Ficha do Proponente
Proponente
- Paula Halperin (SUNY)
Minicurrículo
- Paula Halperin é Professora Associada de Estudos de Cinema e História e Diretora da Escola de Cinema e Mídia da Purchase College, SUNY. É também Professora Visitante na UNIRIO. Sua pesquisa explora as relações entre cinema, televisão e circulação de discursos históricos na América Latina com foco no Brasil e na Argentina. Em 2026 publicou, entre outros trabalhos, o volume Sociology and History of Cinema and Television in Latin America (Routledge).
Ficha do Trabalho
Título
- Dona Beja Revisitada: Nostalgia, Streaming e os Limites da Representação Histórica
Mesa
- Reconfigurações da Telenovela: Estéticas, Representações e Disputas Contemporâneas
Resumo
- A recente onda de remakes de telenovelas no Brasil, tanto no streaming quanto na TV aberta, revela uma nostalgia que reativa afetos das obras originais. Esta apresentação investiga o que esse fenômeno indica sobre a permanência do gênero e as razões para o retorno a fórmulas consagradas. Foca em Dona Beja (2026), analisando como o streaming reconfigura estética, técnica e recepção, ao mesmo tempo em que produz tensões entre visibilidade histórica e anacronismo.
Resumo expandido
- A atual proliferação de remakes de telenovelas no Brasil, tanto em plataformas de streaming quanto na produção da televisão aberta, especialmente da Rede Globo, aponta para um fenômeno cultural que articula nostalgia, memória afetiva e reapropriação de fórmulas narrativas consagradas. Longe de ser apenas uma estratégia industrial, essa “febre” suscita questões fundamentais sobre a longevidade e a adaptabilidade do gênero telenovela: o que a nostalgia mobilizada por esses remakes nos revela sobre sua vigência? Por que retornar a narrativas e estruturas do passado em um cenário midiático marcado pela fragmentação e pela concorrência global?
Esta comunicação propõe analisar essas questões a partir de um estudo de caso: Dona Beja (HBO, 2026), uma releitura da telenovela exibida originalmente pela Manchete em 1986. A obra retoma a figura histórica de Ana Jacinta de São José, conhecida como Dona Beja, personagem do século XIX associada à cidade de Araxá, em Minas Gerais, cuja trajetória combina elementos de marginalidade, poder feminino e inserção em estruturas patriarcais. Ao revisitar essa narrativa, a nova versão não apenas reinscreve a personagem em outro contexto de produção e circulação, mas também reconfigura suas dimensões simbólicas à luz de demandas contemporâneas.
A análise parte da hipótese de que o ambiente do streaming introduz transformações significativas em múltiplos níveis: estético, técnico e nas culturas de recepção. Diferentemente da lógica sequencial e cotidiana da telenovela tradicional, o consumo sob demanda permite outras formas de engajamento, reorganizando ritmos narrativos, estratégias de construção de personagens e modos de circulação transnacional. Nesse processo, observa-se a incorporação de tendências globais das séries históricas, aqui descrita como uma “bridgertonização” – referência a um modelo que combina estética sofisticada, erotização controlada e representações racialmente diversas, frequentemente descoladas de rigor histórico.
No caso de Dona Beja, essa “bridgertonização” se manifesta na construção de um universo visual e narrativo que privilegia fantasias de mobilidade social e de democracia racial, particularmente por meio da representação de relações interraciais e casais negros em posições de poder. Embora tais escolhas possam ser interpretadas como tentativas de ampliar a inclusão e a identificação do público contemporâneo, elas também levantam questões críticas sobre os limites entre ficção histórica e distorção do passado.
A comunicação argumenta que essas reconfigurações produzem uma tensão central: por um lado, há uma demanda por maior visibilidade de sujeitos historicamente marginalizados; por outro, a atualização dessas narrativas frequentemente se dá por meio de anacronismos que simplificam ou reescrevem dinâmicas sociais complexas. Assim, ao mesmo tempo em que as novas versões buscam dialogar com sensibilidades atuais, correm o risco de esvaziar conflitos históricos em favor de uma estética conciliatória.
Ao examinar Dona Beja nesse contexto, o presente trabalho contribui para o debate sobre as transformações contemporâneas da telenovela, entendendo o remake como um espaço de disputa simbólica entre memória, mercado e política da representação.
Bibliografia
- CASTELLANO, Mayka; MEIMARIDIS, Melina. “Produção televisiva e instrumentalização da nostalgia: o caso Netflix”. Revista GEMInIS, São Carlos: UFSCar, v. 8, n. 1, p. 60–86, jan./abr. 2017.
FUNKE, Janine; SAHRAKORPI, Tiia. Remembering and selling fashion: Gender and memory in recent historical Netflix shows. Potsdam: ZZF – Centre for Contemporary History: Zeitgeschichte online, 27 abr. 2022. DOI: 10.14765/zzf.dok‑2503. Disponível em: https://zeitgeschichte-online.de/film/remembering-and-selling-fashion.
JENNER, Mareike. “Netflix, nostalgia and transnational television”. The Journal of Popular Television, v. 9, n. especial Television and Nostalgia Now, p. 301–305, out. 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1386/jptv_00058_1. Acesso em: 7 abr. 2026.