Ficha do Proponente
Proponente
- Lia Bahia (UFF)
Minicurrículo
- Lia Bahia é professora do departamento de cinema e vídeo e do PPGCine da UFF. Realiza estudos sobre economia política do cinema e do audiovisual no Brasil, com foco em políticas públicas e cinema como processo. Coordena o Laboratório de Políticas Públicas do Cinema e Audiovisual Brasileiro (CNPq) e integra o Fórum de Tiradentes.
Ficha do Trabalho
Título
- Por uma outra industrialização do cinema brasileiro
Seminário
- Políticas, economias e culturas do cinema e do audiovisual no Brasil
Resumo
- O pensamento industrial brasileiro permanece como imagem objetivo no cinema contemporâneo, orientando discursos e políticas públicas. Contudo, há movimentos que transbordam e inventam desvios, e tensionam o modelo industrial tradicional concentracionista. O trabalho propõe refletir, a partir de revisão teórica e números da Ancine, caminhos conceituais e políticos para imaginar uma outra industrialização do cinema observando tecnologias brasileiras e outros critérios e métricas de dados.
Resumo expandido
- Há um discurso recorrente no cinema brasileiro contemporâneo que atribui aos próprios filmes à “falta de público” e à fragilidade do processo de industrialização. O deslocamento parcial do investimento público, antes concentrado no Rio de Janeiro e em São Paulo para outras regiões, reconfigurou o campo do cinema brasileiro e criou arquiteturas produtivas que, frequentemente, se distanciam das lógicas institucionais tradicionais concentracionistas.
Arthur Autran (2013) já demonstrou que o pensamento industrial brasileiro constitui um continuum histórico. Uma miragem míope, que cristalizou discursos e práticas a partir de categorias artificiais. Paralelamente, a construção da hegemonia hollywoodiana, hoje ampliada pelo streaming, estabeleceu um regime de distribuição profundamente desigual, como evidenciou Pedro Butcher (2024).
Diante disso, é preciso perguntar: que indústria queremos? Para além de indicadores econômicos tradicionais, existe um cinema brasileiro que explode nos anos 2000 e aponta para novas direções.
Filmes de cineastas como Adirley Queirós, Juliana Antunes, Affonso Uchoa, João Dumans, Glenda Nicácio e Ary Rosa, Lincoln Péricles, Sueli Maxakali, Allan Ribeiro, Denise Vieira e André Novais Oliveira, entre tantos outros, mobilizam debates estéticos, éticos e políticos em festivais, universidades, escolas e espaços culturais, produzindo capital simbólico expressivo.
Essas obras, em geral realizadas e distribuídas com orçamentos reduzidos, e frutos de políticas de regionalização, enfrentam barreiras no circuito exibidor e buscam outros caminhos de circulação e produção de desejos.
E mais, acionam discussões importantes em setores pouco visibilizados pelas políticas públicas como formação, preservação, circulação e difusão. Portanto, encontram seus públicos e movimentam uma economia política imaginativa e social.
Insisto que temos tecnologias brasileiras no nosso cinema, no sentido amplo de saberes, práticas e dispositivos. Um cinema desobediente que teima em escapar, transbordar e inventar desvios ou “um cinema pedreiro” (Péricles, 2023). E ainda, que não se opõe às diretrizes econômicas – gera trabalho, renda, movimenta a economia local – mas a reinscreve em uma abordagem ampliada de economia política.
É certo que os dados e indicadores ajudam a entender o setor e servem para auxiliar as políticas públicas. Contudo, os dados são políticos; a ausência e opacidade deles também. Nas políticas públicas, informações são um bem público e deveriam servir ao público e não a finalidades mercantis e comerciais (Bahia, 2026).
E se a métrica de avaliação de resultado dos filmes fosse outra? Certamente seria possível verificar que muitas dessas obras têm uma performance, inclusive comercial, superior às voltadas para as ditas de “grande público”.
Para dar exemplos breves a partir de dados da Ancine. Tô Ryca 2 registrou média de 18 espectadores por sessão e chegou a ocupar 687 salas. Já Mato Seco em Chamas teve média semelhante, de 17 espectadores por sessão, mas foi exibido em no máximo 13 salas. Além disso, Tô Ryca 2 contou com cerca de R$ 5 milhões em financiamento público, enquanto Mato Seco em Chamas recebeu menos da metade desse valor (R$ 2.250.000).
Disputar espaços de exibição comercial segue fundamental, mas também é preciso reconhecer e valorizar outras dimensões e medidas e incorporá-las às políticas públicas para ir além dos parâmetros totalizantes e absolutos. O projeto de cinema brasileiro contemporâneo e os órgãos públicos precisam olhar para essas tecnologias brasileiras e desviar da “mentalidade importadora” (Gomes, 2016).
As políticas públicas de regionalização foram essenciais para a democratização, surgimento de novas empresas e realizadores (Venanzoni, 2021). Contudo, é insuficiente tentar adequar as novas dinâmicas a modelos preexistentes. É necessário avançar em direção a um reformismo estruturante – conceitual, retórico e político – para afirmação de nossa “soberania imaginativa” (Reis, 2026).
Bibliografia
- AUTRAN, Arthur. O pensamento industrial cinematográfico brasileiro. São Paulo: Hucitec, 2013.
BAHIA, Lia. A dança de roda das imagens: circulação, imaginação e cinema brasileiro In: Catálogo 29 Mostra de Tiradentes. Universo Produção, 2026, p.348-351.
Brasil, Ancine, 2026.
BUTCHER, Pedro. Hollywood e o mercado de cinema no Brasil: Princípios de uma hegemonia. Belo Horizonte: Letramento, 2024.
GOMES, Paulo Emilio. Uma situação colonial? São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
PÉRICLES, Lincoln. (2023). Por um cinema pedreiro. Descompasso.https://revistadescompasso.com/por-um-cinema-pedreiro-lincoln-pericles/
REIS, Francis Vogner dos. Temática: Soberania Imaginativa. In: Catálogo 29ª Mostra de Tiradentes. Belo Horizonte: Universo Produção, 2026.
VENANZONI, Thiago. Diversidade e democratização no cinema e no audiovisual brasileiro: um panorama de 2001 a 2021. Novos Olhares, São Paulo, v. 10, n. 2, p. 88- 107, jul./dez. 2021.