Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Marília de Orange Uchôa da Fonseca (UFPE)

Minicurrículo

    Professora, fotógrafa e pesquisadora recifense. Graduada em Fotografia (UNICAP, 2013) e licenciada em Artes Visuais (ETEP, 2025). Especialista em Estudos Cinematográficos (UNICAP, 2015), mestra (2019) e doutora (2026) em Comunicação (PPGCOM/UFPE). Atua na interface entre arte, pesquisa e docência, com ênfase em cinema e fotografia, investigando estética e cultura visual, especialmente surrealismo, afro-surrealismo e o onírico.

Coautor

    Marcos Antonio de Lima Junior (UAM)

Ficha do Trabalho

Título

    Onírico, absurdo e afro-surrealismo em Atlanta: reparação como terror

Seminário

    Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual

Resumo

    Esta comunicação analisa a série Atlanta, especialmente o episódio A Grande Vingança, a partir do afro-surrealismo. Investiga como onírico e absurdo operam como dispositivos estéticos e epistemológicos que desestabilizam a percepção e revelam violências estruturais. Por meio de análise fílmica, demonstra como o episódio articula verossimilhança, maravilhoso e insólito para figurar a reparação, expondo o colapso da branquitude e a lógica desigual que sustenta a normalidade social.

Resumo expandido

    Reparação, mais que gesto corretivo, é um ato ético, político e simbólico que enfrenta as violências no presente. Para populações negras, a “falta” não é episódica, mas histórica: projeto contínuo de expropriação de corpos, mentes, territórios, afetos e futuros. Como reconstruir a vida sob o signo da dignidade após tal destituição? É essa ferida que atravessa Atlanta e se intensifica em A Grande Vingança, episódio que acompanha uma realidade onde sujeitos brancos são confrontados judicialmente por descendentes de pessoas que seus ancestrais escravizaram, tomando a reparação como prática de reinscrição no mundo.

    Criada e protagonizada por Donald Glover, Atlanta mobiliza a estética afro-surreal para narrar experiências das margens. O afro-surrealismo, enquanto abordagem artística, volta-se à visibilidade e à reconfiguração das vidas costuradas nas margens, ao articular o sensível e o político sem romper com a materialidade social (Spencer, 2020; Miller, 2009). Nesse regime, onírico e absurdo operam de modo complementar: o primeiro desestabiliza a percepção; o segundo evidencia fraturas da realidade social.

    O onírico, nas artes, remete à lógica dos sonhos – aberta ao mágico e ao fantástico – tensionando o cotidiano por dimensões simbólicas e subjetivas. Como aponta Riveira (2008), o sonho produz imagens alucinatórias com forte impressão de realidade; de modo análogo, sua expressão articula o verossimilhante, o maravilhoso e o insólito, criando universos que desafiam a lógica racional (Orange, 2025). No afro-surreal, esse regime explora “rupturas na temporalidade linear e oscila entre o real e o fantástico” (Spencer, 2020, p. 42), sem supor equilíbrio. Em A Grande Vingança, predomina o verossimilhante – um mundo diegético próximo ao nosso –, contudo o maravilhoso traumático (Spencer, 2020) estrutura a narrativa ao naturalizar o impossível para a branquitude e materializar a cobrança da dívida histórica.

    O absurdo, por sua vez, não se reduz ao nonsense, mas opera – assim como o onírico – como dispositivo epistemológico (Orange; Junior, 2024). Ao intensificar a realidade por meio da deformação, revela contradições estruturais e violências naturalizadas; expõe a fratura entre presença material e reconhecimento simbólico; desestabiliza a ficção de coerência social e evidencia o privilégio como herança. Ao promover a colisão entre experiência concreta e regimes de legibilidade, atua como ferramenta de revelação, fazendo emergir o que a normalidade recalca – aproximando-se, assim, ainda mais do onírico.

    Em Atlanta, o onírico não se apresenta como sonho literal, mas como um “universo limítrofe”, no qual a realidade se desloca de si. No episódio, esse deslocamento se concretiza na transformação do cotidiano do protagonista: ruptura conjugal, cobrança jurídica, demissão e isolamento social configuram uma perda progressiva de estabilidade. A reparação surge como presença simultaneamente real e espectral – juridicamente plausível, mas perceptivamente perturbadora – convertendo o ordinário em experiência de terror.

    Nesse ponto, o episódio explicita sua operação central: ao evidenciar a branquitude como regime de estabilidade perceptiva, mostra que seu colapso não advém do extraordinário, mas da inscrição tardia da justiça. O “absurdo” vivido pelo protagonista – responder por uma dívida histórica – emerge como operador epistemológico do insólito, que estrutura o onírico ao revelar a lógica desigual que sustentava sua normalidade, fazendo emergir o terror não do sobrenatural, mas da perda da imunidade histórica.

    Por fim, Atlanta mobiliza o onírico para situar o espectador no lugar de desencaixe, enquanto o absurdo nomeia a violência estrutural que a normalidade encobre. Em A Grande Vingança, essa articulação se radicaliza ao evidenciar que a justiça, quando dirigida aos historicamente privilegiados, é percebida como ruptura intolerável – um “absurdo” monstruoso –, revelando, assim, não uma exceção, mas a própria engrenagem social.

Bibliografia

    CARREIRO, Rodrigo; CÁNEPA, Laura Loguercio. Cinema de horror: uma introdução. São Paulo: Gênio Editorial, 2025.

    COLEMAN. Robin R. Means. Horror Noire: a representação negra no cinema de terror. DarkSide, 2019.

    MILLER, D. Scot (org). “Manifesto Afro-Surreal: Preto é o novo preto – Um manifesto do século XXI”. San Francisco Bay Guardian, v. 43, n. 34, 2009.

    ORANGE UCHÔA DA FONSECA, Marília de. Desvelando o onírico e seus fundamentos. Art&Sensorium, Curitiba, v. 12, n. 01, p. 1–18, 19 maio 2025. DOI: 10.33871/sensorium.2025.12.10764.

    ORANGE, Marília de. JUNIOR, Marcos. A pele que habito: Atlanta, o não-lugar e o onírico afro-surreal. In: O mal-estar contemporâneo: cinema, horror e decolonialidades. / Rodrigo Carreiro (Organizador). – João Pessoa, PB: Marca de Fantasia, 2024.

    RIVERA, Tania. Cinema, imagem e psicanálise / Tania Rivera. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

    SPENCER, Rochelle. Afro-Surrealism: The African Diaspora’s Surrealist Fiction. Routledge, 2020.