Ficha do Proponente
Proponente
- Luca Manso Fraietta (UEG)
Minicurrículo
- Luca M. Fraietta, nasceu em 2002, em Goiânia; é mestrando Programa de Pós-Graduação em Territórios e Expressões Culturais no Cerrado (TECCER) da Universidade Estadual de Goiás (UEG); formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual de Goiás – UEG; Foi, duas vezes, bolsista de Iniciação Científica do PIBIC/CNPq. Atua como editor/montador, diretor, fotógrafo e pesquisador, com foco em práticas ensaisticas e estudos de montagem, sonho e cerrado;
Ficha do Trabalho
Título
- Arquivos Oníricos: as inflexões ensaísticas em Sertânia
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- Esse trabalho investiga a criação de uma atmosfera onírica por meio das imagens de arquivo no filme Sertânia (Geraldo Sarno, 2019). A pesquisa aborda como as técnicas ensaísticas da obra criam uma estética do sonho capaz de deslocar imagens de arquivo, fazendo-as fabular o real a partir de fissuras, associações e descontinuidades. Ao aproximar-se das descrições psicanalíticas dos sonhos, o filme fabula o território a partir das lacunas e reflexões subjetivas operadas através do arquivo
Resumo expandido
- O projeto dedica-se à investigar a criação de uma estética onírica a partir de inflexões ensaísticas no uso das imagens de arquivo em Sertânia (Geraldo Sarno, 2019), com ênfase na ressignificação das paisagens do sertão-cerrado por meio da montagem. Nesse sentido, compreendemos que o filme-ensaio é uma prática audiovisual que articula um ponto de vista pessoal através da esfera pública, manifestando-se de forma a borrar as fronteiras entre o documental e o ficcional, portanto, manifestando-se como “uma reflexão mediante imagens, realizada através de uma série de ferramentas retóricas que se constroem ao mesmo tempo que o processo de reflexão”. (Domenèch, 2005, p. 133, tradução nossa).
Sertânia (2019) manifesta essas características ensaísticas no seu uso das imagens de arquivo, adotando uma forma poética, dialética e fragmentada, relacionando “planos de forma conceitual, metafórica e temática […] independentemente do quanto não relacionados possam ter sido seus contextos originais” (Wees, 1993, p. 15-16, tradução nossa). Nesse sentido, percebemos como os sonhos, assim como o ensaio fílmico, abandonam o caráter literal e representativo das imagens, em prol de uma associação metafórica entre fragmentos imagético-sonoros que exploram aspectos que podem apenas aludir ao mundo concreto. Além de se afastar das práticas do cinema clássico, o ensaio fílmico mobiliza o arquivo de forma a deslocar o estatuto da imagem como prova da realidade, em prol de subjetividade explícita manifestada em suas técnicas.
Dessa forma, a proposta gira em torno da exploração do filme de Geraldo Sarno, Sertânia (2019), que apesar de sua narrativa majoritariamente ficcional, reflete sobre a fome e violência no Sertão, de forma a mobilizar criticamente o arquivo na construção dos sonhos e delírios de seu personagem principal, Antão. O sonho não funciona apenas como dispositivo narrativo, mas como ferramenta discursiva do filme, visto que “a sequencialidade que estabelece não cria uma continuidade espaço-temporal e causal, mas uma continuidade discursiva” (Weinrichter, 2007, p. 27, tradução nossa). O filme se aproxima do ensaístico ao mesmo tempo que reflete a própria forma onírica que segundo Freud, é “composta de fragmentos unidos por meio de um cimento natural, forma desenhos que não integravam as pedras que lhe deram origem” (Freud, 2014, p. 245).
Dessa forma, nosso problema de pesquisa se configura da seguinte forma: como o filme em questão se aproxima do ponto de vista formal, através de práticas ensaísticas, como a montagem discursiva, fragmentação e fabulação, de uma estética do sonho a fim de, ao ressignificar as imagens de arquivo, criar espaços de fabulação? Considerando essas possíveis aproximações, como o uso das imagens de arquivo age sobre nossa percepção da subjetividade das personagens e da própria narrativa como representação histórica do sertão-cerrado?
Partimos da hipótese que Sertânia (2019) ao adotar técnicas ensaísticas, flexiona as imagens de arquivo, não como documentos formais, mas como imagens alheias, permitindo que o filme reimagine esse território a partir das lacunas presentes nessas imagens. Assim, a montagem ensaística manifesta o universo do sonho, em que os traços de subjetividade do realizador é acionada como fabulação: os arquivos da memória esquecida ou negligenciada tornam-se o material metafórico do filme. Compreendemos que “as imagens recicladas chamam a atenção para si mesmas como imagens, como produtos das indústrias de produção de imagens do cinema e da televisão” (WEES, 1993, p. 32, tradução nossa). Logo, é traçada uma crítica ao próprio papel do arquivo e da ficção na formação e construção da memória.
O trabalho reflete sobre o sonhar através de arquivos, esquecidos, suprimidos e reinventados. Investigo as operações ensaísticas que redefinem o estatuto da imagem-arquivo, produzindo outras formas de existência e memória através de uma das formas mais singulares da existência humana, o sonhar.
Bibliografia
- ADORNO, T. W. O ensaio como forma. In: Adorno, T. W, Notas de literatura I. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003. p. 15–45.
BLAGROVE, M.; LOCKHEART, J. The Science and Art of Dreaming. [s.l.] Taylor & Francis, 2023.
CATALÀ DOMÈNECH, Josep Maria. News of the end of the world: The essay film as mentality. Comparative Cinema, v. 10, n. 18, p. 117–138, 2022.
CORRIGAN, Timothy. O filme-ensaio: desde Montaigne e depois de Marker. Campinas: Papirus, 2015.
FREUD, S. Freud (1900) – Obras completas volume 4. [s.l.] Editora Companhia das Letras, 2019.
RASCAROLI, Laura. The personal camera: Subjective cinema and the essay film. London: Wallflower Press, 2009.
WEES, William. Recycled images: The art and politics. New York: Anthology Film Archives, 1997.
WEINRICHTER, Antonio. La forma que piensa: Tentativas en torno al cine-ensayo. Pamplona: Gobierno de Navarra, Departamento de Cultura y Turismo, Institución Príncipe de Viana, 2007.