Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ciro Martins Lubliner (UFF)

Minicurrículo

    Ciro Lubliner é pesquisador, artista e tradutor. Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ, mestre em Literatura Comparada pela USP e graduado em Imagem e Som pela UFSCar. Realizou um pós-doutorado na USP, com estágio na Universidade Paris-Nanterre. Atualmente se dedica a um segundo pós-doutorado, em Cinema, na UFF. No audiovisual, atuou em diversas funções, tendo sido, mais recentemente, em 2025, diretor e roteirista do curta-metragem documentário “Spectros: algum nome, nenhum rosto”.

Ficha do Trabalho

Título

    5 + 5 = 11: videodelírio em A Dama do Pacaembu de Rita Moreira e Maria Luísa Leal

Resumo

    Esta comunicação analisa A Dama do Pacaembu (1980), de Rita Moreira e Maria Luísa Leal, a partir do que nomeamos como uma “esquizocinematografia”. Essa perspectiva esquizo para o audiovisual é trazida da literatura, constituindo uma primeira aproximação comparatista. Uma segunda conexão se dá na relação com a psicanálise e a noção de delírio. Defendemos, finalmente, como esse curta-metragem brasileiro produz efeitos de “videodelírio”, por meio da modulação de elementos da imagem e do som.

Resumo expandido

    Por volta do final da década de 1920, o escritor Raymond Queneau decidiu levar a cabo um projeto: mapear escritores de língua francesa do século XIX por ele denominados como “loucos literários” (Queneau, 2002). Essa definição não dizia respeito exatamente ao estado de loucura no qual estão implicados indivíduos que escapam aos comportamentos ditos de normalidade pela sociedade, sendo confinados em locais como hospitais psiquiátricos. Trata-se, antes, de uma referência à poética de livros inusuais, que levavam a própria linguagem a delirar, propondo escritas escapes a normas narrativas e livros que acabaram por ser esquecidos ou bem pouco reconhecidos. Duvidando do valor daquela primeira nomeação, Queneau decide chamar aquelas obras “heteróclitos”, evidenciando outros aspectos que não o estigma da loucura. Mais recentemente, Marcos Eduardo Rocha Lima (2010) abordou a questão dos heteróclitos os ressignificando a partir da ideia dos “esquizos literários”, escritores que operam suas obras em regimes de escrita delirantes, fragmentários e inventivos.
    Esse é o viés de criação que trazemos para nossa análise audiovisual. Buscamos desbravar – além de uma aproximação com a literatura – um ponto de inflexão e tensionamento comparatista entre o audiovisual e a psicanálise.
    O vídeo A Dama do Pacaembu (1980), de Rita Moreira e Maria Luísa Leal, pode ser pensado, de alguns modos, como um heteróclito audiovisual brasileiro. Primeiro, evidentemente, por ser uma obra pouco conhecida; segundo, por conta do vídeo ser uma expressão já em si algo à margem, restrita aos circuitos de festivais e a espaços como galerias e museus; e terceiro, por esse audiovisual estar ainda entre o curta e o média-metragem (sua versão original tem cerca de 34 minutos, enquanto a disponível no YouTube possui 21 minutos), o que confere uma condição ainda mais periférica à sua circulação.
    Além desses fatores de ordem mais pragmática, temos ainda alguns elementos estéticos que compõem a instauração de uma “esquizocinematografia”. A maneira como a personagem principal do filme – uma pessoa em situação de rua no bairro do Pacaembu, em São Paulo – é gravada, enquanto o vídeo se desenrola, majoritariamente a partir de um quase-monólogo em que ela conta sua história, é bastante esclarecedora quanto a uma inerente fragmentação. As realizadoras intercalam os enquadramentos por movimentos de câmera e cortes bruscos nos quais a personagem desenvolve sua fala, propulsora de uma certa potência do falso (Deleuze, 2018). Naquele discurso pouco importa a veracidade, o quão factual são as informações dadas pela personagem, o que está em questão é a vida que emanam, quais forças entram em operação no transcorrer de suas palavras e de seus gestos.
    Outra estética desviante própria ao vídeo está na variação das cores, principalmente no trecho final, em que vemos as paisagens do bairro paulistano e o corpo da personagem expostos entre o verde, o laranja, o vermelho, o azul e o roxo, além do preto e branco e do efeito sépia. Propomos como essas alterações multicolor remetem a espécies de “videoserigrafias”, percepção que nos aproxima de uma leitura relacionada às serigrafias de Andy Warhol e suas características (Danto, 2012).
    Assim, os efeitos de um videodelírio são evocados a todo instante em A Dama do Pacaembu, abrindo uma espécie de lógica delirante diluidora das fronteiras entre forma/técnica e conteúdo, pois engendram a mescla das falas fragmentárias da personagem – alheia a contratos com a verdade e a mentira – com a coloração metamorfoseante das linhas do vídeo, a decupagem e os movimentos de câmera.
    Em um dado momento, ao contar a quantidade de casamentos que teve, a Dama chega ao cálculo de cinco com pessoas ricas mais cinco com pobres, ao que conclui, “onze!”. A lógica matemática não obedecida assume a exemplificação dos delírios. Por mais que possa ter sido somente um erro banal, trata-se de destacar esse equívoco como produtor de sentido, em ruptura com o usual.

Bibliografia

    DANTO, Arthur C. Andy Warhol. Trad. de Vera Pereira. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
    DELEUZE, Gilles. Cinema 2 – a imagem-tempo. Trad. de Eloísa Araujo Ribeiro. São Paulo: Editora 34, 2018.
    DELEUZE, Gilles e PARNET, Claire. Diálogos. Trad. de Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Escuta, 1998.
    LIMA, Marcos E. R. Três Esquizos Literários: Antonin Artaud, Raymond Roussel e Jean-Pierre Brisset. Porto Alegre: Sulina; Editora da UFRGS, 2010.
    MACHADO, Arlindo. A arte do vídeo. 3ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1995.
    PAULA, Lívia Perez de. Encontros e reencontros com Norma Bahia Pontes: realizações, deslocamentos e interlocuções de uma cineasta, videomaker e ensaísta. 2022. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2022.
    QUENEAU, Raymond. Aux confins des ténèbres: les fous littéraires. Paris: Gallimard, 2002.
    RIVERA, Tania. Lugares do delírio: arte e expressão, loucura e política. São Paulo: n-1 edições; Edições Sesc São Paulo, 2023.