Ficha do Proponente
Proponente
- Eduardo Brandão Pinto (UFRJ)
Minicurrículo
- Pesquisador de pós-doutorado na UFRJ, apoiado por bolsa PDR-10 da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro. Professor substituto do Departamento de Métodos e Áreas Conexas da UFRJ. Doutor em Comunicação, com período sanduíche na Université Paris VIII, e mestre em Artes da Cena, ambos pela UFRJ. Graduado em Cinema e Audiovisual pela UFF.
Ficha do Trabalho
Título
- O espectador possessivo: transformações entre cinema e psicanálise
Resumo
- Proponho algumas linhas de atualização nos pensamentos que articularam teoria do cinema e psicanálise nos anos 1960 e 70 (Oudart, Metz e Baudry). Esses autores fundamentaram-se na estrutura do dispositivo cinematográfico tradicional (sessão de cinema em sala escura), que, contudo, foi profundamente alterada nas últimas décadas pelos novos dispositivos de visualização e a entrada em cena do que Mulvey chamou de ‘espectador possessivo’.
Resumo expandido
- Nos anos 1960 e 1970, alguns artigos que articulavam teoria do cinema e psicanálise, publicados na França, tentaram elaborar a experiência cinematográfica como uma troca libidinal entre o corpo e o mundo – como Jean-Pierre Oudart (1969), Jean-Louis Baudry (1970; 1975), Christian Metz (1975). De modo geral, lançando mão de um repertório conceitual da psicanálise lacaniana, os autores partiam das condições do dispositivo cinematográfico – como a imobilidade do espectador, o efeito de ilusão do movimento das imagens, a centralidade escópica implicada na estrutura da tela – para extrair os aspectos centrais dos modos pelos quais o filme afeta a subjetividade.
Porém, as transformações nos dispositivos de exibição fílmica, nas últimas décadas, criaram novas estruturas materiais a mediarem a relação do espectador com o filme. A sala escura, a tela grande, o imponderável do tempo da sessão, o corpo imóvel do espectador, deram lugar à fruição em espaços diversos e contíguos, às telas variadas e múltiplas, ao tempo manipulável e ‘pausável’ pelo controle remoto e pela visualização por aplicativos. O corpo do espectador não está mais submetido à condição de passividade, mas ao imperativo da hiperatividade, devendo administrar a sessão com a possibilidade de manipulação do material fílmico.
Sob a nova condição da experiência cinematográfica, toma corpo o que Laura Mulvey (2005) chamou de “espectador possessivo”, que delibera consigo o que vai assistir, manipula o tempo da sessão acomodando-o às flutuações da sua satisfação, e desmistifica o caráter ilusório da imagem em movimento ao levar para dentro da experiência a visibilidade da engrenagem do filme. Assim, o frame pausado na tela torna visível aquilo que o cinema hegemônico não cessou de esconder: a unidade material estática com que o efeito de ilusão do movimento é produzido (Mulvey, 2006). Em outras palavras, desvinculada do dispositivo tradicional da sala de cinema, a experiência cinematográfica é profundamente transformada, implicando outras coreografias psíquicas e libidinais.
Essa apresentação questiona a aproximação entre teoria do cinema e psicanálise a partir das transformações nas condições da experiência cinematográfica das últimas décadas, marcadas pelos novos dispositivos, como a televisão, o videocassete, o DVD, laptops, celulares, conjugados aos sistemas de streamings e os arquivos digitais. Em lugar da grande tela a funcionar como espelho narcísico do espectador, conforme pensada por Metz e Baudry, o filme aparece como matéria de posse em que o sujeito manifesta seu impulso de controle, como proposto por Mulvey. Está em curso uma nova economia libidinal do audiovisual, que exige atualizações nas teorias do dispositivo estabelecidas na segunda metade do século XX.
Pretende-se, com isso, contribuir também para a compreensão das tendências cinematográficas das últimas décadas. No cinema moderno, a sombra do espectador ‘passivo’ oferecia o alvo de transgressão às criações das vanguardas: os experimentos de ‘opacificação da imagem’ e tudo o que apontava para o distanciamento face à forma hegemônica do cinema narrativo incitava a experiência a assumir posições crítica e afetivamente ‘ativas’. No entanto, a partir dos anos 1980, a sombra da passividade tem-se esmaecido, em um processo histórico para além do cinema: o sujeito, impelido permanentemente a intervir no objeto como realização de uma postura econômica e eticamente virtuosa, encontra no imperativo do agir uma nova forma de captura da experiência estética. Assim, pode-se compreender, por exemplo, o retorno à contemplação em certas tendências cinematográficas recentes, como os chamados slow cinemas, em que o filme não mais está em confronto com a imagem do espectador preso à sua condição ocular e inativa, mas com a do sujeito definido pelo impulso de domínio sobre o visível.
Bibliografia
- BAUDRY, Jean-Louis. “Cinema: efeitos ideológicos produzidos pelo aparelho de base.” (1970). In Xavier, Ismail. (Org.) A Experiência do cinema. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2025.
_______ “Le dispositif: approches métapsychologiques de l’impressions de réalité”, Comunnications, n. 23, 1975.
METZ, Christian. “O significante imaginário.” (1975) In Metz, C. et all. Psicanálise e Cinema. São Paulo: Global, 1980.
MULVEY, Laura. “Possessive spectator.” In Death 24x a Second. Stillness and the Moving image. London: Reaktion Books, 2006.
OUDART, Jean-Pierre. “La suture”, Cahiers du Cinéma, n. 211, abril/1969.
OUDART, Jean-Pierre. “La suture (2)”, Cahiers du Cinéma, n. 212, maio/1969.