Ficha do Proponente
Proponente
- Carolina de Oliveira Silva (Unicamp)
Minicurrículo
- Doutoranda em Multimeios pela Unicamp, sua pesquisa se volta para as mulheres e as personagens femininas do cinema brasileiro de ficção científica. É mestra em Comunicação Audiovisual, especialista em História da Arte e bacharel em Rádio, TV e Internet. Atualmente é roteirista e produtora audiovisual, roteirista do podcast Prato de Ciência (FEA – Unicamp), escreve crítica de cinema (ABRACCINE) e possui uma coluna sobre ficção científica brasileira na Revista Especular.
Ficha do Trabalho
Título
- Maternidades na FC brasileira: uma ameaça identificada?
Seminário
- Estudos Comparados de Cinema
Resumo
- Por meio da constelação fílmica (Souto, 2020), o trabalho compara 4 filmes brasileiros de FC a partir da maternidade: O Fruto do Amor (1980), Um Ramo (2007), Divino Amor (2019) e A Nuvem Rosa (2021). A pesquisa discute como a maternidade é construída, demonstrando que as dicotomias ligadas às mães como devoradoras ou nutridoras (Ginway, 2007), podem ser problematizadas. A análise apresenta 3 tópicos: o corpo (Grosz, 1994), a alteridade (Haraway, 2021) e o trabalho (Scavone, 2001).
Resumo expandido
- Este trabalho é um dos capítulos da tese em andamento “ELAS ESTÃO ENTRE NÓS: uma prática feminista para o cinema de ficção científica brasileiro”, e tem como objetivo pensar as diferentes facetas da maternidade em 4 filmes brasileiros que dialogam com a FC: Fruto do Amor (1980), de Milton Alencar Jr., Um Ramo (2007) de Juliana Rojas e Marco Dutra, Divino Amor (2019), de Gabriel Mascaro e A Nuvem Rosa (2021) de Yuli Gerbase.
As histórias apresentam personagens que transitam no universo da maternidade: em Fruto do Amor a cientista, Dra. Elza (Ruth de Souza), trabalha para desenvolver um antídoto que promete desmontar o instinto materno e tornar as pessoas menos perigosas para a sociedade. A experiência se dá em uma ilha com cobaias, dentre elas, Ana Maria (Maria Lúcia Dahl), uma jovem prostituta que acaba engravidando forçadamente, mas aceita a criança, provando a ineficiência do antídoto. Em Um Ramo, Clarisse (Helena Albergaria), professora, mãe e esposa, nota uma mudança em seu corpo – algumas folhas crescendo no braço. Ela vai ao médico para descobrir o que está acontecendo e, enquanto isso, precisa administrar o trabalho, a casa, o filho e as mudanças do seu corpo. No filme A Nuvem Rosa, Giovana (Renata de Lélis) passa a enfrentar as consequências de uma nuvem tóxica que faz com que as pessoas vivam reclusas. Presa com Yago (Eduardo Mendonça), ela se torna mãe, mesmo contra a sua vontade, contudo, o desejo de retomar a vida a torna uma figura incompreendida e desagradável dentro de casa. Em Divino Amor, Joana (Dira Paes) é uma escrivã religiosa que sonha em ser mãe em uma sociedade em que a manutenção da família é dentro da fé. Ao alcançar seu sonho, ela se dá conta de que não sabe quem é o pai da criança e mesmo sem a possibilidade de traição, seu marido Danilo (Júlio Machado) a abandona, ela se torna mãe solteira e passa a ser julgada por isso.
Ao utilizar a constelação fílmica (Souto, 2020) para promover o encontro entre os filmes, o objetivo da pesquisa é, por meio do recorte da maternidade, compreender como as figuras maternas são trabalhadas nos filmes, demonstrando que há nelas a capacidade de problematizar e até subverter as dicotomias usualmente ligadas à ideia da mãe, ora como nutridora, ora como devoradora. Tais dicotomias, identificadas por Elizabeth Ginway (2005) na literatura distópica brasileira, também servem para pensar o cinema e são comuns nas FC brasileiras, mesmo as escritas por mulheres.
A hipótese é de que a maternidade pode ser trabalhada para além do seu caráter biológico, considerando outras interseções menos essencialistas, principalmente ao relembrar suas transformações a partir do pensamento feminista: a recusa da maternidade como meio de subversão à dominação masculina; a maternidade como poder insubstituível e valorização dos saberes femininos, e a maternidade repensada como fenômeno social, compreendida de maneira relacional e marcada por desigualdades.
As análises serão separadas em 3 tópicos escolhidos a partir do visionamento dos filmes: o corpo materno (Grosz, 1994), a alteridade (Haraway, 2021) e o trabalho (Scavone, 2001). Nessa ordem, o corpo é compreendido a partir de suas transformações, sejam físicas ou não, mas que envolvem responsabilidades, opressões e experiências únicas diante de um corpo passível de gerar outra vida. A alteridade é reconhecida a partir das preocupações que ultrapassam as relações maternais – no sentido de mãe e filha (o) –, envolvendo laços para além do vínculo biológico, considerando animais, plantas e as próprias mulheres e seus afetos. Já a conexão com o trabalho fora do espaço doméstico, levanta questionamentos sobre a maternidade atravessada por vias como: mulheres na ciência e no ensino, o trabalho como controle e, também, como negação e insubmissão. Esses recortes serão úteis para pensar as complexidades, repetições e avanços do papel da maternidade em filmes de FC que, de modo geral, dialogam com as possibilidades de futuro para a nossa sociedade.
Bibliografia
- CONABOY, Chelsea. O mito do instinto materno. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
GINWAY, Elizabeth. Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no país do futuro. São Paulo: Devir, 2005.
GROSZ, Elizabeth. Volatile Bodies: toward a corporeal feminism. Indiana University Press: Bloomington and Indianapolis, 1994.
GOTO, Hiromi. Contos do peito. In: VANDERMEER, Ann; VANDERMEER, Jeff. Irmãs da revolução: antologia de ficção científica feminista. São Paulo: Aleph, 2023.
HARAWAY, Donna. O manifesto das espécies companheiras: Cachorros, pessoas e alteridades significativas. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
SCAVONE, Lucila. As múltiplas faces da maternidade. Cad. de Pesquisa, São Paulo, n. 54, pp. 37-29, 1985.
______. A maternidade e o feminismo: diálogo com as ciências sociais. Cadernos Pagu, n. 16, pp. 137-150, 2001.
SOUTO, Mariana. Constelações fílmicas: um método comparatista no cinema. Galáxia, n. 45, pp. 153-165, 202