Ficha do Proponente
Proponente
- Luiza Rossi Campos (IFB e UnB)
Minicurrículo
- Luiza Rossi Campos é professora do Instituto Federal de Brasília (IFB), campus Recanto das Emas, e doutoranda em Comunicação e Sociedade pela Universidade de Brasília (PPGCOM/FAC/UnB), pesquisando festivais de cinema ativistas como ferramentas de educação e cultura em e para os direitos humanos. É mestra (PPGCOM/FAC/UnB, 2022) com pesquisa sobre a Mostra Cinema e Direitos Humanos; bacharela em Cinema e Mídias Digitais (IESB, 2018) e bacharela e licenciada em Ciências Sociais (UnB, 2013).
Ficha do Trabalho
Título
- Festivais de cinema ativistas: proposta de quadro analítico
Seminário
- Festivais e Mostras de Cinema e Audiovisual
Resumo
- Este trabalho propõe um quadro analítico voltado a festivais de cinema ativistas (Iordanova; Torchin, 2012; Tascón; Wils, 2017), apresentando uma esquematização de aspectos e fatores determinantes, gerando impactos relevantes tanto por sua presença quanto ausência. Tal quadro é construído a partir de revisão de literatura de estudos de caso, de categorias de festivais audiovisuais (Mattos, 2013) e do Modelo Tecnopolítico de Análise de Inovações Democráticas (Freitas; Sampaio; Avelino, 2023).
Resumo expandido
- Festivais de cinema ativistas podem ser definidos como aqueles eminentemente engajados socialmente, orientados pela busca em promover que os filmes e atividades paralelas suscitem deslocamentos no público, mobilizando-o em torno de uma visão crítica acerca de determinada temática social (Iordanova; Torchin, 2012). Caracterizam-se, assim, por sua inclinação à ação social, à interferência na realidade, tendo que, como aponta Tascón (2015), o que “os difere de outros festivais de cinema” é que “operam em uma plataforma de mudança social/política mais do que de cinefilia, embora elementos dessa ainda estejam presentes” (2015, p. 44, tradução livre). Dessa forma, estabelecem-se usualmente a partir do entrelaçamento da ação de agentes advindos de múltiplos campos, tais como os campos cinematográfico, educacional, social, ativista e inclusive político. São exemplos de festivais do gênero: festivais ambientais, LGBTQ+, PcD, feministas, de negritude, de moradia, pacifistas, entre outros, configurando uma ampla rede, como é exemplo a Human Rights Film Network (hrfn.org).
Conforme aponta de Valck (2016, p. 4-5), “Esses festivais endereçam uma variada paleta de assuntos sociais – injustiças, iniquidades, discriminação, desastres ambientais, etc. – através da mídia do filme na esperança de espalhar conscientização dos problemas, corrigir falsas crenças, contrapor interpretações equivocadas e em última instância contribuir para promover sociedades melhores e mais justas (de Valck, 2016, p. 4-5, tradução livre)”.
A despeito da variedade de exemplos de festivais de cinema ativistas e dos múltiplos estudos de caso que permeiam a literatura especializada, segundo a mesma autora, “Definições estanques contribuem pouco para o avanço da compreensão sobre festivais de cinema. Em contrapartida, o que se faz necessário são quadros conceituais que possam ser utilizados para evidenciar os diferentes mecanismos operando internamente e através dos festivais, bem como parâmetros que nos permitam diferenciá-los uns dos outros (de Valck, 2016, p. 1, tradução livre)”.
Buscando endereçar essa necessidade, este trabalho, fruto de pesquisa de doutorado em curso, propõe e debate um quadro analítico que esquematiza aspectos e fatores considerados nevrálgicos para festivais de cinema ativistas, gerando impactos relevantes tanto por sua presença quanto por sua ausência. O termo “nevrálgico” se baseia no conceito de ponto obrigatório de passagem (obligatory point of passage), da Teoria do Ator-Rede (ANT), conceito que caracteriza atores humanos e/ou não-humanos particularmente importantes em uma rede, pelos quais quase todos os outros agentes precisam remeter em algum momento de sua ação, de modo que se tornam indispensáveis à configuração do ator-rede em questão (no caso, o festival de cinema ativista).
Assim, aponta-se a Teoria do Ator-Rede (Latour, 2012) como teoria de fundo que sustenta a metodologia utilizada neste trabalho, orientada para “rastrear as associações” entre atores, “desemaranhar” as ações (2012, p. 72) e “planificar o cenário” para observar os caminhos pelos quais transitam, se conectam e criam sentido. Segundo a ANT, é importante o exercício de deslocamento entre diferentes quadros de referência (2012, p. 84), de modo que o objeto não tenha que se “enquadrar” e corresponder a um modelo, mas, por outro lado, que a variedade de abordagens contribua para dar conta da riqueza apresentada pelo objeto.
Tendo em vista essa consideração, para a construção do quadro em questão, procedeu-se à revisão de literatura de estudos de caso de festivais de cinema ativistas; observaram-se categorias de festivais audiovisuais propostas por Tetê Mattos (2013); e consideraram-se dimensões, categorias e indicadores apontados no Modelo Tecnopolítico de Análise de Inovações Democráticas (Freitas; Sampaio; Avelino, 2023).
Bibliografia
- De Valck, M.; Kredell, B.; Loist, S. (orgs.). Film Festival: history, theory, method, practice. Londres e Nova York: Routledge, 2016.
Freitas, C. S.; Sampaio, R.; Avelino, D. Proposta de Análise Tecnopolítica das Inovações Democráticas. Brasília: Ipea, 02-2023. Disponível em: http://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/11514. Último acesso: 08 de fevereiro de 2026.
Iordanova, D.; Torchin, L. Film Festival Yearbook IV: Film Festivals and Activism. Scotland/UK: St Andrews Film Studies, 2012.
Latour, B. Reagregando o social: uma introdução à Teoria do Ator-Rede. Salvador: EDUFBA, 2012.
Mattos, T. Festivais pra quê? Um estudo crítico sobre festivais audiovisuais brasileiros. In: A Recepção Cinematográfica: teoria e estudos de caso. Salvador: EDUFBA, 2013, pp. 117-131.
Tascón, S. Human Rights Film Festivals: activism in context. UK: Palgrave MacMillan, 2015.
Tascón, S.; Wils, T. Activist Film Festivals: towards a political subject. UK: Bristol, 2017.