Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Belisa Brião Figueiró (UFSCar / CBM)

Minicurrículo

    Doutora em Ciência, Tecnologia e Sociedade pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com a tese O Cinema Brasileiro no Festival de Cannes (1949-2017): Políticas de Internacionalização e Abertura de Mercado. Mestre em Imagem e Som também pela UFSCar. Autora do livro Coprodução de Cinema com a França: Mercado e Internacionalização (Editora Senac São Paulo, 2018). Docente Permanente do PPGCTS da UFSCar e professora adjunta nos cursos de Comunicação do Centro Universitário Barão de Mauá.

Ficha do Trabalho

Título

    O Agente Secreto e Ainda Estou aqui: As tecnologias de pós-produção na França

Mesa

    Relações cinematográficas entre Brasil, França e Espanha: políticas, diplomacia e coproduções

Resumo

    Esta comunicação apresenta os resultados preliminares de uma pesquisa que investiga as tecnologias de pós-produção nas coproduções cinematográficas entre Brasil e França. Serão analisados dois estudos de caso: Ainda Estou Aqui (Walter Salles, 2024) e O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho, 2025). O objetivo é verificar se os laboratórios e os profissionais brasileiros estão preparados para oferecer essa tecnologia ou se a coprodução ainda é necessária para alcançar uma determinada qualidade.

Resumo expandido

    As transformações tecnológicas caracterizam a história do cinema, impactando constantemente os seus modos de produção, difusão, consumo e recepção. A passagem dos filmes silenciosos para o cinema sonoro e falado na virada dos anos 1930 não ocorreu de maneira simples. A utilização de câmeras mais leves, permitindo filmagens em ambientes externos, e o aparecimento de gravadores portáteis que captassem o som direto, também significaram mais uma revolução nas práticas cinematográficas. E, na chegada do século XXI, foi a digitalização das câmeras e dos projetores das salas de exibição que marcaram a nova virada, acompanhados dos softwares de montagem e dos diversos efeitos visuais e sonoros que alteraram, mais uma vez, a realização de curtas e longas-metragens, apresentando uma outra linguagem narrativa e visual.

    Ao longo do tempo, igualmente se percebe que os estudos cinematográficos que se propõem a compreender a evolução desses meios e processos tecnológicos nem sempre estão inter-relacionados com os seus impactos na sociedade. Uma boa parte dos trabalhos explora as técnicas e os filmes que foram possíveis de se realizar com estes ou aqueles equipamentos. Outros ainda se debruçam sobre a narrativa e a linguagem obtidas por meio do avanço tecnológico. Entretanto, são poucas as análises interdisciplinares que alcançam um escopo mais amplo, conectando elementos da própria tecnologia – ou do seu desenvolvimento insatisfatório – com demandas sociais e as suas consequências nos campos econômico, político e simbólico.

    Esta pesquisa – que está em fase inicial – se propõe a cotejar alguns desses aspectos examinando as tecnologias de pós-produção dos filmes de longa-metragem realizados na modalidade de coprodução entre o Brasil e a França. Neste momento, observa-se que algumas coproduções franco-brasileiras que alcançaram os maiores festivais de cinema do mundo, sobretudo no período recente, tiveram a participação mais efetiva do parceiro francês na etapa de pós-produção.

    Um deles é Ainda estou aqui (2024), de Walter Salles, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional, em março de 2025, o primeiro a ser concedido a um longa-metragem majoritário brasileiro. No Globo de Ouro 2025, Fernanda Torres levou o prêmio de Melhor Atriz Dramática. Inicialmente, o filme foi exibido no Festival de Veneza 2024, no qual recebeu o troféu de Melhor Roteiro. A parte majoritária brasileira da coprodução ficou a cargo das empresas Videofilmes, RT Features, Conspiração Filmes e Globoplay; já na parte minoritária francesa, estão a Mact Productions e a Arte France Cinéma. Nos créditos finais do filme, podemos ver que a maior parte da equipe francesa que efetivamente trabalhou no filme aparece na fase de pós-produção.

    O outro filme entre os mais destacados dos últimos anos é O agente secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho, que fez história ao receber dois Globos de Ouro em 2026: Melhor Filme Internacional e Melhor Ator Dramático para Wagner Moura. No Oscar, o filme concorreu a quatro categorias, mas não foi agraciado em nenhuma delas: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Direção de Elenco. Exibido na Competição Oficial do Festival de Cannes 2025, O agente secreto recebeu os troféus de Melhor Direção, Melhor Ator e Prêmio FIPRESCI da Crítica. Na composição da coprodução, além do Brasil aparecem Holanda, a França e a Alemanha, e a pós-produção foi realizada nesses últimos dois países (Lesclaux, 2025).

    A partir desses primeiros estudos de caso, esta comunicação se propõe a elucidar em que medida os laboratórios de efeitos visuais e os profissionais brasileiros estão preparados para oferecer tecnologia de última geração na etapa de pós-produção, ou se a coprodução internacional – sobretudo com a França – ainda é necessária para se alcançar uma determinada qualidade almejada pelos realizadores brasileiros para que o filme circule no mercado internacional e alcance mais espectadores em diferentes países.

Bibliografia

    FIGUEIRÓ, Belisa. Coprodução de cinema com a França: mercado e internacionalização. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2018.

    FIGUEIRÓ, Belisa. Cinema Novo no Festival de Cannes (1963-1964): Tecnologia e o Padrão de Qualidade. In: AUTRAN, Arthur; ANDRADE, Thales de. (orgs.). Qual interdisciplinaridade está em jogo? Debates sobre processos comunicacionais e educativos. Campinas: Pontes Editores, 2023.

    GUBACK, Thomas. La industria internacional del cine. Madri: Editorial Fundamentos, 1980.

    LESCLAUX, Emilie. Brasilidade à francesa. [Entrevista cedida a] Rodrigo Fonseca. Correio da Manhã, 16 maio 2025.

    PALACIOS, Eduardo Marino García. et al. Ciencia, tecnología y sociedad: una aproximación conceptual. Madrid: Organización de Estados Iberoamericanos para la Educación, la Ciencia y la Cultura (OEI), 2001.

    VALCK, Marijke de. Film festivals: History and theory of a European phenomenon that became a global network. Universiteit van Amsterdam. 2006.