Ficha do Proponente
Proponente
- João Pedro Ferreira Santana (UFF)
Minicurrículo
- Graduado em Cinema e Audiovisual (2025) pela UFF, atua com distribuição e exibição cinematográficas. Com orientação da Prof. Hadija Chalupe, desenvolveu na monografia um estudo de caso sobre o Programa Cinema Perto de Você à luz das questões da economia política do audiovisual e das políticas culturais.
Ficha do Trabalho
Título
- Cinema Perto de Você e a política pública de exibição cinematográfica no Brasil nos anos 2010
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- A conversão digital transformou os modos de produção e consumo de cinema. No Brasil, para que houvesse a substituição do 35mm, foi necessária ação estatal. Assim, o Programa Cinema Perto de Você foi criado para expandir e modernizar o parque exibidor brasileiro. Esta pesquisa se propôs a traçar um panorama dos impactos e lacunas do programa, levantando questionamentos que podem ajudar a pensar a economia política do audiovisual no país.
Resumo expandido
- Entre 1990 e 2010, consolidou-se o processo de adoção do digital como padrão na indústria audiovisual. Nesse período, as novas tecnologias fizeram esmaecer as fronteiras entre cinema e outras mídias. Ao mesmo tempo, o 35mm foi gradualmente substituído em exibições comerciais. Essa transição não apenas preservou práticas existentes, como também promoveu mudanças nos modos de produção e consumo.
Para produtoras e distribuidoras, o digital trouxe a expectativa de redução de custos. Ainda assim, a mudança não foi simples. Era preciso manter a qualidade das exibições e garantir a segurança contra a pirataria. Em 2005, foi criada a Digital Cinema Initiative (DCI), reunindo grandes estúdios de Hollywood para estabelecer padrões técnicos, de segurança e de qualidade.
Se, por um lado, produtores e distribuidores poderiam economizar, por outro, os exibidores enfrentariam desafios. A atualização tecnológica exigiu a substituição dos projetores de 35mm por equipamentos digitais, que demandariam manutenção constante e mão de obra especializada, gerando custos adicionais.
Nos anos 2000, o Brasil apresentou melhora nos indicadores socioeconômicos, com aumento da escolaridade e do poder aquisitivo. Também houve crescimento da população em áreas urbanas fora das capitais. Apesar disso, o parque exibidor ainda mantinha limitações. Em 2008, havia baixa densidade de salas, forte concentração em áreas de maior renda e predominância nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. E o modelo de negócios seguia ligado à expansão dos shopping centers.
Nesse cenário, no início dos anos 2010, o governo federal criou o Programa Cinema Perto de Você (PCPV). Estruturado em cinco eixos, o programa buscava ampliar e modernizar o parque exibidor, com a construção de novas salas e a digitalização das existentes. Também teve como objetivo alcançar um novo estrato da população que surgia naquele momento. Assim, pretendia atingir especialmente cidades de pequeno e médio porte, incentivando a formação de centros regionais de consumo de cinema.
Esta pesquisa analisou documentos relacionados à criação, implementação e resultados do PCPV. Foram examinados textos legais, relatórios da ANCINE, além de bibliografia especializada e contexto histórico, com o objetivo de interpretar dados e levantar hipóteses.
As linhas de crédito e investimento do programa vigoraram entre 2010 e 2018. Foram assinados 31 contratos, somando cerca de R$ 353 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e R$ 95 milhões do BNDES/PROCULT. Até 2019, aproximadamente R$ 333 milhões haviam sido desembolsados. A distribuição regional dos recursos do FSA destinou cerca de 39% para Rio de Janeiro e São Paulo, aproximadamente 31% para Centro-Oeste, Norte e Nordeste (CONNE), e cerca de 30% para Minas Gerais, Espírito Santo e região Sul (FAMES).
Entre 2009 e 2018, o número de salas de cinema no Brasil passou de 2.110 para 3.347. Dessas, 247 salas foram resultado direto das linhas de crédito do PCPV, quase 20% da expansão no período. Até 2023, os contratos viabilizaram a construção ou ampliação de 290 salas e a digitalização de 1.065.
No âmbito do Projeto Cinema da Cidade, voltado à construção de cinemas públicos em municípios de pequeno porte, os resultados foram limitados. Dos 18 complexos previstos, apenas dois foram concluídos: o Cine Miracema (2024) e o Cine São Pedro (2025), ambos no interior do Rio de Janeiro.
E apesar de ter contribuído para a digitalização do parque exibidor, o modelo apresentou fragilidades. Para alguns exibidores, os contratos de financiamento resultaram em dívidas que permanecem mesmo que os equipamentos adquiridos já tenham se tornado obsoletos e ultrapassados. Enquanto que o distribuidor estrangeiro viu seus custos com a produção de cópias reduzir e o público de seus filmes mais rentáveis ampliar.
Bibliografia
- ANCINE. Análise dos investimentos do FSA em infraestrutura de exibição no Programa Cinema Perto de Você. Rio de Janeiro, 2019. Disponível em: https://www.gov.br/ancine/pt-br/fsa/resultados/relatorio_pcpv_final.pdf.
ANDRIETTA, G. A digitalização das salas de cinema sob a ótica da Economia Política da Comunicação. Anais do Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 44. INTERCOM, 2021. Disponível em: https://portalintercom.org.br/anais/nacional2021/resumos/dt8-ep/gabriela-andrietta.pdf.
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FREIRE, R. L.; TORRES, R. R. A conversão para a projeção cinematográfica digital. Cambiassu: Estudos em Comunicação, p. 166-183, 2022. Disponível em: https://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/cambiassu/article/view/18561.
GAUDREAULT, A.; MARION, P. O fim do cinema? Uma mídia em crise na era digital. Campinas: Papirus, 2016.