Ficha do Proponente
Proponente
- Pedro Maciel Guimaraes Junior (Unicamp)
Minicurrículo
- Professor e pesquisador do Instituto de Artes e do PPGMultimeios da Unicamp, autor de Helena Ignez, atriz experimental (Sesc ed. 2021) e de artigos sobre estudos atorais, gêneros cinematográficos e estética e história do cinema. Pesquisador CNPq – 2, coordenador do GEAs (Grupo de estudos de atuação audiovisual) e coordenador do projeto Capes-Cofecub Estudos Atorais, metodologias e aplicações, projeto de pesquisa de universidades brasileiras em parceria com universidades francesas.
Ficha do Trabalho
Título
- Jogo atoral e motivo visual: considerações sobre estudos atorais e iconologia fílmica
Mesa
- Atuação audiovisual: metodologias e aplicações
Resumo
- Propõe uma reflexão sobre o lugar do ator na análise das imagens e dos motivos visuais no cinema, articulando estudos atorais e iconologia fílmica. Partindo da cena em que Val (Regina Casé) entra na piscina em Que horas ela volta? (Muylaert, 2015), discutiremos como o motivo visual recorrente da piscina vazia (Souto, 2019) juntamente com o corpo e a persona de Casé compõem frentes de criação de sentido confluentes para abordar a diferença social entre patrões e empregados, tema central do filme.
Resumo expandido
- Essa comunicação propõe uma reflexão que concilie os estudos atorais, que examinam a presença, o jogo, a persona e a construção do ator na tela, e a iconologia fílmica, que se interessa pelos significados culturais e simbólicos dos motivos visuais presentes nos filmes.
A intervenção parte da ideia de que o ator não deve ser considerado apenas como um intérprete ou um corpo filmado, mas também como um elemento iconográfico capaz de estruturar o significado de um motivo visual. Nessa perspectiva, o corpo do ator, seus gestos, sua postura, seu rosto e sua imagem pública (persona) participam da formação de imagens recorrentes que atravessam os filmes. Os estudos atorais propões análises histórico-estéticas do trabalho do ator no audiovisual, analisando como sua imagem pública e seu jogo se constroem em textos fílmicos e parafilmicos.
A abordagem iconológica permite examinar como certos motivos visuais remetem a tradições artísticas mais amplas, por vezes herdadas da pintura, da fotografia ou da história da arte. O motivo visual é assim, para Aby Warburg, o “motor energético que permite associar uma série de obras de naturezas variadas, que se iluminam umas às outras com suas aproximações respectivas (apud Vancheri et al., 2022). Assim, a análise do motivo visual permite observar como certas configurações visuais se tornam objetos comunicantes dentro dos filmes, apontando eventualmente para dimensões sociopolíticas intertextuais mais amplas.
Ao cruzar essas duas perspectivas, a apresentação sugere que o ator e o motivo visual devem ser entendidos de maneira confluente, cada um abrindo a perspectiva para se entender o uso do corpo e da imagem pública do ator em confluência com as interrelações propostas pela recorrência de motivos de filme a filme.
Partiremos de uma sequência do filme Que horas ela volta? (Anna Muylaert, 2015), na qual a personagem Val (Regina Casé), empregada doméstica de uma família burguesa, conversa com sua filha ao telefone de dentro da piscina vazia da casa da família. Abordaremos como a piscina vazia, inspirado pelo estudo iconófilo de Mariana Souto (2019), assim como o corpo e a persona de Casé, compõe frentes de criação de sentido confluentes nessa imagem para abordar a diferença social entre as classes na sociedade brasileira, tema central do filme. Ou seja, o corpo de Val é elemento de estranhamento naquele espaço, sobretudo dentro da piscina, de onde ela e filha são alijadas por serem consideradas de outra classe social. Do mesmo modo, o histórico de Casé em representar mulheres simples e pobres, assim como sua capacidade de convencer no papel de uma imigrante nordestina, compõe a camada visual ligado ao jogo e à persona atorais. A insistência de Val em entrar nesse espaço, justamente com seu jogo leve e sua “pirraça” social por estar ali, possibilitam pensar o alargamento do estudo do motivo trazendo a perspectiva da atuação para a reflexão.
Bibliografia
- NAREMORE, James. Acting in the Cinema. Berkeley: University of California Press, 1988.
SOUTO, Mariana. AZEVEDO LIMA, Livia. Constelação fílmica e motivo visual: a piscina vazia no cinema brasileiro contemporâneo. Revista Eco-Pós, 28(2), 525–550, 2025. https://doi.org/10.29146/eco-ps.v28i2.28310
SOUTO, Mariana. Infiltrados e invasores: uma perspectiva comparada sobre relações de classe no cinema brasileiro contemporâneo. Salvador: EDUFBA, 2019.
VANCHERI, Philippe-Alain; DURAFOUR, Jean-Michel; ANDRÉ, Emmanuelle (org.). Dictionnaire d’iconologie filmique. Lyon: Presses Universitaires de Lyon, 2022.