Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Tainá Carvalho Ottoni de Menezes (UFF)

Minicurrículo

    Tainá Carvalho Ottoni de Menezes é doutoranda em Cinema e Audiovisual no PPGCine-UFF, com estágio na Universidad Autónoma de Madrid. Mestre pela UFF, graduada pela Paris 8, possui especializações em Montagem pela EICTV (Cuba) e em realização de documentário pela ENS Louis Lumière (França). Atua como montadora desde 2009 e tem ministrado cursos de montagem cinematográfica em instituições como a ABC Cursos de Cinema e a EICTV.

Ficha do Trabalho

Título

    Contramontagem no Noticiero ICAIC: montagem desviante e imagens imperialistas

Seminário

    Edição e Montagem audiovisual: reflexões, articulações e experiências entre telas e além das telas

Resumo

    O trabalho analisa a montagem de arquivo no Noticiero ICAIC Latinoamericano (1960–1990), propondo o conceito de contramontagem como chave teórico-analítica para compreender a disputa pelo sentido histórico das imagens no contexto da Guerra Fria na América Latina. A partir de três eixos geopolíticos, distingue três modulações dessa prática — desviante, mitológica e descolonizadora —, concentrando-se na primeira como forma de apropriação crítica de imagens do aparato midiático estadunidense.

Resumo expandido

    Este trabalho integra a pesquisa de doutorado em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (PPGCine-UFF), dedicada à análise das práticas de montagem de arquivo no Noticiero ICAIC Latinoamericano (1960–1990), cinejornal oficial da Revolução Cubana. A investigação parte da hipótese de que o Noticiero elaborou um modelo estético-político singular de intervenção nas disputas narrativas e simbólicas da Guerra Fria na América Latina (PETTINÀ, 2018) fundado na apropriação e reorganização de imagens provenientes de diferentes circuitos de produção e circulação, cuja configuração, longe de ser fixa, se redefine em função das condições de produção coletiva, dos arquivos disponíveis, dos temas tratados e do contexto histórico, político e institucional de cada edição. Nesse contexto, propõe-se o conceito de contramontagem como conceito teórico-analítico que permite apreender a orientação segundo a qual a montagem assume explicitamente o arquivo como campo de disputa política, intervindo na produção de sentido histórico das imagens ao reinscrevê-las em novas estruturas interpretativas. A análise do corpus, organizado a partir de três eixos geopolíticos — Estados Unidos, União Soviética e América Latina (com ênfase no Brasil) — permite distinguir três modulações dessa prática: a montagem desviante, associada ao reaproveitamento crítico de imagens do aparato midiático estadunidense; a montagem mitológica, vinculada à construção de uma teleologia revolucionária nas edições sobre a União Soviética; e a montagem descolonizadora, mobilizada nas edições latino-americanas como forma de reinscrição crítica das imagens do continente. Em apresentação anterior, foram discutidas as operações próprias da montagem descolonizadora. Nesta comunicação, o foco recai sobre a montagem desviante, compreendida como prática de apropriação e deslocamento de imagens produzidas pelo próprio “império” — noticiários televisivos, publicidade, registros institucionais e cultura visual de massa — que, ao serem rearticuladas na montagem, passam a operar segundo uma lógica de desvio de sentido. Um exemplo emblemático dessa operação pode ser observado no Noticiero nº 466 (1969), no qual imagens da chegada do homem à Lua são reaproveitadas e articuladas, por meio de uma montagem irônica, a uma narrativa sobre a derrota dos Estados Unidos em uma partida de beisebol na República Dominicana, deslocando o sentido triunfalista do imaginário tecnológico estadunidense. As operações descritas aproximam-se das formulações situacionistas sobre o détournement (DEBORD; WOLMAN, 1956), ainda que se inscrevam no contexto político do cinema revolucionário cubano. Tal aproximação permite situar essas práticas no interior de um horizonte mais amplo de experimentações estético-políticas que, apesar das distâncias geográficas e históricas, articulam certas vanguardas europeias e o cinema político latino-americano. Como observa François Albera (2009), essas experiências se desenvolvem em estreita relação com contextos de mobilização social e projetos de transformação política, nos quais a forma cinematográfica se constitui como lugar de elaboração de uma tomada de posição histórica e política. Nesse movimento, o arquivo imperial é convertido em instrumento de contestação, com seus códigos visuais e discursivos reconfigurados no interior das lutas pela hegemonia político-cultural na América Latina.

Bibliografia

    ALBERA, F. La vanguardia en el cine. Ediciones Manantial, 2009.
    BERTHIER, N.; ARÊAS, C. (Org.) Noticiero ICAIC: 30 años de actualidades cinematográficas en Cuba. INA Éditions. Bry-sur-Marne, 2022.
    DEBORD, G. A sociedade do espectáculo. Rio de Janeiro: Contraponto,1997.
    ___________ e WOLMAN, G. Mode d’emploi du détournement. Les Lèvres nues, n.8. Bélgica,1956.
    ORTEGA, M. L. De la certeza a la incertidumbre: “collage”, documental y discurso político en América Latina. In: Piedra, papel y tijera: El collage en el cine documental. Ocho y Medio, Madrid. 2009. p. 101-138.
    PETTINÀ, V. Historia mínima de la Guerra Fría en América Latina. Ciudad de México: El Colegio de México, 2018. 
    VILLAÇA, M. Cinema cubano: revolução e política cultural. São Paulo: Alameda, 2010.
    WEINRICHTER, A. Metraje encontrado: la apropiación en el cine documental y experimental. Gobierno de Navarra, 2009.