Ficha do Proponente
Proponente
- Marcia Ortegosa (Eca Usp)
Minicurrículo
- Autora do livro “Cinema Noir. Espelho e Fotografia, co-autora do livro “Diagramas” e artigos em periódicos científicos. Doutora e Mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Ministrou aulas por 20 anos no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo nas áreas de cinema e vídeo. Prepara um pós-doutoramento na ECA/USP. Atua nos temas: audiovisualidade, cinema e vídeo experimental, percepção transsensorial e vertigem perceptiva.
Ficha do Trabalho
Título
- Campo de Forças e vertigem perceptiva na montagem de Naqoyqatsi: Life as War
Seminário
- Edição e Montagem audiovisual: reflexões, articulações e experiências entre telas e além das telas
Resumo
- O filme Naqoyqatsi, da trilogia de Godfrey Reggio, explora a guerra contrapontística em imagens e sons, com formas, cores, texturas e movimentos que se atravessam em espaço-tempo dinâmico, marcado por tensões e fluxos. O campo de forças imagético-sonoro organiza tensão rítmica, alternando acúmulo e descarga, arsis e estasis, refletindo a colisão dialética de opostos e revelando a guerra como experiência sensorial construída pela própria linguagem fílmica e na oscilação constante entre opostos.
Resumo expandido
- O filme Naqoyqatsi: Life as War (2002) de Godfrey Reggio, encerra a trilogia qatsi. A palavra Naqoyqatsi vem do idioma hopi e se traduz por “vida como guerra”, indicando um desequilíbrio estrutural que perpassa o mundo representado, mas também a própria linguagem cinematográfica. O filme explora a guerra contrapontística em imagens e sons, em que formas, cores, texturas e movimentos que se atravessam em espaço-tempo dinâmico, marcado por tensões e fluxos. A montagem organiza-se como um campo de forças imagético-sonoro, no qual diferentes regimes de composição audiovisual articulam ritmos, velocidades, eixos de direção e variações de intensidade, produzindo colisões e continuidades em fluxos simultâneos.
Nesse campo de forças, som e imagem, não se articulam por complementaridade, mas por fricção. A montagem opera como um sistema de tensões, produzindo instabilidade rítmica. Essas tensões alternam acúmulo e descarga, refletindo a colisão de opostos e revelando a guerra como experiência sensorial, construída pela própria linguagem fílmica, na oscilação constante entre contrários que se transformam em processos de metamorfose.
A montagem se organiza em uma estrutura composta por dez sequências, interrompidas por fade-outs que conduzem ao escurecimento gradual até o black, exceto na transição da oitava para a nona sequência. Cada sequência apresenta relativa autonomia formal, funcionando como unidade rítmica marcada por intervalos bem definidos. O filme Naqoyqatsi foi concebido como um experimento estrutural próximo ao modelo da ópera, no qual múltiplos atos se articulam por pausas, respiros e transições, preservando um movimento rítmico orgânico que oscila entre a intensificação progressiva da tensão e sua resolução em queda, constituindo um fluxo em devir contínuo.
A estrutura do filme se organiza por uma colagem múltipla de imagens, articulada por operações de justaposição e sobreposição, em regimes de simultaneidade visual. Essa construção envolve ainda solarização, alterações de cor, contrastes compositivos, entre outros procedimentos de montagem.
Na abertura do filme, surgem cenas nas quais espectros solarizados de figuras humanas, aprisionadas em linhas verticais sobrepostas, sofrem processos de metamorfose que as transformam nas letras da palavra Naqoyqatsi, em um fluxo cinético de natureza rítmica e circular. Essa circularidade contribui para a construção de uma estrutura visual claustrofóbica, coerente com as situações limítrofes que atravessam o filme. Nesse início, o filme já se configura como uma reflexão sobre a guerra enquanto princípio estrutural, em que a destruição da experiência humana é apresentada em um campo de forças intensas, articulado por ícones visuais em choque contínuo e por uma organização sonora irregular e instável. O design articula as dimensões verbal, sonora, visual e cinética em um fluxo de natureza cósmica, constituindo um campo de forças sensório-formal.
Em outra sequência, a experiência de vertigem perceptiva se intensifica na visão do edifício sendo tragado por águas revoltas, em uma fusão entre céu, nuvens, terra e mar que
desestabiliza os limites espaciais da imagem. Quase simultaneamente surge a tempestade, com fluxos de água em linhas diagonais que instauram eixos de direção contrários, produzindo choques contrapontísticos no interior do campo de forças. Trata-se de um espaço de tensão no encontro entre ar, água e terra, atravessado por linhas luminosas das chuvas que cortam o espaço e reorganizam continuamente a percepção do movimento. Essa sequência articula força plástica e intensidade dramática num dos momentos de maior tensão do filme.
Do início da obra até o final, a montagem constrói progressivamente as condições para uma descarga tensiva, configurando um instante de saturação perceptiva, em que o fluxo imagético atinge um limiar de intensidade, os choques contrapontísticos se entrelaçam, numa experiência cinética, na qual o conflito se desdobra em múltiplas dimensões perceptivas.
Bibliografia
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