Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Estevão de Pinho Garcia (IFG)

Minicurrículo

    Docente do curso de Cinema e Audiovisual do Instituto Federal de Goiás (IFG), Câmpus Cidade de Goiás, desde 2015. Doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), mestre em Estudos Cinematográficos pela Universidade de Guadalajara (UdG), México, e bacharel em Cinema pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuante em pesquisas e publicações sobre o cinema latino-americano.

Ficha do Trabalho

Título

    Filme ruim: sintoma do subdesenvolvimento e ou apanhado crítico da face oculta do cinema brasileiro?

Seminário

    Cinema e audiovisual na América Latina: novas perspectivas epistêmicas, estéticas e geopolíticas

Resumo

    A partir da análise comparativa entre as críticas publicadas por Jairo Ferreira no São Paulo Shimbun (1966 – 1972) e três textos de Paulo Emílio Sales Gomes: Uma situação colonial? (1960), Cinema: trajetória no subdesenvolvimento (1973) e a entrevista concedida à Revista Cinegrafia (1974), pretendemos examinar o conceito e a valorização do “cinema ruim” brasileiro manobrados por esses dois críticos. O filme ruim seria a marca de nosso subdesenvolvimento e ou a revelação de nossa face oculta?

Resumo expandido

    Jairo Ferreira, além de divulgador da Boca do Lixo e cronista do Cinema de invenção foi também um arguto observador do cinema brasileiro em seus múltiplos aspectos. Escrevendo na coluna de cinema do jornal da colônia japonesa São Paulo Shimbum de 1966 a 1972 desenvolveu a noção de filme ruim e assim passou a defendê-lo com entusiasmo. Paulo Emílio, do ensaio Uma situação colonial? (1960) a Cinema: uma trajetória no subdesenvolvimento (1973) articula um expressivo desdobramento que culmina-se na entrevista concedida em 1974 a três cineastas da Boca do Lixo: Carlos Reichenbach, Inácio Araújo e Eder Mazini. Para o crítico o filme ruim brasileiro apresentaria uma capacidade de revelação que nenhum outro seria capaz: “A gente encontra tanto de nós num mau filme [brasileiro] que pode ser revelador em tanta coisa da nossa problemática, da nossa cultura, do nosso subdesenvolvimento, da nossa boçalidade inseparável da nossa humanidade, que em última análise é muito mais estimulante para o espírito e para a cultura cuidar dessas coisas ruins do que ficar consumindo no maior conforto intelectual e na maior satisfação estética os produtos estrangeiros” (GOMES, 1974). Em Uma situação colonial? o autor já percebe que o cinema brasileiro apresenta a capacidade de demolir a posição de conforto dos cineastas e da crítica acostumados e doutrinados pelo cinema estrangeiro. O filme brasileiro seria, portanto, um elemento perturbador para o mundo, artificial, mas coerente, de ideias e sensações cinematográficas que o crítico criou para si mesmo. Perturba porque é sintoma, constatação e reflexo do indesejável subdesenvolvimento que esses amantes das cinematografias centrais não quer olhar. Desse modo, a crítica feroz que o filme brasileiro recebe seria exagerada e não corresponde às caraterísticas intrínsecas de sua expressão como objeto cultural. Em outras palavras, deve-se aceitar o cinema brasileiro como parte de si e saber digeri-lo como significado. É nesta aceitação, pelo meio do sintoma, que Paulo Emílio constrói o conceito de “filme ruim”, de fundamental importância em sua crítica posterior (RAMOS, 2018). A trilha da elegia ao “filme ruim” partirá desse mal-estar como “sintoma” que “significa”, apontando na direção inédita de uma análise que vai para além da constatação. Paulo Emílio, anos mais tarde, na passagem dos anos 1960 para os 1970, abre-se ao estímulo do espírito tropicalista, inclinado ao pop e a assimilação deglutidora da cultura de massa, culminando em sua posterior defesa da pornochanchada. Essa postura radical do crítico revela uma significativa sintonia com o Cinema Marginal. O autor deixa espaço para o apetite antropofágico devorador da “baixa” cultura ou do lixo e para o dialogismo intertextual avacalhado, que explode a partir dos dois primeiros longas de Rogério Sganzerla: O bandido da luz vermelha (1968) e A mulher de todos (1969). Para usar uma expressão de Jairo Ferreira, a “sintonia intergalaxial” entre Paulo Emílio e os marginais Rogério Sganzerla e Jairo Ferreira é altamente expressiva. Embora o veterano crítico não tenha aderido à incorporação intertextual operada pelos jovens críticos da Cahiers du cinéma e futuros cineastas da Nouvelle Vague em relação ao filme B e ao cinema de gênero hollywoodiano, que tanto influenciou os Marginais da Boca do Lixo, ele faz esse deslocamento em direção a um outro lixo. O lixo reciclado pelos Marginais é a chanchada, o filme noir, a ficção científica, o horror, o cinema de strip-tease e o bang-bang. Paulo Emílio, por sua vez, parte da chanchada e se desdobra para a pornochanchada. Se a chanchada era o filme ruim brasileiro das décadas de 1940/1950, a pornochanchada é o nosso filme péssimo dos anos 1970. Nossa proposta é , portanto, fazer uma análise comparativa da noção de filme ruim articulada por esses dois críticos entre as décadas de 1960 e 1970.

Bibliografia

    COELHO, Renato. O cinema e a crítica de Jairo Ferreira. São Paulo: Alameda, 2015.
    FERREIRA, Jairo; Cinema de invenção. [3.ed]. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2016.
    ____. Críticas de Jairo Ferreira. Críticas de invenção: os anos do São Paulo Shimbun. GAMO, Alessandro (Org.) São Paulo: Imprensa Oficial, 2006.
    GOMES, Paulo Emílio Sales. Entrevista a Carlos Reichenbach, Eder Mazini e Inácio Araújo (Revista Cinegrafia, 1974).
    _____. Uma situação colonial? São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
    RAMOS, Fernão Pessoa. Paulo Emilio: do cinema novo ao cinema marginal in SCHVARZMAN, Sheila; RAMOS, Fernão Pessoa (Orgs). Nova história do cinema brasileiro. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2018.