Ficha do Proponente
Proponente
- Maria Cecilia Ferreira De Nichile (ECA USP)
Minicurrículo
- Doutoranda pelo Programa de Meios e Processos Audiovisuais da Escola de Comunicação e Artes (USP). Possui mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo, especialização em Curadoria e Educação em Museus de Arte Contemporânea pelo Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, Pós-graduação Lato Sensu em Jornalismo pela Cásper Líbero e graduação no curso Superior do Audiovisual da Escola de Comunicação e Artes (USP). Atua como especialista em cinema no Sesc São Paulo.
Ficha do Trabalho
Título
- A cidade no cinema brasileiro contemporâneo: olhares diversos para a experiência urbana periférica
Resumo
- O cinema nacional contemporâneo tem encontrado variadas formas de apresentar diferentes experiências de vida nas cidades, com a exibição de uma diversidade de corpos, cores e sons, em uma pluralidade de espaços. O trabalho tem por objetivo analisar como os filmes Marte Um (2022) e Sem Asas (2019) utilizam a fotografia, a cor e o som como um modo de ampliar perspectivas e representar novas possibilidades de interação das personagens com os espaços urbanos.
Resumo expandido
- O cinema e a cidade sempre estiveram relacionados. Essa relação foi desenvolvida pelos mesmos códigos da modernidade: novas tecnologias, movimento e mercado (Charney; Schwartz, 2004). Ao mesmo tempo, como produto desse contexto moderno, o cinema tem exibido a cidade, em toda sua trajetória, como um de seus temas recorrentes, o que fez com que os filmes demonstrassem um potencial para traduzir a sensação de estar e vivenciar a cidade (Machado, 2007).
A partir dessa perspectiva, muitos locais começaram a ser mais associados às suas traduções fílmicas do que com o que realmente se parecem (Comolli, 1997, p. 153), pois, quando os cineastas escolhem apresentar determinados aspectos e enquadramentos de uma cidade, essa visão particular do espaço torna-se um olhar partilhado e passa a influenciar o imaginário dos espectadores a respeito desses lugares. O cinema, então, detém a possibilidade de transformar a cidade ao filmá-la.
O cinema nacional contemporâneo tem encontrado diferentes formas de apresentar as experiências de vida nas cidades. Embora continuem a exibir os problemas da paisagem urbana e as desigualdades que marcam a vida de seus habitantes, as histórias passaram a ser narradas por outros olhares. São pontos de vista que apresentam a diversidade de corpos, cenários e subjetividades, bem como a pluralidade espacial da qual é feita uma cidade. Portanto, o objetivo do trabalho é observar o modo como esses filmes fazem uso da linguagem fílmica para ampliar perspectivas e inspirar novas possibilidades de interação com os espaços citadinos.
Os filmes Marte Um (2022) e Sem Asas (2019) apresentam espaços periféricos de Contagem e São Paulo e as famílias negras que ali residem, por intermédio de um olhar mais favorável, mas que não ignora os desafios de suas vivências. As obras nos convocam a conhecer essas localidades, a partir da experiência cotidiana desses sujeitos e das comunidades diversas que coabitam esses espaços. O público, então, experimenta estar nesses lugares considerados periféricos, a partir de um modo de filmar que não os aparta do resto da cidade, mas sim os assume como parte da configuração citadina.
Para compreender melhor o que um filme está querendo nos dizer, é preciso observar como ele nos diz (Bazin, 2014, p. 102). Logo, a organização dos componentes fílmicos na cena, como a fotografia, a cor, os objetos, os sons e os enquadramentos, influencia no modo como apreendemos as localidades urbanas. São escolhas que atuam na construção desses ambientes na tela, visto que os elementos distribuídos nos quadros atribuem sentidos à narrativa e contribuem para que o espectador adentre sensivelmente nessas histórias e contextos pelo ponto de vista que os cineastas optam por apresentá-los.
Desse modo, com o auxílio dos elementos organizados na tela, as localidades urbanas e as relações interpessoais que se desenvolvem nelas adquirem outros aspectos. Ao ressaltar determinadas tonalidades, entoar sonoridades afetivas e construir óticas diversas para esses cenários, os filmes atribuem olhares mais generosos e por lentes que imprimem beleza a esses lugares, o que fomenta novas percepções e sensações sobre esses ambientes, ainda que não deixe de apontar os problemas sócio econômicos existentes nessas espacialidades.
Consequentemente, a maneira como esses locais são apresentados nos filmes instiga o espectador a vivenciar a diversidade de corpos e histórias que ali convivem através de um olhar mais afetivo e igualmente crítico. Nesse sentido, bell hooks (2019, p. 25) explana que essas escolhas possibilitam edificar imagens de resistência, pois são imaginários criados com o intuito de serem libertadores para os sujeitos que ali se identificam, tendo potencial para inspirar mudanças no nosso modo de se relacionar no mundo. Dessa forma, os filmes propõem outras interações com esses locais, ressaltando a importância da linguagem cinematográfica como reflexão sobre a multiplicidade das experiências sociais contemporâneas.
Bibliografia
- BAZIN, André. O que é o cinema? São Paulo: Cosac Naify, 2014.
CHARNEY, Leo.; SCHWARTZ, Vanessa R. O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac Naify, 2004.
COMOLLI, Jean-Louis. “A cidade filmada”. Cadernos de antropologia e imagem. v.4: A cidade em imagens. Rio de Janeiro: UERJ, 1997.
HOOKS, bell. Olhares Negros: raça e representação. São Paulo: Elefante, 2019.
MACHADO JR, Rubens Luis Ribeiro. Imagens brasileiras da metrópole: a presença da cidade de São Paulo na história do cinema. Tese (Livre Docência) – Universidade de São Paulo, 2007.