Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Pedro Butcher (ESPM)

Minicurrículo

    Professor do curso de cinema e audiovisual da ESPM-Rio. Em 2019, defendeu a tese “Hollywood e o mercado de cinema no Brasil: princípios de uma hegemonia” (UFF). Integra a equipe do encontro de coprodução Brasil CineMundi, é curador da mostra WIP na Mostra de Cinema de Tiradentes, e coordena o programa Talents Rio, no Festival do Rio. Assina a coluna Janela Crítica, no Valor Econômico.

Ficha do Trabalho

Título

    A distribuição como gatekeeping

Seminário

    Políticas, economias e culturas do cinema e do audiovisual no Brasil

Resumo

    Em geral, a distribuição é vista como uma etapa da cadeia audiovisual, responsável por fazer os filmes e obras chegarem até o público. Essa comunicação questiona essa ideia para entender como a distribuição, pelo menos da forma como ela é pensada e operada pelos grupos hegemônicos, atua como uma forma de gatekeeping, que define hierarquias de visibilidade e delimita a circulação de determinadas obras.

Resumo expandido

    Quando recebeu o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira por Parasita, em janeiro de 2020, o diretor Bong Joon Ho fez um célebre discurso de agradecimento, afirmando que, quando o público americano superasse a barreira de uma polegada das legendas, teria acesso a um mundo incrível de filmes. A afirmação do diretor repete um lugar comum, que responsabiliza o público americano pela baixa presença dos filmes estrangeiros no mercado doméstico. No entanto, as evidências históricas e contemporâneas das dificuldades de acesso ao filme estrangeiro no circuito exibidor dos EUA mostram que o problema não pode ser reduzido a uma resistência às legendas, até porque haveria sempre a possibilidade de exibir filmes estrangeiros em versões dubladas em inglês (assim como os filmes americanos são exibidos na maioria dos mercados estrangeiros em versões dubladas, inclusive no Brasil). No entanto, não se fala em “resistência do público americano” às versões dubladas.
    O argumento central desta comunicação é que a distribuição, da maneira como é pensada e organizada pelas grandes empresas hegemônicas, não deve ser compreendida apenas como etapa logística da cadeia produtiva, encarregada de fazer os filmes chegarem ao público, mas como uma instância estratégica de poder, seleção e bloqueio, isto é, como gatekeeping. Nessa perspectiva, distribuidoras, agentes de venda e conglomerados midiáticos não apenas intermedeiam a circulação dos filmes: eles definem hierarquias de visibilidade, delimitam quais obras alcançarão determinados mercados e em que condições isso ocorrerá. Smits (2019) demonstra que a distribuição está no coração do negócio cinematográfico justamente porque conecta produção e consumo por meio de operações de inclusão e exclusão, regulando o acesso e atribuindo valor diferencial às obras.
    Aplicada ao mercado norte-americano, essa chave analítica permite deslocar o foco da discussão do gosto presumido do público para a organização material e institucional da oferta. O histórico da recepção do cinema estrangeiro nos Estados Unidos mostra que a presença desses filmes dependeu menos de uma disposição espontânea dos espectadores e mais das condições de circulação criadas pelo mercado, pela estrutura exibidora e pelas políticas das majors e dos distribuidores independentes. Nesse quadro, a escassez de público aparece também como efeito de escassez de acesso, divulgação e permanência em cartaz.
    Uma das estratégias recorrentes das grandes distribuidoras americanas consiste em adquirir direitos de distribuição de filmes estrangeiros bem-sucedidos e submetê-los a lançamentos limitados nos EUA, em poucas salas e com baixo investimento promocional, ou mesmo retê-los sem circulação expressiva, preservando para o mercado doméstico a primazia simbólica e comercial da produção americana. Em certos casos, esse movimento se articula ainda à produção posterior de remakes em inglês, por meio dos quais a obra estrangeira é reinscrita sob forma mais assimilável ao padrão industrial dominante. Nessa dinâmica, a distribuição deixa de ser apenas mediação e passa a operar como contenção ativa da diversidade audiovisual.
    A proposta dessa comunicação é ampliar a reflexão sobre hegemonia, dependência e assimetria nos mercados audiovisuais iniciada na pesquisa de doutorado que resultou na publicação “Hollywood e o mercado de cinema no Brasil: princípios de uma hegemonia”, buscando situar as questões da distribuição no âmbito das políticas culturais, formação de repertório e regimes de visibilidade, e compreender também em que medida a distribuição de filmes no Brasil reproduz a lógica e as estratégias do “gatekeeping”, inclusive nas relações entre filmes estrangeiros e brasileiros e, também, entre os próprios filmes brasileiros.

Bibliografia

    AUTRAN, Arthur. O pensamento industrial cinematográfico brasileiro. São Paulo: Hucitec, 2013.
    BAHIA, Lia. “Políticas públicas para o cinema e audiovisual em três atos: os movimentos do cinema e audiovisual no Brasil nos anos 2000”. Espirales, Foz do Iguaçu, UNILA, 2023, p. 27-42.
    GOMES, Paulo Emílio Salles. Uma situação colonial? São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
    OGAN, Christine. “The Audience for Foreign Film in the United States”. Journal of Communication, v. 40, n. 4, 1990, p. 58-77.
    QUINN, Michal Joseph. Early Film Distribution and the Development of the Motion Picture Industry: Famous Players and Paramount, 1912-1921. University of Wisconsin-Madison, 1998.
    SHEVENOCK, Sarah. “For U.S. Audiences, Foreign Cinema’s One-Inch Wall of Subtitles Seen a Mile High”. Morning Consult, 4 fev. 2020.
    SMITS, Roderik. Gatekeeping in the Evolving Business of Independent Film Distribution. Cham: Palgrave Macmillan, 2019.