Ficha do Proponente
Proponente
- Helena de Araujo Zimbrão (UFF)
Minicurrículo
- Helena Zimbrão, mestranda no PPGCINE-UFF, pesquisa cinemas de rua e práticas de sociabilidade. É integrante do Grupo de Pesquisa “Modos de Ver – Estudos das salas de cinema, exibição e audiências cinematográficas” (ESPM/CNPq). Atua como Co-Editora de Memória, Preservação e Cultura Audiovisual no OCA-UFF. É diretora, montadora e fotógrafa. Destacam-se os trabalhos “Ensaio Sobre a Insegurança” (Festival do Minuto/2020) e “como nascem as farmácias” (Festival Ecrã/2024 e Mostra SESC de Cinema/2024).
Ficha do Trabalho
Título
- Quando o cinema vira terreiro: reinvenções do espaço exibidor no circuito Estação entre 2024 e 2026
Resumo
- O trabalho apresenta um recorte de uma pesquisa de mestrado desenvolvida no PPGCINE-UFF sobre o Grupo Estação. A partir de observação participante e da realização de entrevistas semiestruturadas, analisamos eventos recentes ocorridos no Estação NET Rio que subvertem os usos convencionais do espaço exibidor. Tais práticas reafirmam o potencial dos cinemas de rua como espaços capazes de acolher sociabilidades heterogêneas e de atuar como importantes vetores na produção de subjetividades.
Resumo expandido
- O trabalho é um desdobramento de uma pesquisa de mestrado, desenvolvida no PPGCine-UFF, sobre o Grupo Estação, empresa exibidora e distribuidora cinematográfica, situada no Rio de Janeiro desde 1985. Neste recorte, buscamos mapear algumas das atividades realizadas no Estação NET Rio – um cinema de rua integrante do circuito Estação –, que demonstram significativa capacidade de reconfigurar os modos de fruição e os usos convencionais que fazemos do espaço exibidor.
A partir de ferramentas como a observação participante e a coleta de entrevistas semiestruturadas (CAIAFA, 2007), reunimos, ao longo de dois anos de pesquisa, um conjunto de registros referentes aos seguintes episódios: o concurso de sósias do ator Selton Mello (2024); o velório do ator Paulo César Pereio (2024); a transmissão da cerimônia de premiação do Oscar (2025); o evento Cinema de Pijama (2025); as comemorações de aniversário dos cineastas Cavi Borges e Eunice Gutman (2025); e a festa Me Chama de Pop (2026).
Argumentamos que os eventos supracitados podem ser interpretados à luz das reflexões de Luiz Antônio Simas (2021; 2022). O autor analisa como determinados territórios, inicialmente definidos por suas funções ordinárias, podem transfigurar-se em terreiros, isto é, um “espaço praticado na dimensão do encantamento do mundo” (Simas, 2022, p. 5), quando atravessados por experiências coletivas de encontro. Por “encontro”, entendemos uma afecção, ou seja, um efeito causado em um corpo por algo ou alguém, que pode aumentar ou diminuir a potência de agir dos sujeitos envolvidos (Deleuze, 2002). Nessa perspectiva, pensar o cinema como terreiro implica concebê-lo como um espaço ritualizado, atravessado por formas específicas de pertencimento, mobilizadas por meio da festa, da brincadeira, do riso, da catarse e de toda sorte de invenções cotidianas que abrem caminho para processos de reinvenção e reapropriação.
Aqui, trabalhamos com os apontamentos de Alessandro Falassi (1987) acerca dos rituais festivos, entendidos como práticas que renovam continuamente o fluxo de vida de uma comunidade ao assegurarem sua “identidade social, continuidade histórica e sobrevivência física” (Falassi, 1987, p.2). Seguindo os trilhos de Tetê Mattos (2018), compreendemos o festival como um fenômeno de comunicação capaz de engendrar trocas simbólicas e produzir experiências de cidade.
Nesse regime de festivalização – ou mesmo de carnavalização –, o cinema acomoda múltiplas formas de sociabilidade e atua na produção de subjetividades coletivas, não apenas pelos filmes assistidos, mas também pelas companhias e pelos momentos vividos nesse local (Ferraz, 2012). Mediados pela celebração e pelo culto à sétima arte (Carvalho, 2023), os eventos analisados favorecem a construção de vínculos afetivos duradouros com o espaço exibidor, na medida em que produzem lembranças compartilhadas, posteriormente retomadas e narradas por aqueles que delas participaram. Assim, argumentamos que é nesse processo de encantamento do espaço cotidiano e de inscrição na memória coletiva que o cinema reafirma sua vitalidade, consolidando-se como um espaço de encontro, pertencimento e reinvenção contínua das formas de vivenciar a experiência cinematográfica.
Bibliografia
- CAIAFA, Janice. Aventura das cidades: ensaios e etnografias. FGV Editora, 2007.
CARVALHO, Thiago. Cinema é Celebração: a cena de exibição de cinema e audiovisual independentes do Rio de Janeiro na virada dos anos 2000. Rio de Janeiro: Autografia, 2023.
DELEUZE, Gilles. Espinosa: filosofia prática. Escuta, 2002.
FALASSI, Alessandro. Time out of time: Essays on the festival. University of New Mexico Press. 1987.
FERRAZ, Talitha. A segunda Cinelândia carioca. MV Serviços e Editora LTDA-Mórula Editorial, 2012.
MATTOS, Tetê. O Festival do Rio e a construção do imaginário da cidade. In: Gabriel Menotti. (Org.). Curadoria, cinema e outros modos de dar a ver. 1ed. Vitória: EDUFES, 2018, v. 1, p. 177-188.
SIMAS, Luiz Antonio. Maracanã: quando a cidade era terreiro. Mórula Editorial, 2021.
SIMAS, Luiz Antonio. Sonetos de birosca e poemas de terreiro. 1 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2022.