Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Maria Gizele do Carmo de Brito (UFC)

Minicurrículo

    Maria Gizele do Carmo (Magi do Carmo) é pesquisadora, roteirista, diretora e produtora, com bacharelado em Cinema e Audiovisual pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Mestranda no programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará (UFC), na linha I, Fotografia e Audiovisual, pesquisa o cinema de mulheres negras nas periferias de Fortaleza (CE), com interesse especial em processos de criação, memória e políticas de visibilidade.

Ficha do Trabalho

Título

    GLITCH E DISSIDÊNCIA DE GÊNERO NO FILME NEPTUNE FROST

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    Este artigo propõe analisar o filme Neptune Frost partindo do conceito de glitch, que compreende a falha como uma estratégia estética e política que tenciona estruturas normativas de gênero, tecnologia e poder. A pesquisa busca investigar como a narrativa e a estética do filme produzem rupturas que permitem imaginar formas insurgentes de relação entre corpo e tecnologia.

Resumo expandido

    O filme Neptune Frost (2021), dirigido por Anisia Uzeyman e Saul Williams, apresenta uma narrativa afrofuturista que articula questões relacionadas à tecnologia, exploração do trabalho e gênero. O filme aborda as violências do capitalismo tecnológico, na produção e o consumo de tecnologias digitais estão frequentemente associados à exploração de territórios e corpos. É ambientado em um contexto marcado pela mineração de coltan (mineral fundamental para a produção de dispositivos eletrônicos) para a utilização na fabricação de produtos de alta tecnologia, de computadores, celulares e drones, no qual Matalusa e outros mineradores estão presentes trabalhando incessantemente. O filme ao mesmo tempo em que denuncia esse sistema de extração e violências trabalhistas, também deixa evidente a crítica sobre normatividades de gênero com a presença de personagens centrais (Matalusa e Neptune) que desafiam classificações binárias a partir da estética do glitch, pois autodenominam possibilidades de existência e de autodefinição de si mesmos.
    Diante desse contexto, este artigo tem como objetivo analisar o filme Neptune Frost a partir do conceito de manifesto glitch desenvolvido por Legacy Russell, que compreende a falha tecnológica como um espaço de possibilidade para a desestabilização de sistemas normativos relacionados ao gênero. Para Russell (2023, p. 21), o glitch não deve ser entendido apenas como um erro técnico, o glitch é uma recusa a ser talhada na linha hegemônica de um corpo binário, é uma recusa a se encaixar nas performatividades de gêneros. Performatividades essas tensionadas por Judith Butler (2018) que discute sobre como o gênero binário é socialmente produzido.
    Nesse sentido, o glitch aqui entendido funciona como um conceito central de análise para o filme, pois tanto sua estética quanto sua narrativa produzem essas rupturas nas estruturas dominantes de binarismo social, apresentando personagens que escapam dessas classificações fixas de gêneros. Assim, Neptune Frost pode ser lido como um filme em que a falha, o erro tornam-se potências de autonomia identitária, evidenciando como o cinema pode operar como espaço de elaboração crítica sobre tecnologia, colonialidade e as relações entre dissidências de gênero. Aproximar o filme do conceito de glitch desenvolvido por Russell permite compreender a falha não apenas como erro técnico, mas como potência política capaz de tensionar sistemas normativos de gênero, tecnologia e poder. A estética fragmentada do filme, suas experimentações e a presença de personagens que desafiam classificações normativas de gênero produzem uma linguagem cinematográfica que tenciona modelos tradicionais de representação. Personagens como Neptune e Matalusa representam corpos que operam em uma ótica de reconfiguração das estruturas normativas que organizam gênero, trabalho e tecnologia.
    Além disso, o coletivo de hackers que ocupam um Quilombo tecnológico retratado na narrativa constrói uma forma alternativa de relação com a tecnologia, baseada na reapropriação de resíduos eletrônicos. Essa dimensão aproxima o filme de perspectivas decoloniais que buscam questionar a centralidade de epistemologias hegemônicas na produção de conhecimento e tecnologia, abrindo espaço para outras formas de imaginar o futuro.
    Dessa forma, Neptune Frost não apenas critica as estruturas que sustentam o capitalismo digital, mas também propõe uma reimaginação das relações entre corpo, território e tecnologia. Ao mobilizar uma estética marcada pelo glitch com rupturas nas imagens e pela presença de corpos dissidentes, o filme transforma a falha do glitch em um gesto de resistência e existência desses corpos.

Bibliografia

    BRAGA, Liliane. Tecnologia, tecnologias: Neptune Frost desde uma janela além-gêneros. Revista Crítica de Cinemas Africanos, [s. l.], 2022. Disponível em: Tecnologia, tecnologias: Neptune Frost desde uma janela além-gêneros. Acesso em: 25 jan. 2026.

    BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

    IDE, Wendy. ‘Neptune Frost’: Cannes review. Screen Daily, 14 jul. 2021. Disponível em: https://www.screendaily.com/reviews/neptune-frost-cannes-review/5161583.article. Acesso em: 05 fev. 2026.

    RUSSELL, Legacy. Feminismo glitch: um manifesto. Tradução de Tradução: Camila Araújo. Belo Horizonte:Editora Âyiné,, 2023.
    UZEYMAN, Anisia; WILLIAMS, Saul. Neptune Frost. Ruanda, 2021. Filme.