Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Raabe Bastos (UFMG)

Minicurrículo

    Doutoranda e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (PPGCOM/UFMG), na linha de pesquisa Textualidades Midiáticas. Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). É membro do Grupo de Estudos em Lesbianidades (GeL/UFMG), do Mídia, Semiótica e Pragmatismo – MediaAção (UFMG) e do Comunicação, Imagem e Afeto (Cia/CNPq). Integra o edital Mulheres na Ciência (FAPES).

Ficha do Trabalho

Título

    A ansiedade pornolesbotópica da plataforma PornHub

Seminário

    Tenda Cuir

Resumo

    A ansiedade pornolesbotópica surge quando olhamos para a categoria lésbica na plataforma PornHub. A pornolesbotopia é o grande tensionamento não apenas desse segmento da pornografia, mas do espaço que a hospeda. Nesta investigação, coletamos mil títulos classificados como mais relevantes pelo PornHub, dos quais, após limpeza de dados com Python, seis subcategorias emergiram – amiga, milf, orgia, trans, parentescos e práticas. A partir daí, analisamos um vídeo de cada subcategoria.

Resumo expandido

    A ansiedade pornolesbotópica surge quando olhamos para a categoria lésbica na plataforma PornHub. A pornolesbotopia é o grande tensionamento não apenas desse segmento da pornografia, mas do espaço que a hospeda. Nesta investigação, coletamos mil títulos classificados como mais relevantes pelo PornHub, dos quais, após limpeza de dados com Python, seis subcategorias emergiram – amiga, milf, orgia, trans, parentescos e práticas. A partir daí, analisamos um vídeo de cada subcategoria. Teórica e metodologicamente, ancoramo-nos nas lesbianidades, nos estudos queer, nos debates a respeito da pornografia e nos estudos de plataforma, permitindo compreender o pornô como discurso e artefato sociotécnico que tensiona e (re)configura gênero e sexualidade.

    No percurso em que a pesquisa foi desenvolvida, percebemos a utilização da palavra lésbica como delimitação não só propriamente da identidade a que em primeiro momento remete, mas de um desejo amplo da pornografia ou, pelo menos, da pornografia mainstream: como veremos, abafando gemidos lésbicos e gritando a tag lésbica. Gemidos lésbicos dentro de um armário, aqui, um armário que o pornô deixa, aos poucos, rumo ao seu desejo pornolesbotópico.

    Todos os anos, a plataforma divulga o PornHub Insights, relatório que apresenta dados sobre os acessos aos seus conteúdos, sendo um compilado de informações guiado por datas temáticas, assuntos do momento, categorias mais acessadas, dados dos países, entre outros marcadores (Parreiras, 2024). Desde 2014, lésbica está entre os cinco termos mais pesquisados no mundo e no Brasil, um registro que propicia reflexões quanto às tensões, ansiedades, moralidades e pânicos que se vinculam à categoria. O termo de busca funciona como palavra-chave, desejo, fantasia e forma de indexação de conteúdo, assim, podendo indicar não somente categorias e subcategorias, mas modos como as lesbianidades são performadas nesses títulos ou, mais precisamente, os modos como são representadas, normatizadas ou tensionadas neste recorte da pornografia plataformizada.

    O trabalho parte desse cenário para questionar quais são os tensionamentos de gênero e sexualidade que emergem dos títulos de vídeos que contêm a palavra lésbica na plataforma PornHub. Buscamos compreender como as lesbianidades são performadas, estetizadas e mercantilizadas no cruzamento entre pornografia e plataforma, propondo uma leitura que não apenas reflete sobre os títulos analisados, mas também sobre os próprios regimes de inteligibilidade que autorizam, propõem, silenciam ou distorcem determinadas existências.

    Do ponto de vista teórico, no campo dos estudos de gênero e sexualidade, trabalhamos com Judith Butler, Paul B. Preciado, Monique Wittig, Adrienne Rich, Gloria Anzaldúa e Tanya Saunders, cujas obras questionam os fundamentos da identidade, os regimes de poder que atravessam os corpos e as possibilidades de dissidência sexual. No debate sobre pornografia, ancoramo-nos principalmente nas contribuições de Linda Williams, Paul B. Preciado, Gayle Rubin, Heather Butler, Carole Vance, Margaret Macdonald, María Elvira Díaz-Benítez, Feona Attwood, Carolina Parreiras e Lorena Caminhas, autorias que tratam o pornô como artefato cultural, discurso político, tecnologia de subjetivação e linguagem sociotécnica. Por fim, nos estudos de plataforma, partimos de Carlos d’Andrea e Carolina Parreiras, que nos fornecem as ferramentas necessárias para compreender a dimensão técnica e algorítmica das mediações contemporâneas do desejo.

Bibliografia

    ATTWOOD, F. Sex Media. 2017.

    BUTLER, H. What do you call a lesbian with long fingers? The development of lesbian and dyke pornography. 2004.

    BUTLER, J. Desfazendo gênero. 2022.

    CAMINHAS, L. Os mercados erótico-sexuais em plataformas digitais: o caso brasileiro. 2023.

    D’ANDRÉA, C. Pesquisando plataformas online: conceitos e métodos. 2020.

    MACDONALD, M. Desire for Data: PornHub and the Platformization of a Culture Industry. 2019.

    PARREIRAS, C. Reflexões sobre big data, sexualidades, datificação e moralidades no pornô digital: a “novinha” como categoria de classificação e indexação. 2024.

    PRECIADO, P. Pornotopia: Um ensaio sobre a arquitetura e a biopolítica da Playboy. 2021.

    RICH, A. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. 2010.

    RUBIN, G. Thinking Sex: Notes for a Radical Theory of the Politics of Sexuality. 1993.

    VANCE, C. Pleasure and danger. 1984.

    WILLIAMS, La. Screening sex: revelando e dissimulando o sexo. 2012.

    WITTIG, M. O pensamento hétero. 2022.