Ficha do Proponente
Proponente
- Luca Scupino Oliveira (USP)
Minicurrículo
- Mestrando em Meios e Processos Audiovisuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), onde pesquisa a obra de Éric Rohmer, tendo realizado mobilidade acadêmica na Universidade Paris 8 — Vincennes-Saint-Denis. Bacharel em Cinema pelo Centro Universitário Armando Alvares Penteado (FAAP). Atua como pesquisador, crítico de cinema e realizador.
Ficha do Trabalho
Título
- Arquitetura do apocalipse: o cinema de Éric Rohmer diante das cidades modernas
Seminário
- Cinema e Espaço
Resumo
- Em 1955, Éric Rohmer escreveu “O Celuloide e o Mármore”, em que analisa a arquitetura moderna como arte de tentação demiúrgica, que cria ao mesmo tempo em que destroi. Anos depois, ele faria uma série de filmes sob essa temática, do documentário “As Metamorfoses da Paisagem” (1963) aos longas “Noites de Lua Cheia” (1984) e “O Amigo da Minha Amiga” (1987). O objetivo do trabalho é analisar como seu cinema, ao longo de décadas, foi testemunha crítica da transformação nos modos de habitar a cidade.
Resumo expandido
- A arquitetura sempre ocupou lugar central no pensamento de Éric Rohmer (1920-2010), de seu período como crítico e teórico de cinema nos anos 1950, à sua carreira como cineasta, que se estendeu ao século 21. Para Rohmer, o cinema é, em primeiro lugar, uma arte do espaço, responsável pela organização plástica da realidade. A arquitetura também possui paralelos com esta ideia, como afirma Rohmer em seu antológico texto “O celuloide e o mármore” (1955), com a exceção de que, enquanto o cinema cria em segundo grau pela reprodução fotográfica, a arquitetura efetivamente intervém na realidade vivida, de forma que possui uma responsabilidade maior que todas as outras artes.
É assim que Rohmer direciona sua crítica às ideias de arquitetos e urbanistas como Le Corbusier e Haussmann (“o artista demolidor”), que, ao proporem a criação de um mundo novo através da arquitetura, feito à imagem e para o prazer do homem moderno, destroem violentamente o passado e a história inscrita nos espaços, ao mesmo passo promovendo um isolamento do sujeito em relação a seus pares e uma “estandartização” nos modos de viver (Rohmer, 2010). Deste modo, Rohmer se pergunta se a ideia de um fim do mundo iminente não seria melhor que a de um avanço sem limites da técnica, contra o “aperfeiçoamento sem fim” da arquitetura.
Pouco tempo depois da escrita de seu artigo, Rohmer passou a realizar filmes para a televisão educativa francesa, naquele conhecido como seu “período laboratorial”, em que, segundo De Baecque e Herpe (2018), deu continuidade às suas investigações críticas enquanto também desenvolveu suas futuras habilidades como cineasta. Muitos dos filmes desse período são sobre arquitetura e expandem a ambiguidade da crítica presente em seu artigo de 1955, em particular o curta “As metamorfoses da paisagem” (1964), em que o cineasta se propõe a investigar a “beleza difícil” das novas paisagens industriais da França, um exercício ensaístico de contemplação do que antes se mostrava facilmente criticável. Em filmes como “O celuloide e o mármore” (1966) e “Entretien sur le béton” (1969), ele entrevista arquitetos como Georges Candilis, Paul Virilio e Claude Parent, acerca das novas ideias para o planejamento urbano.
Em 1975, Rohmer também filmou um programa para a ORTF intitulado “Villes Nouvelles”, em que estudava o planejamento das “novas cidades”, construídas ao redor de Paris no governo gaullista para conter o crescimento urbano. Uma década depois, em obras de ficção como “Noites de Lua Cheia” (1984) e “O amigo da minha amiga” (1987), vemos uma imagem concreta daquilo que, antes, era apenas uma ideia dos arquitetos — agora em filmes que mostram o impacto da arquitetura na vida, no trabalho e no lazer de personagens que habitam nas cidades planejadas de Marne-La-Vallée e Cergy-Pontoise.
No cinema de Rohmer, a cidade é um espaço que determina os destinos, encontros e trajetórias de seus personagens, naquilo que Handyside (2014) alude como uma “geografia criativa” e onde a caminhada, nos termos de Certeau (2007), se configura como uma “prática do espaço”. Enquanto a modernidade de Rohmer, para Handyside, diz respeito a reconfigurar a cidade de Paris como um espaço de flânerie, observamos em seus filmes passados nos “banlieues” uma outra prática, em que os espaços provisionais e itinerantes, nos termos de Anderst (2014), se apresentam paralelamente como utópicos e vazios, em particular para suas protagonistas femininas, sempre em deslocamento.
Ao longo de sua carreira, observamos em Rohmer um exemplo singular de um crítico e cineasta que documentou um extenso processo de transformação da vida urbana, ao mesmo tempo procurando nessas imagens uma “meditação poética” e oferecendo um conjunto crítico à maneira como a arquitetura e o urbanismo mudam os modos de habitar o espaço. Um cinema que, como propõe Jane Jacobs (2011), observa a cidade do ponto de vista de quem a pratica, pelo confronto intermidiático entre arquitetura e filme, nos termos de Schmid (2015).
Bibliografia
- ANDERST, L. Rohmer’s Poetics of Placelessness. In: The films of Éric Rohmer: French New Wave to old master. Londres: Palgrave & Macmillan, 2014.
BAECQUE, A.; HERPE, N. The Rohmer of the cities and the Rohmer of the countryside. In: Éric Rohmer: a biography. Nova York: Columbia University Press, 2018.
CERTEAU, M. A Invenção do Cotidiano. Petrópolis: Vozes. 2007.
JACOBS, J. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.
HANDYSIDE, F. Walking in the City: Paris in the Films of Eric Rohmer. In: The films of Éric Rohmer: French New Wave to old master. Londres: Palgrave & Macmillan, 2014.
MARGUILES, I. The Changing Landscape and Rohmer’s Temptation of Architecture. In: The films of Éric Rohmer: French New Wave to old master. Londres: Palgrave & Macmillan, 2014.
ROHMER, É. Le celluloïd et le marbre. Clamecy: Éditions Léo Scheer, 2010.
SCHMID, M. Between Classicism and Modernity: Eric Rohmer on urban change. French Studies, Edimburgo, v. 69, n. 3, p. 345-362, mai. 2015.