Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Fernanda Ianoski Ferro (UFF)

Minicurrículo

    Doutoranda em Cinema e Audiovisual, na Universidade Federal Fluminense e mestra em Cinema e Artes Do Vídeos pela UNESPAR (2022). Pertence ao Grupo de Pesquisa GPACS: Grupo de pesquisa em arte, cultura e subjetividade (UNESPAR) e ao Projeto Amador: Grupo de tradução de Maya Deren. Atua como professora de Arte da educação básica no estado do Paraná.

Ficha do Trabalho

Título

    O ESPAÇO NAS OBRAS DE MAYA DEREN: INTERSECÇÕES ENTRE CINEMA E GEOGRAFIA

Resumo

    Este estudo intersecciona o pensamento sobre espaço da cineasta experimental ucraniana, radicada nos Estados Unidos, Maya Deren (1917-1961), presente em sua teoria cinematográfica e em seus curtas-metragens, com o pensamento da geografia de vertente humanista que pensa o espaço para além de seus aspectos físicos, considerando as sensações, a experiência subjetiva, os afetos e a memória como componentes que constroem e criam espaços, reais e imaginados.

Resumo expandido

    O presente estudo busca interseccionar as discussões de espaço entre a teoria de cinema e a geografia, pensando de que formas os espaços são construídos para além da sua dimensão física. O corpus de análise são os primeiros curtas-metragens da cineasta experimental Maya Deren (1917-1961): Meshes of the Afternoon (1943), At land (1944), A Study in Choreography for Camera (1945) e Ritual in Transfigured Time (1946) e suas reflexões sobre espaço presentes na teoria cinematográfica que elaborou enquanto filmava. A partir de seus curtas-metragens e de seus textos, reflito sobre que espaços são representados em tela à luz do próprio pensamento de Deren e de teóricos da geografia humanista, como Milton Santos, Eric Dardel e Michel de Certeau, e da arquitetura, como Juhani Pallasmaa. O espaço, para além de suas dimensões territoriais, é representado também a partir de seus afetos, sensações e memórias, em uma construção que passa pelo sensível e subjetivo e que corresponde às percepções pessoais e coletivas. O cinema e suas potencialidades de representação tornam-se assim um lugar privilegiado para construir um espaço imaginário, que não necessariamente precisa seguir suas dimensões lógicas e físicas, subvertendo a ordem de um deslocamento natural em função de uma construção criativa e afetiva.
    Nos filmes de Deren percebemos a articulação de uma montagem que busca uma configuração espaço-temporal que não pertence à ordem do real, embora parta dela (no sentido do registro fotográfico proveniente da câmera). Assim, são criadas ações que começam em um espaço e se desenrolam em outro, fora da lógica narrativa clássica, mas criando significações dentro de suas tramas. Isto vem de encontro com a teoria dereniana do cinema vertical (Deren, 1953), explanada no Simpósio Poetry and the Film, onde os filmes são realizados pensando na profundidade das sensações evocadas e nos sentimentos apresentados em tela, encaminhando, imagem a imagem, esse mergulho no filme. Neste sentido, os espaços criados nos filmes de Deren são da ordem do sensorial, do afetivo e do ritualístico, conduzindo as personagens pelas tramas imaginadas pela cineasta. Como nos diz Pallasmaa, “temos uma capacidade inata de lembrar e imaginar lugares. Percepção, memória e imaginação estão em interação constante; a esfera do presente se funde com imagens de memória e fantasia.” (2012, p. 64). Para Deren, o cinema atinge sua capacidade máxima quando trabalha com elementos próprios do seu meio e consegue manipular o espaço-tempo de forma criativa, por isto os espaços que ela constrói são inventivos e próprios do meio cinematográfico, que é metamórfico e encadeia imagens aparentemente díspares.
    Quando olhamos para a geografia que expande seu pensamento de espaço para além do aspecto físico, encontramos um diálogo com estes múltiplos espaços que a arte pode criar. O filme, então, pode configurar um espaço imaginário e íntimo do(a) cineasta que expressa na sua capacidade inventiva “todos os sentimentos e espaços do mundo”. (Haesbaert, 2002, p. 148). Em O homem e a terra: natureza da realidade geográfica, o geógrafo Eric Dardel nos diz que: “(…) a experiência geográfica, tão profunda e tão simples, convida o homem a dar à realidade geográfica um tipo de animação e de fisionomia em que ele revê sua experiência humana, interior ou social. (Dardel, 2011, p. 6). Deste modo, a geografia construída nos filmes de Deren parte de uma experiência de espaço, indo do concreto para o imaginário, de espaços que são físicos e também criados mentalmente, de aparentemente incoerentes para uma representação de sentidos, atravessados e vividos pelo corpo das personagens. “Espaço é o efeito produzido pelas operações que o orientam, o circunstanciam, o temporalizam e o levam a funcionar em unidade polivalente de programas conflituais ou de proximidades contratuais.” (Certeau, 1990, p. 202).

Bibliografia

    At Land. Direção: Maya Deren. Estados Unidos, 1944. PB, 15 min.
    A Study in Choreography for Camera. Direção: Maya Deren. Estados Unidos, 1945. PB, 3 min.
    CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano, 1990.
    HAESBAERT, Rogério. Territórios alternativos / Rogério Haesbaert – Niterói: EdUFF; São Paulo: CONTEXTO, 2002.
    Meshes of the Afternoon. Direção: Maya Deren e Alexander Hammid. 1943. PB, 14 min.
    PALLASMAA, Juhani. Os olhos da pele: a arquitetura e os sentidos/ Juhani Pallasmaa ; tradução técnica: Alexandre Salvaterra.- Porto Alegre: Bookman, 2012.
    Poetry and the Film: A Symposium. Willard Maas. Film Culture, n. 29, p. 55-63, 1963. Disponível em: https://www.ubu.com/papers/poetry_film_symposium.html. Acesso em: abril, 2026.
    Ritual in Transfigured Time. Direção: Maya Deren. Estados Unidos, 1945-46. PB, 14,5 min.