Ficha do Proponente
Proponente
- Leonardo Araújo Oliveira (UFMG)
Minicurrículo
- Doutorando no PPGFIL-UFMG. Mestre em filosofia pela UNESP. Licenciado em filosofia pela UESB. Curador no cineclube Segundo o Cinema.
Ficha do Trabalho
Título
- Do Sacrifício ao Cavalo de Turim: o tempo do fim em Tarkovski e Béla Tarr
Resumo
- A presente proposta de comparação entre os filmes O Sacrifício (Tarkovski) e O Cavalo de Turim (Tarr) estende a forma temporal ao conteúdo do fim: o apocalipse, o que demarca seu horizonte temático cristão. Buscamos, assim, mostrar como os dois filmes respondem de maneiras distintas a esse tema, ainda que em diálogo formal, em função de duas visões de mundo distintas quanto ao papel e ao poder da fé, bem como à incorporação de duas perspectivas opostas na imagem: transcendência e imanência.
Resumo expandido
- Em O Sacrifício, Tarkovski trabalha o tema do fim do mundo em seu último filme. Em O Cavalo de Turim, Béla Tarr repete o gesto em seu último filme, de forma menos explícita, a partir da encenação de um processo que soa menos como o apocalipse e mais como uma reversão do Gênesis, uma espécie de de-criação (SCOTT, 2012). Trata-se de dois cineastas que marcaram seu cinema pela dilatação temporal como elemento essencial da composição de seus planos, pensando o fim dos tempos em seus filmes-testamento.
Nesta comparação fílmica, o critério de destaque será um gesto curatorial que articula diferentes obras a partir de uma relação de significantes — tal como a psicanálise lacaniana a concebe —, uma relação que se dá por associação livre, mas cujo destaque, no nível primário da associação, não se orienta pelo significado profundo, e sim pela superfície dos signos, por sua materialidade tal como afeta nossa sensibilidade, de acordo com uma organização formal — apreendida de modo consciente ou não. Isso pressupõe uma teoria estética de fundo (entendida como teoria da sensibilidade), que se inicia pela forma sem culminar em formalismo, mas que pensa o conteúdo como viabilizado apenas pela forma, podendo ser compreendida como uma teoria da formatividade (PAREYSON, 2005).
Essa ideia de formatividade orienta também a relação entre cinema e filosofia, na qual o cinema não é pensado como ilustração de conceitos, mas como uma forma artística que compartilha com a filosofia (e com a ciência) uma mesma matéria: o pensamento(DELEUZE, 1985). O cinema fornece, assim, imagens do pensamento, tendo como pano de fundo uma ontologia. Ele recorta a realidade com instrumentos distintos daqueles da filosofia (o conceito), mobilizando afectos e perceptos. Isso se dá por meio de sua dimensão sensível mais imediata. Isso não significa que a filosofia não se atenha à sensibilidade, nem que o cinema não incorpore instrumentos próprios do pensamento conceitual, como os signos linguísticos.
É por essa via que os dois filmes estabelecem sua relação com a história da filosofia: o fato de que, no início de suas projeções, a filosofia de Nietzsche é reivindicada. Contudo, essa textualidade precisa ser pensada como forma. E é a forma que definirá essa relação, assim como permitirá estabelecer outras relações não explicitadas textualmente.
No início de O Sacrifício, dois personagens mencionam o conceito nietzschiano de eterno retorno em uma conversa cotidiana, e o tema aparentemente não retorna ao longo do filme. De modo semelhante, em O Cavalo de Turim, no prólogo ouvimos uma narração do episódio do colapso mental sofrido por Nietzsche após abraçar um cavalo açoitado por um cocheiro; a partir daí, acompanhamos a história do cavalo, sem outras referências diretas a Nietzsche. Pode-se supor que o desenvolvimento apocalíptico de ambos os filmes faça alusão ao processo de decadência niilista descrito por Nietzsche; contudo, é necessário avaliar em que medida os filmes aderem a essa ideia como um todo ou apenas a etapas desse processo.
Minha hipótese é que O Cavalo de Turim incorpora apenas uma face desse niilismo — o niilismo passivo, caricaturado por Nietzsche pela figura do anão em Zaratustra, representação da filosofia pessimista de Schopenhauer. Nesse sentido, não levo até o fim a leitura de Rancière, que identifica um salto de fé diante da ausência de expectativas nos personagens de Tarr. Essa dimensão, no entanto, manifesta-se com grande força em O Sacrifício, de Tarkovski, em parte em diálogo com um cinema que aborda o tema da transcendência de diversas maneiras (SCHRADER,1988), e em parte como herança de uma tradição escandinava que remonta à ênfase que Kierkegaard confere ao tema em Temor e Tremor, ao retomar a figura de Abraão como cavaleiro da fé diante do absurdo.
A partir do terreno comum de um cinema da duração, a comparação estende a forma temporal ao conteúdo do fim, ressaltando na imagem a incorporação da oposição entre transcendência e imanência.
Bibliografia
- CHRISTENSEN, P. G. Kierkegaardian motifs in Tarkovsky’s “The Sacrifice”. Soviet and East-European Drama, Theatre and Film, New York, v. 7, n. 2, p. 31, dez. 1987.
DELEUZE, G. Cinema 2: a imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2009.
KIERKEGAARD, S. Temor e tremor. Lisboa: Relógio D’Água, 2009.
NIETZSCHE, F. O niilismo europeu. Tradução de Clademir Araldi. Estudos Nietzsche, Curitiba, v. 3, n. 2, p. 249–255, jul./dez. 2013.
PAREYSON, L. Os problemas da estética. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
RANCIÈRE, J. Béla Tarr, le temps d’après. Paris: Capricci, 2011.
SCHRADER, P. Transcendental style in film: Ozu, Bresson, Dreyer. Berkeley; Los Angeles: University of California Press, 1988.
SCOTT, A. O. Facing the abyss with boiled potatoes and plum brandy. The New York Times, 10 fev. 2012. Disponível em: http://www.nytimes.com/2012/02/10/movies/the-turin-horse-from-bela-tarr.html. Acesso em: 12 abr. 2026.
TARKOVSKI, A. Esculpir o tempo. São Paulo: Martins Fontes, 1998.