Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    João Marciano Neto (UNESP)

Minicurrículo

    Doutorando e Mestre em Comunicação Midiática pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP). Bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Bolsista pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.

Ficha do Trabalho

Título

    O “EXORCISMO” DA VIOLÊNCIA COLONIAL E DO NEOCONSERVADORISMO EM O CEMITÉRIO DAS ALMAS MALDITAS (2020)

Resumo

    O trabalho consiste em uma análise do filme O Cemitério das Almas Perdidas (2020). O objetivo é compreender como o filme aproxima a noção de Horror Social (Carreiro; Cánepa, 2025) com as articulações entre arte e política de Rancière (2012) ao pautar as violências coloniais em paralelo com os discursos neoconservadores contemporâneos.

Resumo expandido

    INTRODUÇÃO

    Desde a segunda década do século XXI, uma gama de filmes brasileiros tem se destacado pela forma como elementos do gênero são acionados para comentar, mas não de maneira didática, os conflitos culturais e sociais no país ― muitos deles heranças do período colonial ―, atendando-se a interseccionalidade das violências invisibilizadas pela vida cotidiana. Tal fenômeno, identificado como terror incidental (Cánepa, 2013) ou Horror Social (Carreiro; Cánepa, 2025), surge da capacidade do gênero de horror, mesmo quando não trabalhado integralmente dentro de uma obra, de servir como um registro das ansiedades sociais de uma determinada época. No Brasil, sua emergência coincide com o período de reavivamento político da Extrema Direita com discursos intolerantes com base no fundamentalismo religioso.

    Dentro desse contexto, o cineasta Rodrigo Aragão produz o longa O Cemitério das Almas Perdidas (2020), que narra a história de um circense negro que, com seus colegas, é hostilizado pela comunidade crente de uma pequena vila e em seguida levado como sacrifício aos malignos fantasmas jesuítas presos em uma velha capela. Na tentativa de sobreviver aos entes malditos, o rapaz se alia com o espírito de uma indígena, aprisionada com os fantasmas portugueses. A partir da alegoria do filme, buscaremos na análise apontar as aproximações entre o Horror Social com a teoria de Rancière na crítica ao neoconservadorismo.

    SOBRE O FILME

    Referente a nova onda de conservadorismo, Cunha (2020) aponta que o crescimento da população evangélica de linha Pentecostal e de sua participação no espaço público é um dos elementos formadores do movimento que ela identifica como neoconservador. Segundo a autora, o que diferencia o conservadorismo tradicional de sua recente expressão é, além da exploração intensa das mídias, é um discurso que une a mentalidade neoliberal e fundamentalismo religioso para antagonizar com pautas sociais. Todavia, o neoconservadorismo cristão não é exclusivo dos evangélicos. Alas da igreja católica e outras autoridades religiosas também fazem parte desse cenário. Historicamente no Brasil, e no mundo, vários regimes de opressão e de resistência a transformações sociais foram apoiados por lideranças cristãs. Através de demônios jesuítas, o filme de Aragão recorda este fato.

    Para Couto e Gutfreind (2022), que assim como aqui considera o título um dos representantes da vertente do Horror Social, o filme promove uma nova leitura da fundação da sociedade brasileira destacando a violência cometida pelos colonizadores que ecoa e se atualiza ao longo de nossa história. Indo um pouco além, compreendemos que O Cemitério das Almas Perdidas (2020) dialoga também com o cenário de neoconservadorismo brasileiro. Focando em figuras religiosas vilanescas e abjetas, o filme se utiliza do horror como mecanismo de ruptura com a convenção, permitindo o aparecimento de outras falas e corpos invisibilizados, introduzindo-os como agentes no debate, mecanismo esse que se enquadra naquilo que Rancière (2012), na sua visão das relações entre arte, estética e política, entende por dissenso. O foco dado à violência contra personagens étnicos faz aparecer o racismo por trás do fundamentalismo cristão, que anseia o controle e a exploração dos corpos marginalizados, e estabelece um paralelo com o cenário sócio-político contemporâneo. Ao final com a substituição dos jesuítas pelo protagonista negro, o filme abre a possibilidade de se “sonhar” com um outro projeto de nação.

    CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Desmontando o mito de fundação, deslocando a perspectiva da colonização para a dos corpos violentados e pautando a legitimação de tais violências por discurso de fé, O Cemitério das Almas Perdidas (2020) utiliza do horror para abordar a “herança maldita” da colonização ao mesmo tempo em que produz um comentário sobre o neoconservadorismo por semelhança, o que o faz uma ficção dissensual por dar visibilidade às experiências dos historicamente silenciados.

Bibliografia

    CANEPA, Laura. Terror incidental?. Revista Interlúdio. São Paulo, 13 jan. 2013. Disponível em: https://revistainterludioarquivo.wordpress.com/2013/01/13/terror-incidental/. Acesso em: 22 jan. 2026.
    CARREIRO; Rodrigo; CANEPA; Laura Loguercio. Cinema de Horror: uma introdução. São Paulo: Gênio Editorial, 2025.
    COUTO, Giancarlo; GUTFREIND, Cristiane Freitas. O cemitério das almas perdidas: como uma imagem de horror reconta a história e redescobre o Brasil. Galáxia. Revista Interdisciplinar de Comunicação e Cultura, São Paulo, v. 47, n. 47, p. 1-23, 2022. Disponível em: https://encurtador.com.br/Iclr. Acesso em: 23 mar. 2026.
    CUNHA, Magali do Nascimento. Religião e política no Brasil nas primeiras décadas dos anos 2000: o protagonismo dos evangélicos. Fronteiras – Revista de Teologia da Unicap, Recife, v.3, n.1, p. 40-65. Jan,/Jun. 2020. Disponível em: https://encurtador.com.br/VFeR. Acesso em: 07 jan. 2025
    RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.