Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Filipe Brito Gama (UESB)

Minicurrículo

    Professor Adjunto do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Mestre em Imagem e Som pelo PPGIS da UFSCar e Doutor em Cinema e Audiovisual no PPGCine da UFF. É realizado audiovisual especializado na produção de documentário e também produtor cultural, atuando nas áreas de formação e difusão.

Ficha do Trabalho

Título

    O circuito exibidor na Bahia nos anos 1910 e 1920: um estudo de caso sobre Senhor do Bonfim

Resumo

    Esta comunicação tem como objetivo abordar a formação do circuito exibidor na Bahia entre as décadas de 1910 e 1920. Inicialmente, a partir da bibliografia existente, comentamos sobre a presença das atividades de distribuição e exibição em diferentes territórios do estado no referido período, tanto na capital quanto no interior. Em um segundo momento, analisamos o caso da cidade de Senhor do Bonfim, que contou com atividades cinematográficas regulares nas referidas décadas.

Resumo expandido

    É notório o crescimento de trabalhos que tratam, com diferentes abordagens historiográficas, das práticas e dinâmicas do mercado cinematográfico no Brasil. Muitas dessas pesquisas abordam não apenas a produção cinematográfica, como tradicionalmente se constituíram os estudos na história do cinema, mas também os outros setores como a distribuição e a exibição (Ferraz; Freire, 2018). Esses textos, compreendidos dentro de estratégias metodológicas do campo das “histórias de cinemas” (Vieira, 2021), tem ampliado os debates sobre a circulação e a comercialização de filmes em diferentes territórios do país, observando distintos períodos.
    A presente comunicação se articula com essas pesquisas, e tem como objetivo discutir a formação do circuito exibidor da Bahia entre as décadas de 1910 e 1920. Este é o momento de estruturação do mercado distribuidor no Brasil, com a ampliação da oferta de filmes, o que impacta diretamente na abertura de novas salas fixas em cidades de diferentes portes (Freire, 2022). Na Bahia, a capital teve seu circuito de salas de cinema se constituindo a partir do fim de 1909, com o Cinema Bahia, seguido pela abertura de diversos outros espaços de exibição, como o Teatro São João, o Jandaia, o Ideal, o Olímpia e o Guarany (Gama, 2024).
    Mas fazer o levantamento das salas que foram abertas no interior neste momento é bem mais complexo, diante do tamanho do território e do pequeno número de pesquisas realizadas sobre o tema, bem como a escassez de fontes mapeadas, a exemplo de jornais locais e outros documentos. Alguns trabalhos acadêmicos ajudam a construir parte desse histórico, como a pesquisa de Eudes Guimarães (2012), que trata da presença de exibidores itinerantes em Caetité; a obra de Beatriz Sacramento (2021), abordando as salas de cinema em Feira de Santana nos anos 1910 e 1920; e a dissertação de Mary Lucy Lima (2021), que comenta sobre a abertura das primeiras salas em Ilhéus.
    No caso de Senhor do Bonfim, uma cidade que possuía pequeno porte e estava distante de Salvador, ela contou, nas décadas de 1910 e 1920, com o funcionamento de uma sala fixa regular, localizada na Praça Doutor José Gonçalves (uma das principais da cidade). Como mostra o jornal “Correio do Bonfim”, este mesmo “espaço cinematográfico” contou com diversos proprietários ao longo de quase duas décadas, e diferentes nomes: entre 1913 e 1917 se chamou Royal; entre 1917 e meados da década de 1920, foi Confiança; depois passou a se chamar Bonfim e, no fim da década de 1920, de Popular. Em seus primeiros anos, observamos o predomínio do cinema europeu em suas telas, mas a partir de 1921, a produção dos EUA dominou sua programação, assim como fez em boa parte do território baiano (Gama, 2024).
    Feira de Santana e Senhor do Bonfim estavam conectadas à Salvador, que era o principal centro distribuidor de filmes do estado, a partir de ferrovias, o que facilitava a circulação de películas e de profissionais. Ilhéus viveu um período de ampliação dos seus centros de diversão, associados diretamente ao crescimento da cidade e ao ótimo momento econômico do comércio de cacau. Caetité, por outro lado, apresentava maior dificuldade em estabelecer uma sala fixa, diante da ausência de uma estrada de ferro e da precariedade das estradas de rodagem, o que dificultava a circulação de pessoas e mercadorias, impactando diretamente na chegada e devolução das películas. Por isso, neste período, fica evidente o predomínio de atividades cinematográficas temporárias na cidade. Outras localidades, como Jacobina e Juazeiro, tiveram suas primeiras salas de funcionamento regular apenas anos 1920, operando geralmente de forma precária (Gama, 2024). Se na década de 1910 é difícil compor um quadro mais exato do circuito de cinema no interior da Bahia, nos anos 1920 há alguns dos primeiros levantamentos oficiais do Estado, mas os estudos sobre o tema, em diferentes territórios, ainda se constituem uma importante missão para novas pesquisas.

Bibliografia

    FERRAZ, T.; FREIRE, R. de L. No encalço dos modos de ver os cinemas e seus públicos. C-Legenda. N. 36, Niterói-RJ, 2018.
    FREIRE, R. de L. O negócio do filme: a distribuição cinematográfica no Brasil 1907-1915. Rio de Janeiro: Museu de Arte Moderna, 2022.
    GAMA, F. B. Entre a capital e o interior: a circulação de filmes na Bahia até a década de 1920. Tese (doutorado). UFF, Niterói, 2024.
    GUIMARÃES, E. M. B. Um painel com cangalhas e bicicletas: os (des)caminhos da modernidade no alto sertão da Bahia (Caetité, 1910-1930). Dissertação (Mestrado), Unesp, Franca, 2012.
    LIMA, M. L. S. O cinema na Belle Époque Ilheense. Dissertação (Mestrado), UESC, Ilhéus, 2021.
    SACRAMENTO, B. C. “Me leva sempre ao cinema, vos suplico Santa Emma”: o cinema e as elites em Feira de Santana (1912-1938). Dissertação (Mestrado). UFBA, Salvador, 2021.
    VIEIRA, J. L. Prefácio. In: BRUM, A.; RYAN, B. (org.). Histórias de cinemas de rua de Minas Gerais. Juiz de Fora, MG: Editora UFJF, 2021.