulher, guiaram parcialmente o processo de criação do filme “Desde Aquele Dia em que Deixei de Ser Tua”, aqui sobre enfoque. De autoria de Julia Marques, cineasta e pesquisadora igualmente co-responsável por esta comunicação, o filme acaba por associar as considerações supracitadas a outras teorizações no âmbito da filosofia, da antropologia, dos estudos feministas e das artes, no intuito de constituir uma relevância ao projeto fílmico no sentido da representatividade, como também da inserção no atual contexto contemporâneo e as reverberações de um passado histórico-social no mesmo.
    Nesse sentido, destacamos as teorizações sobre a escrita de si como uma prática para o cuidado de si, entendida como tecnologia intimamente ligada às técnicas da vida ou arte de viver, “techne tou biou”. Escrever sobre si seria atentar à própria existência em corpo e alma com o objetivo de alcançar um cuidado de si. Em conseguinte, a escrita de si seria uma ferramenta essencial para o que Foucault (2006, 2020) chamaria de “estética da existência”, a arte de tornar a própria vida uma obra de arte orientada para um bem viver. Além dos cadernos de anotação, “hypomnemata”, as correspondências seriam, para o autor, uma forma crucial da escrita de si, como prática relacional. Ele a chamaria de escrita etopoética, pela capacidade da mesma de transformar o modo de ser de quem escreve.
    Essas teorizações acabam por inspirar a forma e o sentido do filme. Ou seja, leituras como as referenciadas permitiram a abertura para o processo de criação do filme em questão através da transposição de ideias e conceitos em práticas artísticas/cinematográficas. Dentre elas, podemos citar o uso do recurso dos depoimentos no filme. No mesmo, foram realizadas 10 entrevistas com mulheres brasileiras e portuguesas que, sem um guia de perguntas pré-estabelecido, falam livremente sobre suas próprias vidas e a visão que têm sobre o mundo, de modo mais geral e, ao mesmo tempo, sob olhares corporificados e marcados por suas experiências individuais. Somando-se a isso, a realizadora do filme coloca-se como narradora em primeira pessoa, contanto o processo de encontro com as entrevistadas enquanto interage reflexivamente com as falas delas e rememora suas próprias experiências de vida e os atravessamentos consequentes à vivência das mulheres. Também, são colocados em questão os contextos histórico-sociais presentes no período apresentado no filme, aproximando-o de uma escrita autoetnográfica. Conjuntamente, são propostas cênicas no intuito da criação de atmosferas poéticas e ao mesmo tempo conceituais, em diálogo com o pensamento de César Guimarães de que: “o recurso aos expedientes ficcionais poderia ser considerado […] um meio de alcançar dimensões mais complexas da experiência dos sujeitos filmados” (2011, p.71).
    Considerando a irremovível presença do sujeito por trás de qualquer enunciação, o filme propõe discutir a sociedade contemporânea a partir da sensibilidade de corpos de experiência, nomeadamente de mulheres, sob uma leitura do que Conceição Evaristo chamaria de “escrevivência”. Mais do que verdades, o filme objetiva compor um painel de vozes e fazê-las ecoarem no/a espectador/a.

Bibliografia

    Cixous, H. (2022). O riso da medusa (N. Q. Araújo, Trad.). Bazar do Tempo.
    Evaristo, C. (2009). Da grafia-desenho de minha mãe, um dos desenhos de minha escrita. In A. C. Neves & M. N. S. Fonseca (Orgs.), Corpo de letra (pp. 16-21). PPCIR/UFJF.
    Foucault, M. (2020). História da sexualidade 3: O cuidado de si (M. T. C. Albuquerque, Trad.; 9ª ed.). Paz & Terra.
    Foucault, M. (2006). A escrita de si. In M. B. Motta (Org.), Ditos e escritos V: Ética, sexualidade, política (E. Monteiro & I. A. D. Barbosa, Trads., 2ª ed., pp. 144-162). Forense Universitária.
    Guimarães, C. G. (2011). A cena e a inscrição do real. Galáxia, (21), 68–79.
    Kilomba, G. (2019). Memórias da plantação: Episódios de racismo cotidiano. Cobogó.
    Merleau-Ponty, M. (2014). O visível e o invisível. Perspectiva.
    Russell, C. (1999). Experimental ethnography: The work of film in the age of video. Duke University Press.
    Salles, C. A. (2016). Redes da criação: Construção da obra de arte (3ª ed.). Horizonte.