Ficha do Proponente
Proponente
- Renata Masini Hein (UFF)
Minicurrículo
- Doutoranda, mestra e bacharela em Cinema e Audiovisual na Universidade Federal Fluminense. Membra do Grupo de Pesquisa Mulheridades Cinematográficas, coordenado pela Profa. Dra. Nina Tedesco. Investiga o Nuevo Cine Latinoamericano em uma perspectiva de gênero e feminista, com foco nas obras de Sara Gómez (Cuba), Marta Rodríguez (Bolívia) e Beatriz Palacios (Bolívia).
Ficha do Trabalho
Título
- Como um texto (não) se torna um manifesto: um olhar à produção textual do NCL a partir do gênero
Seminário
- Cinema e audiovisual na América Latina: novas perspectivas epistêmicas, estéticas e geopolíticas
Resumo
- Esta comunicação pretende investigar a produção textual do Nuevo Cine Latinoamericano (NCL) a partir do gênero. Para isso, analisaremos o artigo “La única verdad es el marxismo-leninismo y el materialismo histórico”, da cineasta colombiana Marta Rodríguez (1978), tendo em vista os manifestos consagrados do NCL. Buscaremos compreender e apresentar, portanto, como um texto (não) se torna um manifesto.
Resumo expandido
- Nesta comunicação, partimos da elaboração de Joan Scott (1995) de que o gênero é uma categoria útil de análise histórica, isto é, de que o gênero, enquanto relação social que cria ao mesmo tempo em que é criada por uma determinada sociedade, sendo uma forma primária de significar relações de poder, possibilita o surgimento de novas perspectivas historiográficas que não apenas incluem e consideram a participação ativa de mulheres nos processos históricos, mas que também têm o potencial de, no presente com vistas ao futuro, redefinir e reestruturar o gênero e, por conseguinte, a sociedade em um sentido mais igualitário e/ou emancipatório, levando em consideração também as determinações sociais de raça e classe. Assim, neste trabalho, partimos do gênero para entendermos a história e a construção do Nuevo Cine Latinoamericano (NCL) – uma perspectiva de análise que vem ganhando fôlego nos últimos anos.
Um exemplo é o texto “Nuevo Cine Latinoamericano: uma análise do cânone a partir do gênero”, no qual Marina Tedesco (2020) investiga os vários fatores objetivos e subjetivos que fizeram com que as mulheres cineastas fossem excluídas do cânone desse movimento – e tal artigo nos interessa diretamente na medida em que a autora reflete sobre o papel dos manifestos nesse sentido. Em linhas gerais e talvez reducionistas, podemos entender que os manifestos foram importantes espaços de afirmação estético-política dos cineastas nesse contexto, conferindo visibilidade aos seus autores e engendrando o movimento. À luz do gênero, porém, a pesquisadora percebe que ele foi uma das razões que determinaram o estabelecimento de um cânone exclusivamente masculino, uma vez que, tendo em vista como se dava a socialização feminina no período, não havia uma real possibilidade de uma mulher se posicionar de forma bélica e escrever um manifesto, a ponto de nenhuma delas ter se sentido autorizada a escrever um deles.
É importante apontarmos que Marina Tedesco analisa apenas os anos 1960, quando os primeiros manifestos surgem. A nosso ver, a questão ganha uma nova complexidade quando olhamos para as duas décadas seguintes, uma vez que entendemos que, nesse contexto, as mulheres escreveram sim os seus posicionamentos frente aos debates cinematográficos da época. Assim, nesta comunicação, nos deteremos sobre um desses textos, o artigo “La única verdad es el marxismo-leninismo y el materialismo histórico”, da cineasta colombiana Marta Rodríguez (1978), publicado na influente revista Cine Cubano. Compreendemos que, nesse texto, a diretora assume com veemência uma posição, expressa desde o seu título, opinando dentro do ideário do NCL e frente às suas discussões, o que nos leva a considerá-lo como um manifesto, ainda que não tenha sido lido dessa maneira a seu tempo. Em outras palavras: o artigo, por mais que possua as características de um manifesto, não foi elevado a essa categoria em seu presente histórico, o que nos faz pensar que, nesse momento, já não fossem mais as mulheres que não se autorizavam a escrevê-los.
Nesta comunicação, analisaremos o artigo de Marta Rodríguez em paralelo e/ou em comparação com os manifestos consagrados do NCL – todos escritos por homens –, chamando a atenção para aspectos de conteúdo, linguagem e circulação desses textos. Considerando o gênero como uma categoria útil de análise histórica, buscaremos compreender e apresentar, portanto, como um texto (não) se torna um manifesto.
Bibliografia
- AVELLAR, José Carlos. A ponte clandestina: Birri, Glauber, Solanas, García Espinosa, Sanjinés, Alea – teorias de cinema na América Latina. Rio de Janeiro/São Paulo: Ed. 34/Edusp, 1995.
NÚÑEZ, Fabián. Esse obscuro objeto incômodo: o “cinema direto” nas reflexões cubanas (e latino-americanas) sobre o documentário. Doc On-line, p. 40-60, set. 2019.
RODRÍGUEZ, Marta. “La única verdad es el marxismo-leninismo y el materialismo histórico”. Cine Cubano, Havana, n. 91-92, p. 123-126, 1978.
SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Traduçáo de Guacira Lopes Louro. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 71-99, 1995.
TEDESCO, Marina Cavalcanti. Nuevo Cine Latinoamericano: uma análise do cânone a partir do gênero. Aletria: Revista de Estudos de Literatura, v.30, n.3, p.39-62, 2020.