Ficha do Proponente
Proponente
- Giovanna Paschoal Damasceno (UFRJ)
Minicurrículo
- Mestranda em Tecnologias da Comunicação e Estética pelo PPGCOM da UFRJ com pesquisa voltada para o horror no cinema, estudos queer e de gênero. É bacharela em Comunicação Social com habilitação em radialismo pela ECO-UFRJ.
Ficha do Trabalho
Título
- O Feminino Monstruoso Revisitado: Maternidade em Titane (2021) e Lamb (2021)
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- O presente trabalho analisa as construções discursivas que regulam corpos e subjetividades maternas no horror a partir de Titane (2021) e Lamb (2021). A análise investiga como esses filmes tensionam o regime normativo da maternidade ao representar o corpo materno como instável e ambíguo, no qual cuidado, desejo e violência coexistem. Argumenta-se que essas representações desestabilizam expectativas sociais e familiares, encenando um colapso de categorias modernas de corpo, família e identidade.
Resumo expandido
- Foucault, em A Hermenêutica do Sujeito (2004), compreende a subjetivação como um processo histórico pelo qual os indivíduos são constituídos, e se constituem, a partir de práticas que moldam formas específicas de se reconhecer e de ser governado. Essas práticas não refletem uma realidade pré-existente, mas a produzem: é o que Foucault (2008) denomina formações discursivas — conjuntos de enunciados, práticas e regras que delimitam o que pode ser dito e pensado sobre determinado tema. No caso da maternidade, tais formações atravessam instituições como a medicina, a religião e o direito, definindo o que constitui uma “boa mãe” e o que representa desvio.
No cinema de horror contemporâneo, esse regime discursivo é tensionado ao figurar o corpo materno como espaço de instabilidade simbólica. Em vez de reafirmar a maternidade como destino natural ou imperativo moral, filmes como Titane (Ducournau, 2021) e Lamb (Jóhannsson, 2021) deslocam a figura materna para zonas de ambiguidade ontológica e afetiva, nas quais cuidado, desejo, violência e estranhamento coexistem. O horror, assim, opera como um campo privilegiado para observar as fraturas nos discursos que regulam a maternidade.
O pós-estruturalismo, a teoria queer e os estudos cinematográficos do horror oferecem ferramentas conceituais para mapear essas fraturas. No campo do horror, Noël Carroll (1990) define o gênero a partir de uma resposta afetiva específica, denominada art-horror, caracterizada pela combinação de medo e repulsa no espectador. Essa resposta é desencadeada pela ambiguidade ontológica do monstro, entendido como uma entidade que viola esquemas classificatórios culturalmente estabelecidos — como humano/não humano, vivo/morto, natural/artificial. Ao encarnar uma forma de impureza categorial, o monstro desestabiliza a ordem simbólica e cognitiva, produzindo a reação emocional característica do horror.
Barbara Creed (1993) traz essa formulação ao campo do feminino. Seu “feminino monstruoso” encarna o abjeto de Kristeva (1982) — definido pela autora como aquilo que rompe fronteiras, perturba identidades e desestabiliza a ordem simbólica. Nesse quadro, a maternidade abjeta ocupa lugar central na economia do horror, pois condensa uma ambivalência fundamental — a figura que nutre, é também capaz de destruir.
A partir desse contexto teórico, o trabalho investiga como se constituem processos de subjetivação materna em Titane (Ducournau, 2021) e Lamb (Jóhannsson, 2021), bem como as tensões que mobilizam — entre elas, pressões reprodutivas, autonomia corporal e expectativas familiares patriarcais. Enquanto Titane explora uma gravidez híbrida humano/máquina para tensionar discursos sobre identidade de gênero e a compulsoriedade da maternidade biológica, Lamb desloca a figura do filho monstruoso para interrogar o luto, o desejo de maternidade e os limites do amor familiar. Em ambos, o monstro deixa de ocupar uma exterioridade ameaçadora, e a resolução moral punitiva cede lugar a uma perturbação inscrita no corpo e na identidade, recusando o desfecho tradicionalmente imposto às mães desviantes.
Metodologicamente, adota-se uma análise discursiva, que identifica formações reguladoras da maternidade, articulada à análise formal de dispositivos cinematográficos. Para isso, as cenas são segmentadas em unidades narrativas para examinar, em paralelo, enunciados implícitos sobre maternidade e os recursos formais que os desestabilizam — como os enquadramentos parciais que retardam a exposição do corpo de Ada, em Lamb, sustentando a ambiguidade humano/animal, ou, em Titane, os figurinos de binding que ocultam e revelam intermitentemente a barriga de Alexia, apresentando a gestação como excesso corporal que escapa ao seu controle. Argumenta-se que ambos os filmes tensionam processos dominantes de subjetivação materna ao transformar o corpo em espaço de instabilidade simbólica, evidenciando conflitos ligados à autonomia reprodutiva, à fluidez de gênero e à crise do modelo famia nuclear.
Bibliografia
- CARROLL, Noël. The philosophy of horror, or paradoxes of the heart. Londres: Routledge, 1990.
CREED, Barbara. The Monstrous-Feminine: Film, Feminism, Psychoanalysis. Londres: Routledge, 1993.
DUCOURNAU, Julia. Titane. França/Bélgica: Kazak Productions; Frakas Productions; Arte France Cinéma, 2021.
FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. 7. ed. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves.Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
FOUCAULT, Michel. A Hermenêutica do Sujeito: curso dado no Collège de France(1981-1982). Tradução de Márcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail. São Paulo:Martins Fontes, 2004.
JÓHANNSSON, Valdimar. Lamb. Islândia/Suécia/Polônia: Go to Sheep; Black Spark Film & TV; Madants, 2021.
KRISTEVA, Julia. Powers of Horror: An Essay on Abjection. Nova York: Columbia, 1982.