Ficha do Proponente
Proponente
- Camilla Vidal Shinoda (IFB)
Minicurrículo
- Doutora pelo PPG em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP (2025). Mestre pela FAC/UnB (2017). Possui graduação pela UnB, na área de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (2008) e Publicidade e Propaganda (2006). É professora no Instituto Federal de Brasília (IFB), campus Recanto das Emas. É diretora e roteirista e finaliza seu primeiro longa – Missão Pankararu – em codireção com Tiago de Aragão. Sua pesquisa de doutorado foi financiada com bolsa Capes até 07/2023.
Ficha do Trabalho
Título
- A Ceilândia como território fílmico: o paradoxo da terra vermelha
Seminário
- Cinemas, Comunidades, Territórios: interpelações aos gestos analíticos
Resumo
- O trabalho investiga como a Ceilândia, enquanto território (SANTOS, 1999), se apresenta nas obras de diretores ceilandenses – Adirley Queirós, Gu da Cei, Suéllen Batista, Augusto Borges, Douglas Queiroz e Nathalya Brum – a partir da cartografia de um elemento físico marcante no DF: a terra vermelha. A terra vermelha relaciona-se com os diversos corpos que podem ocupá-la ou não, constituindo-se como algo sobre o qual é possível produzir diferentes sentidos.
Resumo expandido
- O presente trabalho investiga como a Ceilândia, enquanto território (SANTOS, 1999), se apresenta nas obras de diretores pertencentes a três coletivos ceilandenses de cinema – Adirley Queirós, da Ceicine; Gu da Cei e Suéllen Batista, do Jovem de Expressão; e Augusto Borges, Douglas Queiroz e Nathalya Brum, da 404 Produções – a partir da cartografia de um elemento físico marcante a todo o perímetro do Distrito Federal: a terra vermelha do cerrado. Assim como o oceano Atlântico foi relevante para a compreensão da diáspora negra no Brasil, a terra vermelha empreende um papel importante no processo de interiorização; afinal, foi ela quem recepcionou todos aqueles que chegaram ao centro do país para construir a nova capital federal. Ela se faz presente na produção de imagens sobre a região desde a fotografia do marco zero de Brasília, realizada por Mário Fontenelle em 1956, passando pelos cinejornais produzidos pela Novacap durante a construção, bem como pelos documentários modernos filmados por cineastas como Gerson Tavares, Joaquim Pedro de Andrade e Vladimir Carvalho na região. Apesar do grande intervalo de tempo entre essas cinematografias, a terra vermelha continua marcando a cartografia (BRUNO, 2002) elaborada pelos cinemas de território (SHINODA, 2025) da Ceilândia.
Escolher esse elemento mineral, essa característica geográfica, natural e originária do espaço físico do Planalto Central, é admiti-lo, também, como um elemento sensível da ocupação desses territórios. A terra vermelha relaciona-se com os diversos corpos que podem ocupá-la ou não; ela participa dos processos de ocupação desses territórios, constituindo-se como algo sobre o qual é possível produzir diferentes sentidos. O discurso mitológico sobre a fundação de Brasília (HOLSTON, 1993) construído pelo governo como versão oficial, por exemplo, desistoriciza a terra vermelha para reinscrevê-la na história moldada a partir dos ideais modernistas. A Ceilândia, no entanto, é um território de origem paradoxal, que nasce da desigualdade e da impossibilidade de que certos corpos ocupem a modernidade da capital. Nos cinemas produzidos pelos coletivos ceilandenses, a terra vermelha admite essa origem paradoxal da região administrativa, permitindo uma produção de sentidos diversa sobre ela: o sentimento de exílio dos trabalhadores que chegam para construir a cidade e são expulsos, não impede o desejo de ocupação do Planalto Central. Os cinemas de território da Ceilândia amplificam e complexificam a produção de sentido sobre a terra vermelha.
Em filmes como “Rap – o canto da Ceilândia” (2005), “Dias de Greve” (2009), “A cidade é uma só?” (2011), “Branco sai, preto fica” (2014), “Era uma vez Brasília” (2017) e “Mato Seco em Chamas”, de Adirley Queirós (sendo o último em codireção com Joana Pimenta); “História da Ceilândia contada por pioneiros”, de Gu da Cei; “Eu era o lobisomem da Cei”, de Suéllen Batista; e “Plutão não é tão longe daqui”, de Augusto Borges e Nathalya Brum, a terra vermelha se apresenta como um território fílmico que não admite a desigualdade como sentido único para a sua ocupação. Nesses filmes, vamos nos aproximar da experiência cotidiana da vida na Ceilândia, que é permeada por muita luta e resistência, mas também pela dimensão da coletividade, dos instantes de festa, do desejo de instaurar um regime de trabalho emancipado, entre tantas outras ações que compõe o exercício da vida nesse território paradoxal.
Bibliografia
- BRUNO, Giuliana. Atlas of emotions: journeys in art, architecture and film. Nova York: Verso, 2002.
COSTA, Lúcio. Relatório do Plano Piloto. 4. ed. Brasília: Iphan, 2018, [1956]. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/publicacao/lucio_costa_miolo_2018_reimpressao.pdf.
HOLSTON, James. A cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
MESQUITA, Cláudia. Era uma vez Brasília: conversa com Adirley Queirós. In: Catálogo Forum.doc.bh. Belo Horizonte: Forum.doc.bh 2017. p. 167-174.
SANTOS, Milton. O dinheiro e o território. GEOgraphia, Niterói, v. 1, n. 1, p. 7-13 1999.
SHINODA, Camilla. A demarcação de telas nos cinemas de território da Ceilândia: uma cartografia dos modos de fazer de cinemas não hegemônicos. 2025. 317 p. Tese (Doutorado em Meios e Processos Audiovisuais) – Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, 2025.