Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Suzana Reck Miranda (UFSCar)

Minicurrículo

    Bacharel em música (piano) pela UFSM, mestre e doutora em Multimeios (cinema) pela UNICAMP. Professora Associada do Departamento de Artes e Comunicação (DAC) e do Programa de Pós-Graduação em Imagem e Som (PPGIS), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). É pesquisadora e autora de vários textos (artigos e capítulos de livros) sobre som e música no cinema.

Coautor

    GEÓRGIA CYNARA COELHO DE SOUZA (UEG)

Ficha do Trabalho

Título

    A autonomia criativa das compositoras de trilha no cinema brasileiro

Seminário

    Histórias e tecnologias do som no audiovisual

Resumo

    Esta comunicação destaca e analisa o trabalho de Tami Belfer como compositora de trilhas musicais, tendo no horizonte os diferentes graus de autonomia criativa presentes em sua trajetória, bem como possíveis características sonoras recorrentes. A investigação é um desdobramento de uma pesquisa sobre a presença de mulheres na criação musical de filmes brasileiros (lançados comercialmente entre 1995–2019), que evidencia forte desigualdade de gênero.

Resumo expandido

    Esta comunicação destaca e analisa o trabalho de Tami Belfer como compositora de trilhas musicais, tendo no horizonte os diferentes graus de autonomia criativa presentes em sua trajetória. Trata-se de um dos desdobramentos da pesquisa sobre a presença de mulheres na composição de trilhas musicais para longas brasileiros lançados comercialmente entre 1995 e 2019, a qual revelou uma forte desigualdade de gênero nesse campo (MIRANDA, TAÑO, SOUZA, 2025).

    Os dados por nós levantados indicam que pouco mais de 5% dos filmes analisados possuem ao menos uma mulher na autoria e, em boa parte deles, elas ocupam posições secundárias, como coautoras ou responsáveis por contribuições pontuais, sendo raro que assinem trilhas completas sozinhas ou tenham continuidade na área. Ademais, notamos uma invisibilidade estrutural das compositoras de trilhas, marcada por dificuldades de inserção e permanência no mercado (MIRANDA, SOUZA, TAÑO, 2025). Nesse sentido, a continuidade da pesquisa tem se dedicado a defender a importância de dar maior visibilidade a essas profissionais como forma de enfrentar essa desigualdade.

    Tami Belfer é uma das três compositoras que, no levantamento realizado, apareceu nos créditos de mais de um filme (três, no total). No entanto, em nenhum deles ela assina a autoria integral da trilha musical, mas sim como coautora junto de um ou mais nomes masculinos. Nos últimos cinco anos, seu portfólio de trilhas aumentou consideravelmente, mas ainda majoritariamente como compositora de música adicional ou coautora, principalmente em trilhas musicais de comédias românticas e séries televisivas. Ela tem criado música adicional para vários filmes e séries cuja trilha musical é assinada por compositores como Beto Villares e Fábio Góes, parcerias nas quais, em função da natureza do trabalho, praticamente não há autonomia criativa, já que os compositores da trilha principal determinam o tipo de sonoridade necessária.

    Em trabalhos realizados em conjunto com Tejo Damasceno e Rica Amabis, Tami Belfer tem experimentado maior liberdade criativa, uma vez que costuma ser chamada para somar em projetos mais extensos, nos quais, apesar de existir um direcionamento geral, há bastante espaço para propostas colaborativas (BONETTI, 2021, p. 345-348). Progressivamente, a compositora tem assumido integralmente a criação musical de algumas trilhas, sobretudo em curtas-metragens e em produtos audiovisuais feitos para televisão ou plataformas de streaming.

    Mesmo entre trabalhos diversos, é possível identificar em suas criações musicais algumas características sonoras recorrentes. A compositora afirma que, sempre que possível, prefere gravar instrumentos em vez de recorrer a samples ou instrumentos virtuais (BONETTI, 2021, p. 349) e, como sua formação universitária foi em violão clássico suas composições exploram timbres de instrumentos de corda os quais ela executa com facilidade (violão, guitarra, baixo, bandolim, cavaco, entre outros).
    Interessa-nos, especialmente, observar obras nas quais suas criações tenham tido maior autonomia.

    Como estudos de caso, apresentaremos o filme Atmosferas (Paulo Caldas, 2023), cuja trilha foi composta em parceria com Tejo Damasceno, e o curta-metragem Para o rei dos lobos (Katherina Tsirakis, 2020), no qual Belfer criou tanto a música quanto o desenho de som.

Bibliografia

    BELFER. Tami. Sonora, s.d. Disponível em: https://www.sonora.tv.br/tami-belfer.
    BONETTI, Lucas. Entrevistas com Compositores Brasileiros de Música para Audiovisual e Dramaturgia. São Paulo: Ed. do Autor, 2021.
    CINEMATECA BRASILEIRA. Base de dados: filmografia brasileira. São Paulo: Cinemateca Brasileira, 2025.
    MIRANDA, Suzana Reck; TAÑO, Debora Regina; SOUZA, Georgia Cynara Coelho. Trilhas musicais de mulheres no cinema brasileiro da década de 2010. Intexto, Porto Alegre, n. 57, 2025.
    MIRANDA, Suzana Reck; SOUZA, Georgia Cynara Coelho; TAÑO, Debora Regina. Autoria feminina nas trilhas musicais do cinema brasileiro. Revista Música, v. 25 n. 1, julho de 2025, p. 327-345.
    NOGUEIRA, Isabel Porto; CAMPOS, Susan Fonseca (orgs.). Estudos de gênero, corpo e música. Goiânia/Porto Alegre: ANPPOM, 2013.
    WILCOX, Felicity, ed. Women’s Music for the Screen: Diverse Narratives in Sound. London: Routledge, 2021.